AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Reportagem em São Paulo

Favelas no Brasil: condomínio aberto à pura resistência

Corrego na favela do Jardim Planalto. Foto © Tony Neves.

 

“O povo é muito bom, mas as condições de vida são miseráveis”, desabafa o padre Elson Lopes, espiritano cabo-verdiano a viver e trabalhar numa das favelas da periferia de São Paulo. De facto, as favelas condensam muitas formas de pobrezas, mas quem lá vive são pessoas e isso ninguém pode esquecer. Os seus direitos humanos mais elementares são espezinhados: não têm acesso a uma habitação condigna e, na maioria das vezes, também estão longe de beneficiar dos cuidados de saúde elementares ou de uma escolarização regular. O saneamento básico quase nunca existe nas favelas, havendo mais carreiros com pó ou lama que estradas pavimentadas. Boa parte dos habitantes não têm um emprego regular, vivendo da economia informal. Abandonadas pelas autoridades locais, estas populações só podem ter um futuro pior: viver na rua.

O padre Leonardo Silva, brasileiro da Amazónia, chamou-me várias vezes à atenção, durante as travessias do centro de São Paulo, para a quantidade enorme de tendas e barracas montadas nos jardins ou debaixo dos viadutos e das passagens do comboio de altitude. Garantia: “Com os tempos da covid, a população de rua aumentou muito, porque o desemprego fez disparar os despejos e as favelas não absorvem todos os carenciados de casa.” As estatísticas falam alto. Diz o padre Carlos Mariano: “Hoje, 28 de janeiro, morreram 779 pessoas e, até esta data, foram 625.948 as vítimas mortais da covid num país onde as autoridades estão a fazer uma gestão desastrosa da pandemia.” E completa: “É uma vergonha que a FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura] diga que em 2020, há 55,2% do nosso povo a conviver com a insegurança alimentar.”

 

Dos bairros de lata aos musseques e favelas

Favela dos Santos Anjos, em Cabo Frio, em 2005. Foto © Tony Neves

Mas voltemos às favelas. Trata-se de uma realidade muito presente nas grandes cidades brasileiras. Podemos chamar-lhe bairros de lata ou musseques, mas a realidade não muda. Visitava com frequência bairros de lata em Lisboa durante os meus estudos de Teologia na Universidade Católica (1985-1988). Conheci, como jovem padre, os problemas dramáticos do povo angolano que vivia nos musseques (1989-1994). Reencontrei este mundo dramáticos das favelas quando fiz um mês de missão com membros dos Jovens Sem Fronteiras nas periferias do Rio de Janeiro (agosto de 2005), a convite do padre Luís Oliveira Martins, espiritano português de Barcelos, há quatro décadas no Brasil.

A favela dos Santos Anjos Custódios, em Cabo Frio, acolheu-nos de braços abertos e mostrou-nos as suas feridas. As habitações eram muitos frágeis e sem espaços, muitas crianças não eram vacinadas nem iam à escola, havia muita violência doméstica e de bairro, o desemprego era alto… Por outro lado, as pessoas eram simpáticas e acolhedoras, lutavam muito, trabalhavam dia e noite para sobreviver e assegurar a vida dos seus familiares. Encontramos também muita solidariedade entre as pessoas do bairro que se uniam em “mutirão” para lutar pela água e eletricidade, mas também para reconstruir casas e outras estruturas de benefício comum. A fé do povo brasileiro é impressionante e há sempre na favela um espaço que funciona como capela para celebrações, encontros e prática da solidariedade.

Do outro lado da ponte de Niterói, já na estrada que une Rio e São Paulo, os Espiritanos trabalham noutra área quente chamada Queimados. Também ali passei diversas vezes e pude entrar em favelas com os mesmos desafios, problemas e esperanças.

 

A emblemática Vila Prudente

São Paulo é a cidade que conheço melhor. Ali estive uma meia dúzia de vezes, nos últimos 20 anos. Tenho uma atracção fatal pelas periferias e, por isso, é lá que passo boa parte do tempo. Também é em espaços favelados que os espiritanos estão mais implantados e comprometidos, pois faz parte do ADN missionário esta opção pelos mais pobres.

O padre Ivaldino Assis, também ele de Cabo Verde, vive e trabalha numa das mais emblemáticas favelas de São Paulo: a Vila Prudente. Várias vezes lá estive com ele e pude percorrer os carreiros internos, muitas vezes cobertos pelas construções que não podem desperdiçar espaços. É uma área com uma densidade populacional incrível, com um povo que enfrenta problemas graves. Fora da favela, referir o seu nome gera pânico, tal a má fama que ganhou. O padre Assis defende o povo da Vila Prudente dizendo que a maioria é gente muito boa que só teve a má sorte de não encontrar oportunidades para viver com dignidade.

Padres Ivaldino Assis e Elson Lopes, dos Missionários Espiritanos, numa manifestação por melhor habitação. Foto © Tony Neves

Ali o padre tem a Igreja, o centro social e um centro cultural. Trabalha com o povo na recolha e selecção de lixos para vender, tem centro de produção artística de artesanato, organiza cursos de capoeira (dança típica) e, claro, tem catequeses e missas, bem como distribuição de alimentos e roupas às pessoas mais carenciadas. Situada numa parte baixa da cidade, é vítima frequente de inundações que destroem muitas casas e estragam os bens. Ivaldino Assis fez-me uma avaliação dolorosa deste tempo da covid: “Se o povo já passava mal, ficou pior. Não é possível confinar quando não se tem nada em casa para comer. O povo sobrevive com o que consegue arranjar dia após dia. Estes tempos aumentaram a tragédia das populações das favelas.”

Crianças do Jardim Planalto, em São Paulo. Foto © Tony Neves

O Jardim Planalto

O Jardim Planalto é outras das grandes áreas faveladas de São Paulo. Lá passei uns dias em 2004 e voltei a visitar em 2006 e 2007, sempre acolhido e acompanhado pelo padre Altevir da Silva, nascido e crescido numa comunidade indígena da Amazónia. Hoje é bispo de Cametá, no estado do Pará (Norte).

Nesses anos, o seminário de teologia dos espiritanos era lá na favela, por motivos pedagógicos. Também tínhamos a responsabilidade de onze comunidades. Só que a distância a percorrer para chegar à Universidade era enorme, o trânsito impossível e foi necessário encontrar casa mais perto da Faculdade de Teologia. Pouco tempo mais tarde, os Missionários Espiritanos decidiram também passar a pastoral das comunidades para os diocesanos. Mas, em 2021, o bispo voltou a pedir e consumou-se o feliz regresso ao Jardim Planalto, a uma área de pastoral que ganhou o nome de João Paulo II. Estive lá agora com os padres João Chiuzo e Haroldo Alves, que assumem a responsabilidade pastoral. Lamentam-se do impacto muito negativo da covid sobre estas populações indefesas e investem muito na pastoral social.

 

Dos Perus à Terceira Divisão

A área favelada dos Perus acolhe muitos milhares de pessoas, ninguém sabendo quantas ao certo. Passei lá uns dias em 2019 e o padre Elson Lopes, então a morar lá, confessava-me que todos os dias há gente a chegar e a partir. Desta vez, já o encontrei na antiga “Terceira Divisão”, hoje transformada na Paróquia de S. Teresa de Calcutá, nome escolhido para honrar o compromisso desta santa pelos socialmente mais abandonados.

Celebrei na Capela da Senhora da Conceição e percorri, com ele, o vastíssimo território da paróquia, com muita área em construção: “Muitos destes morros estão agora ainda na fase da ocupação. Quando as autoridades reconhecerem as construções, então chegará a eletricidade e a água. Por enquanto, é tudo ilegal!” Impressiona ver a quantidade de construções em tijolo laranja que trepam pelos morros acima e que, de vez em quando, sempre que há enxurradas, muitos deslizamentos de terras engolem encostas inteiras.

A pastoral é intensa, com muitos grupos de reflexão e catequese. Multiplicam-se as celebrações de eucaristias e outros sacramentos. Há muitas dinâmicas pastorais organizadas. Mas hoje é fundamental o compromisso social: “O padre Julio Lancelloti [famoso pelo seu trabalho com moradores de rua em S. Paulo] tem-nos oferecido muitas cestas básicas com que apoiamos famílias mais pobres e que estão a chegar. Mas o mais importante é a união e o compromisso do povo: organizamos festas, almoços e tudo quanto pudermos para, assim, apoiar os mais pobres. E fazemos muitos mutirões para construir ou reconstruir casas, ruelas ou equipamentos sociais. O povo é bom e unido, apesar de todos os problemas”, conta o padre Elson.

Favela nos Perus. Foto © Tony Neves

 

A invasão “pentecostal” e o futuro

A realidade religiosa é muito plural. O espiritano mais jovem do Brasil, o padre João Paulo Carvalho, cresceu nestas periferias de São Paulo e estudou, na Universidade, o fenómeno religioso. Com humor, partilha os nomes de Igrejas Pentecostais que existem por ali: “Igreja, cuspe de Deus”, “Queda do Espírito”, “Chama de fogo”, “Sarça que queima”, “Bola de neve”, “Sara a nossa terra”, “Sangue derramado”, “Caindo na Graça”, “Carro de fogo descido do céu”…

Estes grupos – lembrava ainda o padre João Paulo – estão todos reconhecidos pelo Estado brasileiro e estão num período de enorme conquista de terreno em relação às Igrejas históricas, particularmente à Igreja Católica.

O Papa Francisco – também ele latino-americano – empurra a Igreja para as periferias. O padre Assis já tem respostas prontas para quando lhe perguntam o que faz um padre numa favela: “Por aqui vamos seguindo devagar, mas sempre transformando nossos lutos em lutas constantes pelos nossos becos e vielas”. E, depois de respirar um pouco, conclui: “Vamos seguindo de esperança em esperança neste pedaço de S. Paulo, nosso condomínio aberto é pura resistência”.

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), de cuja congregação é membro.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia

Padre da Obra da Rua morreu

Telmo Ferraz (1925-2026), cem anos a espalhar profecia novidade

O padre Telmo Ferraz, da Obra da Rua, celebra cem anos de vida e missão. Membro do clero da Diocese de Bragança-Miranda, nasceu no Mogadouro a 25 de novembro de 1925 e começou cedo o seu sacerdócio de rebeldia e compromisso social. Denunciava a tragédia humanitária provocada pelas condições péssimas em que viviam quantos davam a vida na construção de barragens naquele Trás-os-Montes longínquo e abandonado dos anos 1950. [Texto de Tony Neves]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória novidade

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.