
Logotipo do Projecto Faz-te ouvir, da Associação Rizoma, de integração de pessoas ciganas
Desmontar o preconceito que se verifica na sociedade portuguesa em relação à comunidade cigana é o grande objetivo do projeto “Faz-te ouvir”, que será apresentado nesta quinta-feira, 4 de abril, durante o Festival Política, que decorre em Lisboa. A iniciativa pretende dar a conhecer, através de entrevistas em vídeo a pessoas da comunidade cigana integradas na sociedade, um conjunto de histórias de sucesso de pessoas roma que marcam o meio social onde se integram.
“Entrevistámos pessoas que vão desde feirantes a advogados”, explica ao 7MARGENS Vanessa Lopes, presidente da associação Rizoma, que luta pela plena integração social das pessoas de etnia cigana, ou roma.
“Existe efetivamente uma falha de integração”, salienta a responsável. Por isso, “nada melhor do que mostrar pessoas reais que têm as suas vidas, os seus empregos e a sua dinâmica familiar”, para desmontar ideias acerca da comunidade que não correspondem à verdade. Ou seja, o projeto pretende trazer algo de “positivo”, “bom” e “inspirador” para a sociedade.
A presidente da Rizoma denuncia, também, a ausência e má qualidade de conteúdo produzido sobre esta população em Portugal por parte dos órgãos de comunicação social. Por isso, o “Faz-te ouvir” pretende ocupar esse espaço vazio e chegar a toda a sociedade, de uma forma positiva, divertida e alegre, afirma.
O trailer do projeto será lançado no Festival Política, durante um painel que começa às 18h, e que irá debater a integração da comunidade cigana em Portugal. Na discussão, intervêm duas investigadoras que fizeram já trabalho sobre a população cigana: Manuela Mendes, professora na Universidade de Lisboa e no ISCTE; e Joana Lages, arquiteta. Participam ainda, no debate que será moderado por Vanessa Lopes, outros dois intervenientes de etnia cigana: o ex-secretário de Estado da Administração Local e do Ordenamento de Território, Carlos Miguel, um dos entrevistados no “Faz-te ouvir” e Maria João, licenciada em Antropologia pelo ISCTE e mestre em Antropologia Forense pela Universidade de Coimbra. O debate ficará depois disponível online.
Dificuldades dos dois lados

Vanessa Lopes, da Associação Rizoma, a entrevistar o secrº Estado Ordenamento Território (2022-24), Carlos Miguel para o projecto faz-te Ouvir, da Rizoma, de integração de pessoas ciganas. Foto: Direitos reservados.
No que respeita ao nível de integração da sua comunidade na sociedade portuguesa, a presidente da Rizoma é de opinião que ainda há muito trabalho a fazer e que esse deve ser “um trabalho de equipa”. Neste sentido, de um lado, está o conjunto da sociedade, que tende a rejeitar as pessoas desta etnia. Do outro, a própria comunidade, que também se coloca à defesa, perante aquela atitude. A integração revela-se, assim, muito mais complexa. De qualquer modo, “o trabalho que tem sido feito por vários mediadores culturais e pessoas dentro da comunidade é já muito positivo”.
“Se realmente quisermos, nós conseguimos integrar-nos. Precisamos apenas de ferramentas”, sublinha. Não deixa de acrescentar que as mentalidades dentro da comunidade estão a mudar, por exemplo, no campo da educação. Atualmente, há muito mais pessoas ciganas a prosseguir os seus estudos, o que, destaca, é muito positivo. “Isso ainda é difícil para as pessoas mais velhas, porque olham para os estudos como não sendo importantes. Eu falo pelos meus pais. Perguntavam-me: porque é que estás a tirar uma licenciatura se ninguém te vai dar trabalho? Portanto, não olham para isso como sendo uma prioridade devido a esses obstáculos que a sociedade lhes impunha.”
Questionada sobre como olha para o discurso preconceituoso e, nalguns casos, de ódio que se verifica na sociedade, Vanessa Lopes refere que o facto de haver espaço parlamentar que faz um discurso em relação a esta comunidade aumenta a ideia negativa que já existe em vários setores da opinião pública. “Claro que não podemos negar problemas que existem dentro da comunidade e fazemos questão, inclusive, de os trabalhar; mas esse discurso populista veio, sem dúvida, fomentar ainda mais o racismo e a discriminação para com a comunidade cigana.”
Para evitar a propagação dessa mentalidade, a dirigente da Rizoma reconhece grandes dificuldades: “Controlar o discurso de ódio é difícil se quem está no poder não o faz, ou seja, se em lugares de destaque há espaço” para que esse tipo de discurso se verifique; muito dificilmente se conseguirá, acrescenta, conter o alargamento dessa mentalidade em todos os setores da população. “Da nossa parte, devemos continuar a fazer o trabalho que já fazemos, quebrando esses estereótipos, levando temas para o debate e mostrando que há algo diferente daquilo que é dito e exposto na [maior parte da] comunicação social e nas redes online”.
O Festival Política é uma iniciativa da Associação Isonomia, uma organização não-governamental que tem como objetivo promover a participação cívica, a defesa dos direitos humanos e o combate à abstenção. A programação do festival inclui debates, performances, concertos, oficinas para adultos e crianças, exposições, cinema e visitas guiadas que pretendem promover a literacia democrática e que foram selecionados tendo em conta os eixos programáticos e o tema de cada edição, que este ano é dedicado à “intervenção”.






