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Santuário de Fátima
O Santuário no meio de uma cidade onde o voto no candidato da extrema-direita teve a maioria: imigrantes são para alguns o bode expiatório. Foto © António Marujo/7MARGENS

Votos inesperados nas Presidenciais (1)

Fátima: a cidade não vive sem imigrantes, mas deu o primeiro lugar a Ventura

| 04/02/2026

Na freguesia de Fátima, André Ventura venceu a primeira volta das eleições presidenciais, no passado dia 18 de janeiro, com 1.856 votos (27,27%). O 7MARGENS ouviu várias pessoas da cidade – incluindo votantes no líder da extrema-direita, para tentar entender as razões para o facto.

 

Nelson Silva, 31 anos, e Soraia Oliveira, 34 são residentes e votantes em Fátima, e ainda têm presentes os acontecimentos de 2 de junho de 2024: uma rixa entre dezenas de imigrantes provocou um morto, três feridos graves e um ligeiro. Exatamente uma semana antes das eleições presidenciais, a 11 de janeiro, vários imigrantes envolveram-se em confrontos que provocaram vários feridos e algumas detenções. A primeira vez que se registaram desacatos entre comunidades de migrantes foi no final de 2023.

Apesar disso, Nelson “não estava à espera que Ventura ficasse em primeiro lugar” na votação da primeira volta das presidenciais, em Fátima. No entanto, lembrando agora “o que se ouve em cafés e entre comerciantes”, Nelson considera que tal se pode dever à imigração, “nomeadamente a algumas confusões que antes não existiam”. Soraia Oliveira, de 34 anos, que trabalha numa loja de artigos religiosos, acredita que os votos em Ventura, candidato em que admite que votou, se devem precisamente a desacatos entre imigrantes.

Para Andreia Rodrigues, de 32 anos, arqueóloga, o resultado foi uma surpresa. “Não deixou de ser impressionante, se se tiver em conta aquilo que tem sido a votação tradicional, que faz de Fátima, e até de Ourém, um bastião do PSD.” Andreia considera que se pode estar “perante a falência de um sistema liderado pelos dois partidos do arco da governação que falharam sucessivamente em dar resposta às necessidades das pessoas ou, pelo menos, uma grande parte delas assim pensa”.

Associada a esta “falha”, surgiu “alguém que verbaliza parte dessas preocupações e as pessoas sentem que o que está não resultou e estão dispostas a tentar algo novo, mesmo que não saibam bem o que é”. A mulher acredita que tal resultado também se deve à “elevada exposição mediática de que goza” Ventura. “Mais do que refletir as preocupações das pessoas, creio que corresponde, sobretudo, a um voto de protesto sobre o que está mal no país e, para as pessoas, é indiferente se é uma eleição para a Presidência ou para a Assembleia da República.”

Em Fátima, no entanto, nem todos querem falar do tema. Alguns porque alegam não perceber de política e dizem que apenas vão até à mesa de voto “fazer uma cruzinha, mas com pouca informação”. Outros admitem que não foram votar por estarem “indecisos” ou por não terem meios para se deslocarem até ao Salão Paroquial de Fátima, onde estava a assembleia de voto.

Na freguesia de Fátima, João Cotrim Figueiredo foi o segundo candidato mais votado, com 1.486 votos (21,83%), seguido de Luís Marques Mendes, com 1.256 (18,45%), António José Seguro, com 1.104 (16,22%) e Henrique Gouveia e Melo, com 901 (13,24%). A seguir veio Catarina Martins (63 votos, 0,93%), Manuel João Vieira (61, 0,90%), Jorge Pinto (37, 0,54%), António Filipe (29, 0,43 %), André Pestana (11, 0,16 %) e Humberto Correia (3 votos, 0,04 %).

 

“Os imigrantes em Fátima são importantes”

Peregrinos ucranianos na Capelinha das Aparições, em Fátima. Foto © Santuário de Fátima

Ucranianos na Capelinha das Aparições: há muitos imigrantes a trabalhar sobretudo no cuidado com os mais velhos, na hotelaria e restauração. Foto © Santuário de Fátima

Cristina José tem 32 anos, é natural de Angola e vive em Portugal há cinco anos. A filha sofre de autismo não verbal e também tem cinco anos. Atualmente reside em Fátima, onde tem trabalhado num hotel de uma congregação religiosa com colegas, maioritariamente, ucranianas. Já morou em Vieira de Leiria e em breve vai mudar-se para Leiria, para estar mais próxima do local onde a filha tem consultas regulares. Cristina afirma já se ter sentido discriminada em Portugal, mas não em Fátima, ao ouvir “Vai para a tua terra!”

A jovem mãe conta que “não foi votar” por não estar a par das propostas dos candidatos, mas refere se o tivesse feito “teria votado em Ventura ou no PSD”. A vitória de Ventura em Fátima não a assusta. “Não acho que exista algum problema. O Ventura não é contra os imigrantes, mas sim contra aqueles que pretendem tirar algum proveito vindo de subsídios”, considera Cristina. “Não estamos aqui à borla, estamos a trabalhar e damos o nosso contributo. Fátima é muito turística e acho que os imigrantes contribuem muito para esta cidade”, sublinha.

Marisa Sacramento, 40 anos, de São Tomé e Príncipe, tem um olhar diferente. Marisa, cozinheira num lar de idosos, vive com os seus filhos há quase três anos na Cova da Iria, tendo já obtido o visto de residência. “Os funcionários do lar são todos imigrantes. Os patrões é que são portugueses. Há trabalhadores de São Tomé e Príncipe e Angola. Já houve funcionários de Cabo Verde e do Brasil, mas atualmente não.” Os imigrantes que Marisa conhece em Fátima trabalham em “lares, hotéis e restaurantes” e os colegas de trabalho destes são, sobretudo, também imigrantes.

“Eu sinto que os imigrantes em Fátima são importantes. Temos trabalhos duros mas enfrentamo-los, e eu gosto daquilo que faço.” No entanto, o resultado de Ventura deixa-a descontente. “Não queria que ele ganhasse. Gostava que Seguro vencesse. Tenho medo que uma vitória de Ventura possa deixar-nos mal a nós, imigrantes.” O voto da população de Fátima provoca-lhe algum medo. “Ao ver os portugueses aqui de Fátima a votarem em André Ventura, fico triste porque esta é a cidade onde eu vivo.” Marisa refere que “gosta bastante de viver em Fátima”, uma cidade que descreve como “muito calma” e onde “nunca” se sentiu mal com nenhum português.

 

“Ter atenção” aos discursos

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Grupo de debate sinodal de Leiria-Fátima: a mensagem de Fátima “apela à oração, à paz e à reconciliação entre todos” e “não inclui deixar minorias e pessoas mais vulneráveis à margem”, diz uma religiosa. Foto © António Marujo/7MARGENS

Uma religiosa que prefere não se identificar diz ter ficado “admirada, triste e descontente” com o resultado das eleições em Fátima. Enquanto outras duas freiras se negam a prestar declarações sobre o tema, aquela irmã considera que os eleitores “devem ter atenção” aos discursos e programas dos candidatos e que não se devem deixar levar por aparentes “palavras bem-ditas” que “só tentam agradar, mesmo quando até fazem referência à Igreja”.

A religiosa em causa acrescenta que as propostas do partido de Ventura relacionadas com a identidade de género lhe pareciam adequadas, mas sublinha que a mensagem de Fátima “apela à oração, à paz e à reconciliação entre todos” e “não inclui deixar minorias e pessoas mais vulneráveis à margem”. O 7MARGENS solicitou também uma breve conversa de leitura do tema com o reitor do Santuário de Fátima. O gabinete de comunicação da instituição respondeu que o reitor “apenas concede entrevistas que versam assuntos relacionados com o Santuário de Fátima”.

 

Uma população “claramente tradicional”

Fátima

Promessas e penitências: a população de Fátima mantém um “certo conservadorismo”, diz José Poças. Foto © Miguel Veiga

José Poças das Neves, professor e estudioso da história de Fátima no contexto regional e nacional, explica ao 7MARGENS que a população de Fátima é “claramente tradicional” e mantém um “certo conservadorismo”. Para este investigador com diversos livros publicados dedicados à região de Fátima, o resultado da primeira volta das presidenciais em Fátima é um “fenómeno isolado”, que aconteceu num contexto em que Marques Mendes “não era o favorito da maioria do PSD”, e era “visto, por muitas pessoas dentro do PSD, como o sucessor” do “estilo de Marcelo”, que atualmente causa um certo cansaço em muitos.

“Foi também um grito de revolta contra isso”, considera José Poças, acrescentando que “não se pode ver o futuro de Fátima” através destas eleições. “A nível de presidenciais, é um voto que é mais contra Marques Mendes do que propriamente no Chega, na minha perspetiva.” No entanto, José Poças considera que “se o índice de abstenção aumentar”, Ventura “pode ganhar” a segunda volta, no próximo domingo, 8 de fevereiro.

Este professor de História afirma que consegue “compreender” este resultado, visto que é preciso ter em conta que se está perante “um fenómeno de uma pessoa que é populista”, a quem é dada muita atenção nos meios de comunicação. Relativamente às preocupações de alguns residentes em relação à imigração, o investigador sublinha que antes da presença dos imigrantes já existiam “situações de criminalidade” e sublinha que a “imigração sustenta Fátima” e que a cidade “não poderia viver sem” eles, “principalmente as pessoas que vivem na restauração”.

José Poças acrescenta que “grande parte dos hotéis vivem da mão-de-obra de imigrantes”, com um cenário semelhante a acontecer em lares e restaurantes. “Noventa e oito por cento dos imigrantes que estão em Fátima são pessoas absolutamente integradas na sociedade”, afirma o investigador.

 

Cáritas apoia imigrantes com emprego sazonal

A Cáritas está a apoiar os refugiados ucranianos. Foto © Caritas International

A Cáritas de Fátima apoia muitos imigrantes, sobretudo entre Outubro e Maio. Foto © Caritas International

Apesar de a maioria dos imigrantes estarem integrados, o preço alto da habitação e a sazonalidade do trabalho faz com que eles sejam os principais beneficiados pela ação da Cáritas Paroquial de Fátima, conforme explica Eugénia Silva, responsável por este organismo, também em declarações ao 7MARGENS. “Cerca de 98% das famílias inscritas na Cáritas são imigrantes”, disse a responsável. “Geralmente, as pessoas trabalham, recebem o ordenado mínimo, mas é difícil pagar rendas de habitação”, diz Eugénia Silva. Após o pagamento das rendas, explica, torna-se escassa a margem para “suportar despesas” como a alimentação.

Atualmente, a Cáritas de Fátima apoia cerca de 80 famílias. “Temos população de vários países: o maior grupo é de brasileiros e depois há angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos e colombianos.” Ao contrário dos brasileiros e da população dos países lusófonos africanos, com famílias completas –pessoas de todas as idades e várias crianças – os colombianos são “muito jovens”, deslocam-se “sozinhos” até Portugal e em Fátima trabalham, maioritariamente, em instituições que acolhem pessoas com deficiência, onde são conhecidos por serem “muito afetuosos” com os utentes.

Em geral, a população imigrante trabalha em lares de idosos, mas também em hotéis e restaurantes, cuja sazonalidade do trabalho atira muitos para o desemprego. “Há muita gente no desemprego, porque estamos numa cidade que é sazonal. Entre outubro e março temos um aumento populacional de famílias apoiadas. De maio até outubro, algumas famílias deixam de nos procurar porque conseguem orientar-se com os seus ordenados”, explicou a responsável. Depois de uma análise à situação das pessoas que solicitam apoio, a ajuda da Cáritas faz-se através da entrega de bens alimentares, artigos de higiene e vestuário. Ocasionalmente, a Cáritas apoia a compra de medicamentos e o pagamento de rendas e de faturas da água e da luz.

 

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