Começo por uma declaração de interesses: sou católico, acredito no conteúdo sobrenatural de Fátima, já fui diversas vezes a Fátima nas mais variadas circunstâncias; não sou comunista, nunca fui à Festa do Avante, contra a realização da qual aliás nada me move; sem concordar com a maior parte dos seus princípios doutrinais, considero o Partido Comunista Português como um partido importante para a vida democrática em Portugal, tal qual a concebo – e lembro sempre, a propósito, a célebre frase de Ernesto Melo Antunes no final do dia 25 de novembro de 1975.
Feita esta declaração, permitam-me duas ou três reflexões, como cristão católico, sobre a polémica instalada na sociedade portuguesa, relativamente aos acontecimentos na Quinta da Atalaia e na Cova da Iria.
Em primeiro lugar, comparar o acontecimento da Festa do Avante com uma peregrinação ao Santuário de Fátima, só pode fazer sentido para quem não conhece qualquer um dos acontecimentos.
Efetivamente, de um lado, na Quinta da Atalaia temos uma Festa, com todas as características que uma festa deve ter e bem, seja ela de caracter mais político, mais cultural, mais festivo ou uma mistura de tudo isto, que é o caso em questão. Há espetáculo, há restauração, há expressões de saudável alegria, tudo isso entrecortado por discursos mais ou menos doseados, anunciando as intenções políticas do partido organizador. Tudo correto com os pressupostos da organização e os objetivos pretendidos.
Do outro lado, na Cova da Iria, temos tão só uma cerimónia religiosa, com o recato e a intimidade que a religião deve ter e bem, mesmo quando é celebrada em coletivo. Há oração, deslocação processional com dois pontos altos, as Velas e o Adeus, meditação individual ou em grupos, intervenções que orientam a oração.
Na Quinta da Atalaia faz todo o sentido pré-definir o número das presenças, os espaços a ocupar individualmente, localizar as cadeiras. É assim que pode e deve ser num espetáculo, tendo em conta a situação pandémica que se vive no país. Já na Cova da Iria nada disto faz grande sentido sem deteriorar, diria mesmo degradar, “aquilo” para que as pessoas lá se deslocam.
Atenção para os mais distraídos: quer então dizer que Fátima pode acontecer com milhares de pessoas, sem regras, indisciplinadamente, sem sentido de responsabilidade, contrariamente ao que, e bem, aconteceu na Festa do Avante? Não! Muito pelo contrário! O que quer dizer é que Fátima NÃO pode acontecer neste 13 de Outubro, porque Fátima não cabe nas regras que seriam imprescindíveis e necessárias impor-lhe.
É de facto assim. Em 13 de setembro, um domingo, admitimos que todos fomos apanhados desprevenidos: peregrinos, fiéis, responsáveis do Santuário, autoridades, etc. Para 13 de outubro, esse argumento já não colhe. Não faz qualquer sentido “encurralar” numa plateia de cadeiras montadas, alinhadas, inamovíveis, na esplanada do Santuário da Cova da Iria ou criar qualquer outro sistema imprescindível à manutenção, disciplinada e socialmente afastada, dos peregrinos no próximo dia 13 de outubro.
Pouco me importa saber quantos campos de futebol cabem no Santuário ou se 16.000 pessoas na Quinta da Atalaia representam mais ou menos cabeças por metro quadrado do que as que, normalmente, estarão presentes no espaço disponível de Fátima numa normal peregrinação em outubro. Este campeonato das estatísticas não cabe no meu conceito de oração ao Pai. Prefiro seguir, mais uma vez, Mateus (6, 5-7):
“Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas [hoje igrejas] e nos cantos das ruas para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: Já receberam a sua recompensa. Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há de recompensar-te.
Nas vossas orações, não sejais como os gentios, que usam de vãs repetições, porque pensam que, por muito falarem, serão atendidos. Não façais como eles porque o vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de lho pedirdes.”
Acontece que responsáveis religiosos e autoridades civis tiveram uma reunião na passada segunda-feira, dia 21 deste mês, para definir as tais “regras de saúde pública” que permitam realizar a peregrinação do 13 de outubro deste ano atípico.
Atrevo-me a fazer uma sugestão ao cardeal António Marto, sem qualquer ilusão de que a mesma seja por ele aceite ou sequer mesmo conhecida.
Senhor cardeal: tome, por si, a iniciativa, em nome da Igreja que na sua diocese representa, de avançar com a decisão de realizar as cerimónias do 13 de outubro de 2020 na Cova da Iria sem peregrinos, nem fiéis fisicamente presentes. E como a Igreja em Portugal não dispõe de autonomia de meios de comunicação que lhe permitam tomar a decisão de proporcionar uma boa transmissão televisiva dessas cerimónias, negoceie, isso sim, com as Autoridades Civis a possibilidade dessa transmissão ser feita, ou pelo menos dos seus momentos mais significativos. Convide depois os fiéis que possam ter acesso a essas transmissões a participar de acordo com o evangelho de Mateus: “no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te”.
Senhor cardeal Marto: ofereça-nos, com a sua presença solitária na esplanada do Santuário, uma réplica daquela enorme imagem dada ao mundo pelo Papa Francisco, percorrendo solitário – mas acompanhado por milhões de fiéis – debaixo de chuva, a Praça de S. Pedro, na Páscoa de 2020.
Senhor cardeal António Marto: creia que a Igreja prestará, assim, um grande serviço a este País, quase sempre de faz de conta, e terá consigo “no quarto mais secreto e, fechada a porta”, milhares de fiéis a segui-lo, rezando à “Senhora mais brilhante que o Sol” e à Jacinta e ao Francisco, vítimas da pandemia de 1918, com velas acesas à noite do dia 12 e lenços brancos no Adeus, ao final da manhã do dia 13 de outubro de 2020.
Fernando Gomes da Silva é engenheiro agrónomo










