
Alfredo Teixeira no 7MARGENS da Antena 1: “Fátima ancorou-se em dinâmicas mais biográficas”, numa dinâmica que acompanhou a “emergência de uma religiosidade mais individualizada”. Foto © António Marujo/7MARGENS
“Fátima é talvez um dos laboratórios de uma modernidade religiosa em Portugal, e de uma forma paradoxal.” A afirmação é de Alfredo Teixeira, professor na Universidade Católica Portuguesa (UCP) no âmbito dos Estudos de Religião e da Teologia Prática, em entrevista ao programa 7MARGENS da Antena 1.
Um dos registos do paradoxo que Fátima exige tem a ver com o que se passou durante o Estado Novo e a Guerra Colonial: Fátima poderia servir para uma certa “representação imperial de Portugal” mas, ao mesmo tempo, “por ser um lugar de expressão das dores, das feridas que as famílias e os portugueses viviam”, poderia ser também um “lugar de resistência silenciosa”.
Essa manifestação do “cais das lágrimas de que fala frei Bento Domingues”, no livro A Religião dos Portugueses (edição Temas e Debates), é sublinhada ainda por um pormenor “muito interessante” do “ponto de vista antropológico: em Fátima, os homens choram”, nota Alfredo Teixeira na entrevista, realizada a propósito das celebrações que, neste 12-13 de Maio, assinalam no santuário o início dos acontecimentos de 1917. Recordando que Fátima não é compreensível sem percebermos o que se passou na I República, o antropólogo acrescenta que tão pouco se pode dizer que “Fátima tenha sido um lugar de revoluções, de resistência explícita” à ditadura. Mas uma boa parte das chamadas “aparições marianas” surgem “em momentos críticos para o catolicismo em diversas sociedades”, em situações de “tensão e conflito”.
Doutorado em Antropologia Política e mestre em Teologia Sistemática, o co-coordenador da rede de investigadores Religião nas Múltiplas Modernidades foi já director do Instituto de Ciências Religiosas e do Instituto de Estudos de Religião e é investigador do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (CITER). É ainda coeditor da Revista de Estudos da Religião da Pontifícia Universidade de São Paulo e membro do conselho artístico da revista de música litúrgica Salicus, e faz parte da Comissão da Liberdade Religiosa, do Ministério da Justiça, desde 2016.
A expressão “cais de lágrimas”, de que fala frei Bento Domingues, “chama a atenção também para a relação que Fátima tem com todas as experiências de partida, seja a partida para a emigração nos anos 60, seja a partida para a Guerra Colonial”, refere Alfredo Teixeira. “Enfim, os diferentes êxodos e exílios que os portugueses viveram foram acompanhados por um fenómeno que tinha uma enorme portabilidade, ao contrário da religiosidade tradicional, que era uma espécie do Deus da nossa terra.” E essa portabilidade garante “uma presença nos diferentes lugares onde as comunidades portuguesas se vão recompor”. E a propósito da relação de Fátima com a questão da guerra e da paz, ouviu-se no programa a voz de Isabel Silvestre a cantar Miraculosa Rainha dos Céus:
Fátima ainda “junta algum do reportório religioso mais tradicional – as práticas votivas ligadas à promessa, práticas que ligam com o sagrado a partir da lógica do dom e do contra-dom –, mas ao mesmo tempo desvinculou-se da tradicional prática de romaria que estruturava grande parte da religiosidade tradicional portuguesa”. Esta estava “muito ancorada nas dinâmicas de civilização paroquial” e era “fortemente comunitária”. Ao contrário, “Fátima ancorou-se em dinâmicas mais biográficas”, numa dinâmica que acompanhou a “emergência de uma religiosidade mais individualizada”. Um fenómeno que cria um “intervalo significativo” entre as propostas do santuário “em torno da mensagem de Fátima e a multiplicidade de práticas que descrevem a presença dos peregrinos naquele recinto”, muitos dos quais “não conhecerão sequer a mensagem de Fátima”.
Alfredo Teixeira coordena também, desde há mais de cinco anos, a colecção Estudos de Religião, da Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM). No último, Secularização – Genealogias, Modelos e Debates, Jorge Botelho Moniz fala do modo como a religião (não) influencia de forma determinada as escolhas políticas. “Quando saímos da órbita mais privada para questões como o respeito pelo estrangeiro, o acolhimento do estrangeiro, a igualdade para todos, quando saímos para valores cívicos e mais claramente políticos, de uma forma geral as pessoas tendem a mostrar menos sensibilidade ao efeito que as suas crenças religiosas possam ter nesse domínio”, observa Alfredo Teixeira.
Um dos outros livros da colecção, A Religião no Espaço Público Português, de Helena Vilaça e Maria João Oliveira, refere também a existência de minorias religiosas mais valorizadas do que outras no espaço mediático. “A minoria que ainda sofre uma apresentação deficitária na consciência pública serão talvez as Testemunhas de Jeová”, diz Alfredo Teixeira sobre “o grupo que mais perseguições sofreu” no Estado Novo.
No livro Religião, Território e Identidade – Contextos Metropolitanos, que integra igualmente a colecção da INCM, José Pereira Coutinho refere a individualização como marca da religiosidade dos jovens. Há uma dificuldade dos mais novos, observa Alfredo Teixeira, “em participar em lógicas mais colectivas”. Mas esse “não é um fenómeno propriamente religioso, é um fenómeno mais amplo na nossa sociedade”, acrescenta.
Alfredo Teixeira, que também é compositor e dirige um coro, fala na fase final do programa acerca da música de intervenção da época do 25 de Abril de 1974. Trata-se de um repertório que “traduz uma mudança cultural mais ampla” e que “acaba por ter um paralelo naquilo que eram as aspirações nas igrejas cristãs na altura”, com ideias como a participação ou a libertação.
Se escolhesse uma música desse repertório, seria Cantar Alentejano, de José Afonso:
Integrando o disco Cantigas do Maio, lançado em 1971, “o ano da revolução das canções”, esta música “faz memória de uma vítima da violência do Estado Novo”, Catarina Eufémia. A mulher agricultora estava grávida do quarto filho quando foi alvejada por um agente da GNR. Pela proximidade com o Dia da Mãe, que se assinalou no dia 5 deste mês, Alfredo Teixeira escolhe esta música.
Precisamente nas mães que não puderam celebrar o seu dia com os filhos recaiu a escolha de Teixeira entre as notícias mais recentes do 7MARGENS: “O jornalismo deve ser isto também, desfocar o nosso olhar para outros ângulos daquilo que são os nossos quotidianos”, comenta, sobre a chamada de atenção da Amnistia Internacional noticiada a propósito daquela efeméride.
Como sugestão final, Alfredo Teixeira deixa o livro Pentateuco das Passagens, de Joaquim Félix de Carvalho, já referido pelo 7MARGENS. Trata-se de “um livro de livros, de horas, de lugares, três versos quase fulminantes que deflagram sentidos nas palavras”, comenta Alfredo Teixeira.
O programa pode ser ouvido na íntegra em https://www.rtp.pt/play/p12257/7-margens

Alfredo Teixeira, que também é compositor e dirige um coro, fala na fase final do programa acerca da música de intervenção da época do 25 de Abril de 1974. Foto © António Marujo/7MARGENS













