Fascista é a tua tia!
Qualquer alma que se atreva a opor às ideias do extremismo político de esquerda tende a ser apelidado de fascista. O mesmo se pode dizer da direita, que chama comunista a tudo o que mexe. E assim se vai fazendo o branqueamento da verdadeira besta negra do fascismo.
O controverso ex-deputado federal do Brasil, Jean Wyllys (PSOL-RJ) veio a Portugal a convite da Fundação Saramago. Boaventura Sousa Santos convidou-o para falar na Universidade de Coimbra, e o Bloco de Esquerda a reunir na Assembleia da República. Ficamos a saber que tanto Boaventura como Catarina Martins não acham mal que se cuspa na cara dos adversários políticos. Por muito menos do que isso, os ministros João Soares (Cultura), Manuel Pinho (Economia) e Carlos Borrego (Ambiente) tiveram que abandonar diferentes governos de que faziam parte, chefiados por António Costa, José Sócrates e Cavaco Silva, respectivamente. Mas a este senhor tudo é permitido. Até a deselegância de vir a Portugal criticar o nosso Presidente da República por ter ido à posse do novo chefe de Estado do Brasil, em nome das nossas profundas ligações históricas. Até o desvario de afirmar que terá havido financiamento duma “campanha pérfida” contra ele, a partir de Portugal, mas sem apresentar provas, é claro.
O que realmente escandaliza qualquer ser pensante é o conjunto de falácias de que este indivíduo se alimenta. Desde logo, Jean Wyllys diz-se perseguido por ser de esquerda, mas ele não parece ser de esquerda nem de direita, nem de centro, mas um espécime politicamente inclassificável que apenas está a colher o clima de ódio e provocação que andou a semear anos a fio. Ainda agora chamou canalha ao ministro da Justiça e ao Presidente do seu país, em entrevista à imprensa portuguesa. Quem não respeita não merece respeito.
Depois, Jean Wyllys diz que abandonou o Brasil e se exilou por causa de constantes ameaças de morte, mas a verdade é que prometeu em campanha que abandonaria o país caso Bolsonaro ganhasse as eleições – e não foi o único a fazê-lo. Portanto, está apenas a cumprir uma promessa eleitoral e não pode ser criticado por isso. Mas talvez a verdadeira razão da saída pela porta baixa seja o facto de o eleitorado ter revelado profunda insatisfação com o seu desempenho parlamentar e político. Nas últimas eleições, passou de 140 mil votos (2014) para cerca de 24 mil (2018). A votação miserável que obteve quase não o conseguia eleger.
Diz ele: “O que deu a vitória a Bolsonaro foi a homofobia”. Não. Bolsonaro ganhou devido a extrema corrupção, altíssima criminalidade, violência e insegurança, e graças a um eleitorado profundamente desiludido com a governação petista. Jean Wyllys diz também que é perseguido por ser homossexual. Na realidade há muitos homossexuais no Brasil, e mesmo no parlamento federal que não se queixam de perseguição. Em vez de defender os direitos dos homossexuais ele só lhes perturba a luta, porque em vez de lhes defender os direitos exige privilégios, atacando e insultando feroz e repetidamente os adversários.
Jean Wyllys diz ainda que quer ter uma vida tranquila, mas em Portugal não parece possível. Custa a entender que um indivíduo que cuspiu na cara dum adversário político na Câmara dos Deputados, em Brasília, e passou a vida a enxovalhar os sentimentos religiosos de grande parte da população queira de facto paz e tranquilidade. O ex-deputado, que conseguiu alguma notoriedade no programa Big Brother Brasil (Rede Globo), manteve desde o início uma campanha de combate ao cristianismo. Publicou várias mensagens no Twitter onde chamava doentes, homofóbicos, preconceituosos, violentos, ignorantes e fanáticos aos cristãos, e propunha-se eliminar a influência da fé cristã na sociedade, o que provocou a indignação de muitos com as ofensas e os ataques à liberdade de expressão, religião e comunicação.
Diz também que os brasileiros que estão em Portugal são de “inclinação fascista” e que votaram Bolsonaro em “atitude incoerente e hipócrita”: E pergunta: “Isso é má-fé, burrice ou uma tentativa de vir para cá conspirar contra o governo português de esquerda?” A verdade é que se todos os brasileiros que votaram Bolsonaro são tendencialmente fascistas, então mais de 55,13% dos eleitores são protofascistas… E Jean Wyllys sabe que chamar “fascista” a alguém é crime no Brasil. Apetece dizer: “Fascista é a tua tia!” Esta não é uma forma inteligente de combater o que Bolsonaro personifica. Em vez de revelar frustração e ressentimento, o ex-deputado devia combater politicamente a nova governação, com base nas políticas concretas que vão sendo conhecidas, porque o país precisa de oposição inteligente e equilibrada como em qualquer democracia do mundo. Se precisa…
Toda a gente sabe que a população brasileira não é fascista nem comunista, mas alguma coisa a levou a votar em massa numa figura triste como Bolsonaro. O PT lulista (ainda não houve outro que não fosse lulista) e a esquerda radical deviam era pôr a mão na consciência e assumir que falharam redondamente e cometeram inaceitáveis abusos do poder. Além do mais, esta coisa de chamar fascista a quem pensa diferente é uma forma perigosa de branquear o neofascismo, essa besta negra que assoma um pouco por toda a parte.
José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.
[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]
Breves
José Allamano e a Consolata
Exposição fotográfica revela 100 anos de história das missões
Por ocasião dos 100 anos da morte de São José Allamano, assinalados este ano, o Consolata Museu, em Fátima, tem patente ao público uma exposição dedicada a este fundador dos dois institutos missionários. [Texto de Juliana Batista].
Relatório Centro Rossing
Jerusalém: ataques violentos a cristãos quase duplicaram em dois anos
Os ataques violentos a cristãos em Israel e em Jerusalém oriental ocupada estão a tornar-se cada vez mais frequentes, tendo quase duplicado nos dois últimos anos, de acordo com organizações israelitas citadas pelo órgão público de rádio alemão Deutsche Welle (DW).
Apelo ao Governo
Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública
Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.
Sexta-feira Santa
Papa carrega a cruz e meditações da Via Sacra dão voz ao sofrimento dos povos do Médio Oriente
O Papa presidirá a todas as 14 estações da Via Sacra no Coliseu de Roma, carregando a cruz pessoalmente durante toda a liturgia, que será marcada pelas meditações escritas pelo frei franciscano Francesco Patton, ex-Custódio da Terra Santa (2016-2025) e que atualmente vive no santuário do Memorial de Moisés no Monte Nebo, na Jordânia.
Boas notícias
Apelo de Metz
Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana
Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.
É notícia
Entre margens
[Entre Margens]
Guerras e mudanças de regime novidade
Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].
[Entre Margens]
A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber
Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].
[Entre Margens]
Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur
Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].
Cultura e artes
Em 2016 eram quatro milhões
Só numa “app” há quase 20 milhões de pessoas que leem a Bíblia todos os dias novidade
Mais de 18,5 milhões de pessoas em todo o mundo leem diariamente excertos da Bíblia através da aplicação da YouVersion, um crescimento de 13 por cento quando comparado com 2025, anunciou a empresa que está a preparar a segunda edição do Mês Global da Bíblia.
Rostos e Rumos
Adelino Ascenso, o padre missionário que quase foi monge budista
Uma rara experiência durante a juventude levou-o a sítios inóspitos como Katmandu, no Nepal. Na América Latina acompanhou na selva amazónica um pistoleiro durante dez dias. O missionário Adelino Ascenso, que viveu 12 anos no Japão, é o último entrevistado do programa Rostos e Rumos, parceria da TSF e do 7MARGENS.
Livro em cinco línguas
“Diário Privado do Papa Francisco” revelado em novembro
Em italiano, francês, espanhol, inglês e português: é nestas cinco línguas, para 94 países, que será editado a 24 de novembro o diário do Papa Francisco, anotado pelo cardeal Víctor Manuel Fernández, pela Editora do Vaticano.
7MARGENS é co-organizador
Como os média religiosos viveram a nova liberdade de imprensa pós-25 de Abril
“Liberdade de imprensa: revolução e democracia em Portugal” é o tema do colóquio que, no dia 22 de Outubro, colocará em debate, na Universidade Católica Portuguesa (UCP), em Lisboa, investigadores e protagonistas do período pós-25 de Abril de 1974, para aprofundar questões relacionadas com a imprensa – incluindo a religiosa – durante a revolução democrática.
Sete Partidas
7Partidas
Vinte e cinco anos depois
Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].
Visto e Ouvido
Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”
Agenda
[ai1ec view=”agenda”]
















