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Fausta e o homem das cicatrizes, o único que (não) fala

| 17/07/2019

Fausta e o homem das cicatrizes, o único que (não) fala

by | 17 Jul 19 | Destaques, Newsletter diária - título, Sociedade, Sociedade - homepage, Últimas

Numa reportagem de televisão sobre o narcotráfico no México, a jornalista Fausta Speranza, editora da secção internacional do L’Osservatore Romano, da Santa Sé, tem muitas mulheres a falar durante os 45 minutos do documentário. O único homem que aceitou dar a cara (Fausta abordou muitos outros que recusaram) tinha a barriga cheia de cicatrizes mas “não se lembrava” porquê.

Fausta Speranza na conferência sobre “Mulheres, Igreja e jornalismo”, no Instituto Italiano de Cultura, em Lisboa, moderada pela jornalista Lurdes Ferreira. Foto © Nuno Fox

 

Fausta Speranza esteve em Lisboa a falar, no Instituto Italiano de Cultura, sobre “Mulheres, Igreja e Jornalismo”, a convite daquele instituto e do CITER (Centro de Investigação em Teologia e Estudos Religiosos), da Universidade Católica Portuguesa. E não fugiu a dizer que há mulheres que são nomeadas para lugares de responsabilidade na Igreja só porque “são freiras” ou são “mesmo parecidas com os homens, na forma como exercem o poder”.

Quando esteve no México, em Novembro de 2017, com o realizador e produtor Stefano Gabriele, da Framexs, Fausta Speranza tentou “não simplificar” o que se passa sobre o narcotráfico. “No jornalismo toma-se muitas vezes apenas um dado e não se olha para a complexidade.” E uma das coisas que percebeu é que as mulheres “estão menos sozinhas no desespero”. A reportagem intitulava-se México – Entre recordes de violência e beleza (e viria a receber o prémio Libero Bizzarri 2018 para a melhor reportagem televisiva; também o livro que escreveu a partir do mesmo trabalho venceu um prémio de jornalismo de investigação atribuído pelo Senado italiano). E a dada altura, a jornalista deu-se conta que tinha imensas mulheres a falar, mas praticamente nenhum homem; “o único que aceitou estava cheio de cicatrizes na barriga, mas não se lembrava porquê.”

Mural das vítimas do narcotráfico, na paróquia da Sagrada Família, em Acapulco. Foto © Fausta Speranza

 

O México está marcado pela violência dos narcotraficantes. “Quando se trata de lutar contra o tráfico de droga ou a violência, a Igreja Católica está presente”, diz a jornalista italiana. Recorda, a propósito, um mural contra o narcotráfico que viu na paróquia da Sagrada Família, em Acapulco, uma das zonas em que o grau de violência é dos maiores. O mural mostrava os rostos de pessoas raptadas, desaparecidas ou mortas, vítimas dos traficantes.

Estando na altura a fazer a reportagem para a Rádio Vaticana (onde trabalhava) e a revista católica italiana Famiglia Cristiana, Fausta Speranza percebeu: “Eu, mulher, falava de outras mulheres, que para estes média eram importantes e não só como por vezes acontece, para falar de actrizes ou modelos ou dizer se são bonitas ou protagonistas de escândalos.”

Crianças em Chiapas. Foto © Fausta Speranza

Mulheres que macaqueiam homens

Não foi fácil Fausta Speranza afirmar-se, enquanto jornalista, por ser mulher. A primeira vez que se propôs cobrir um acontecimento importante – a cimeira do G8 em Génova, em Julho de 2001, que provocou muitos tumultos –, a jornalista telefonou para o seu director (trabalhava então na RAI, a televisão estatal italiana). “Perguntei por não uma mulher para cobrir a cimeira. Ele disse que era um trabalho duro. Ser mulher, ser jornalista e acompanhar a política internacional é ainda uma condição rara em Itália”, observa.

Hoje, é a primeira mulher jornalista a tratar (desde Abril de 2016), questões de política internacional no L’Osservatore Romano. E também na Igreja, Fausta Speranza vê que há ainda muitas dificuldades, apesar do caminho já percorrido. “O documento mais importante sobre o tema é a Mulieris Dignitatem, de João Paulo II, que reconhece o “génio feminino”, uma ideia que “vai além da igualdade e reconhece a especificidade” da mulher. Mas, admite, respondendo a uma pergunta do 7MARGENS, “tem o risco de exaltar as mulheres e não lhes dar protagonismo”.

Fausta Speranza com Stefano Gabriele, em reportagem no México, em 2017. Foto: Direitos Reservados

 

“É verdade que se fala cada vez mais sobre o tema, no interior do Vaticano, mas para já é só a esperança de que as coisas comecem a mudar. O aspecto mais triste desta questão é que há mulheres que ganham algum espaço, mas apenas se limitam a imitar e macaquear os homens, com uma lógica masculina de poder”, diz a jornalista.

Fausta Speranza observa dois problemas maiores com algumas das escolhas que são feitas: “A chantagem, procurando informação sobre outras pessoas, para as chantagear e fazer carreira” é o primeiro. O outro é o enaltecimento de si mesmo apenas numa lógica de imitar os homens que mandam. “Algumas mulheres são escolhidas apenas porque são freiras ou parecidas com os homens que as escolhem.” Uma mulher com vida própria e estatuto “normal” na sociedade não é convidada, sublinha.

Capela do Rosário, em Puebla. Foto © Fausta Speranza

 

Para que não restem dúvidas sobre o que pensa, Fausta Speranza diz que não quer “mais mulheres” em postos de liderança, mas quer “mais pessoas, homens ou mulheres, que não escondam notícias sobre pedofilia e mais pessoas com qualidades necessárias para liderar”.

A jornalista, no entanto, também já escreveu que se tivesse havido mais mulheres em lugares de responsabilidade, “teria havido menos casos de abusos sexuais e de encobrimento”. E conclui: “Sempre me perguntei, como crente e católica, porque se pede aos divorciados que não comunguem e os padres que abusam de outras pessoas podem continuar a consagrar a hóstia.”

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