Isabel do Carmo e a Jornada de Memória

Fazer o luto e renascer para a esperança e o combate pela igualdade

| 2 Jul 21

Isabel do Carmo, uma das promotoras do documento: “As pessoas não têm dinheiro para comer e estão assustadas com o confinamento e a pandemia.” Foto © António Marujo.

 

“Pode ser simultaneamente fazer a memória dos que desapareceram, fazer o luto do seu desaparecimento, renascer para a esperança e nessa esperança estar incluída a luta pela igualdade social.” É desta forma que a médica Isabel do Carmo explica o seu envolvimento com a iniciativa da Jornada de Memória, Luto e Afirmação da Esperança, que nesta manhã de 2 de Julho é apresentada publicamente com a divulgação da declaração inicial. 

Isabel do Carmo é uma das 100 pessoas que subscreve a declaração, entre profissionais de saúde, artistas, jornalistas, professores, estudantes e mesmo cidadãos estrangeiros. O documento aponta a realização da jornada para o fim-de-semana de 22 a 24 de Outubro, contando com o alto patrocínio do Presidente da República. 

A ideia é multiplicar, por todo a país, iniciativas organizadas por grupos, associações, autarquias, escolas e outras instituições ou grupos informais da sociedade civil, suscitando a “participação de todas as pessoas e instituições que o desejarem”.

“O vírus da pandemia que assolou o mundo em 2020-21 está a ser combatido com eficácia pelas medidas sanitárias e pelas vacinas conseguidas em tempo recorde”, lê-se no texto. “O rasto deixado é de desolação: o número dos diretamente afetados caminha para os 180 milhões e, desses, perto de quatro milhões perderam a vida. Estamos perante uma tragédia de proporções avassaladoras.”

Referindo-se à importância com que encara a iniciativa, Isabel do Carmo alude, em declarações ao 7MARGENS, à “depressão mental de uma parte da população, à qual se associa a aflição económica”, provocadas pela pandemia. 

“As pessoas não têm dinheiro para comer e estão assustadas com o confinamento e a pandemia”, afirma a médica, que esteve também internada durante dez dias com covid-19, experiência sobre a qual escreveu um artigo no Público (ligação disponível só para assinantes). 

“Não podemos esquecer a experiência traumática”
covid 19 idosos ficar em casa Foto Direitos Reservados

“Não podemos fazer tábua-rasa, da experiência traumática que o último ano representou para centenas de milhares de portugueses”, diz Isabel do Carmo. Foto: Direitos Reservados.

 

“Ao olhar para a fase pós-pandemia na realidade que nos é mais próxima, não podemos esquecer, não podemos fazer tábua-rasa, da experiência traumática que o último ano representou para centenas de milhares de portugueses que viveram e vivem momentos trágicos”, diz o texto da declaração, que o 7MARGENS publica na íntegra em outro texto. 

Isabel do Carmo explica o que se passa também com o seu próprio trabalho: “No primeiro confinamento telefonei a 70 doentes e, depois de ter estado internada [em Janeiro] comecei rapidamente a ver doentes. Perguntava sempre como foi o confinamento. Estas circunstâncias propiciaram que sobretudo as mulheres fossem abaixo, que ficassem deprimidas: ficam fechadas no seu espaço doméstico, que para elas já é a mais do que os outros”. 

“É assim, não tenhamos ilusões. Pergunto sempre quem cozinha lá em casa. São as mulheres, quase sempre. E elas ficaram confinadas no seu espaço doméstico, para cozinhar, tomar conta dos filhos, em teletrabalho e, muitas vezes, em conflito conjugal e a terem de administrar esse conflito num espaço fechado”, acrescenta. 

Realidades suficientes para que se perceba que há “um espaço de depressão”, sobre o qual também é importante falar: “Convém as pessoas dizerem que sofreram, que sofremos” para lá do sofrimento e da morte que a própria doença tem provocado, diz. 

“Fazer o luto é imprescindível”, lê-se também no texto. Os gestos colectivos ajudam “a curar as feridas e a seguir em frente” e o luto comunitário é igualmente importante: há uma dimensão “comunitária do luto que não resulta apenas do somatório dos lutos individuais ou familiares” e que “precisa de ser feito, porque a tragédia que eclodiu e o trauma que ela originou são sociais e globais”. 

“Esperança e renascimento”

“Nunca fizemos o luto em relação à Guerra Colonial”, diz Isabel do Carmo. É preciso encarar “de frente a doença, a morte, o sofrimento.” (Foto: The original uploader was SGGH, English Wikipedia, free use/ Wikimedia Commons.)

Isabel do Carmo cita “um livro muito interessante” do historiador José Mattoso que leu recentemente, Os Poderes Invisíveis. “Fiquei a perceber melhor porque é que aquelas pessoas tinham medo das guerras e da morte e tinham necessidade dos poderes invisíveis e dos rituais de passagem e da morte.”

Agora “somos nós que temos de fazer isso: como nos rituais tradicionais da morte, das várias religiões do mundo, há que fazer um gesto que seja ritual, para fazermos a passagem”, encarando “de frente a doença, a morte, o sofrimento”. 

Essa passagem, acrescenta Isabel do Carmo, deve passar por uma iniciativa como esta, “de esperança e de renascimento.” A pandemia de há 100 anos, as duas grandes guerras, a Guerra Colonial deixaram feridas nem sempre saradas. “Nunca fizemos o luto em relação à Guerra Colonial, nunca fizemos o ritual de passagem, ou seja, um gesto de considerar que todas as guerras são más, que não há guerras que não sejam más e que em Portugal vivemos uma guerra.”

Por isso, é importante “chorar os mortos e construir: não há alternativa senão construir um futuro com esperança, renascer para as coisas boas da vida, que às vezes não custam dinheiro”, afirma a médica e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. 

Nesta dimensão da esperança, Isabel do Carmo aponta uma urgência: afirmar a “transformação no sentido da igualdade social”. E justifica: “É insuportável que haja neste momento uma boa percentagem dos cidadãos portugueses que todos os dias tem de pensar como é que há-de comer e que tem de estender a mão a quem acuda; e estender a mão humilha, envergonha, as pessoas têm vergonha.”

“Afirmar a esperança é igualmente necessário. Esperança no reforço de relações sociais fraternas, justas e portadoras de futuro para todas e todos, conscientes do risco que existe de regresso ao velho normal”, afirma o texto. Uma esperança fundada em gestos de “solidariedade, dedicação e atenção” que se têm verificado ao longo deste ano e meio. Mas também de “não desistir de pensar um outro mundo, de questionar o modelo de sociedade centrado no ter e não no ser”, reconhecendo que “somos todos vulneráveis e interdependentes, que estamos todos no mesmo barco e que reconhecê-lo pode ajudar a superar o medo”. 

 

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