Fé, comunidade e qualidade de vida

| 13 Mai 2020

Fé, comunidade e qualidade de vida

| 13 Mai 20

Um estudo mostra que praticar uma religião aumenta a felicidade e o envolvimento cívico. Mas parece ser sobretudo a inserção comunitária que garante a melhoria da qualidade de vida.

 Em 2019 o centro de investigação norte-americano Pew Research Center publicou um estudo realizado com base numa amostra populacional de trinta e cinco países, que revelou conclusões curiosas. A investigação foi desenvolvida entre 2010 e 2014, e a nível internacional contou com a parceria da World Values ​​Survey Association e do International Social Survey Program.

Apurou-se que os indivíduos activos na sua religião possuíam características de saúde e sociais interessantes: são eleitores mais comprometidos no acto do voto, estão mais disponíveis para acções de voluntariado, menos fumadores e menos consumidores de álcool do que os não-crentes ou crentes não comprometidos numa comunidade local de fé. No caso dos Estados Unidos, os crentes activos inquiridos que dizem votar em todos os actos eleitorais de nível nacional são 69% em comparação com os não activos (59%) ou os não religiosos (48%).

Mas o mais relevante é que as conclusões apontam no sentido de que os crentes activos nas suas comunidades religiosas tendem a ser mais felizes. Os investigadores crêem que isso se deve não tanto à afiliação religiosa, mas sim aos laços sociais que dela decorrem. Uma vez que a taxa de felicidade entre os crentes que raramente frequentam uma comunidade de fé, embora considerem importante a sua identificação religiosa, e os que nunca o fazem é muito semelhante, crê-se que será a participação activa na interacção social dentro da comunidade de fé que faz a diferença no aumento do bem-estar e não apenas a afiliação religiosa.

O referido estudo, intitulado Religion’s Relationship to Happiness, Civic Engagement and Health Around the World, incluiu a revisão literária da bibliografia disponível que relaciona religião com saúde, e que mostra que as religiões parecem contribuir para um melhor estado geral de saúde. Depois, mercê do trabalho de campo, concluiu-se que, em todos os países estudados, os crentes activos nas suas comunidades locais de fé tendem a ser mais felizes do que os não comprometidos. Na Austrália, a diferença é de 45% para 32% e nos Estados Unidos de 36% para 25%, mas noutras paragens a diferença não é tão significativa.

De acordo com os resultados do inquérito “mais de um terço dos adultos americanos activamente religiosos (36%) descrevem-se como muito felizes, em comparação com apenas um quarto dos americanos inactivos e não afiliados. Em outros 25 países para os quais existem dados disponíveis, os activos relatam ser mais felizes do que os não afiliados por uma margem estatisticamente significativa em quase metade (12 países) e mais felizes do que adultos inactivos em cerca de um terço (nove) dos países.”

E quanto à participação cívica, os resultados revelam que em geral, as pessoas comprometidas com uma comunidade local de fé também têm maior probabilidade de serem activas em grupos voluntários e comunitários.

Estes resultados não admiram uma vez que o ser humano é gregário por natureza. Nós precisamos do outro para nos construirmos enquanto pessoas. Carl Rogers dizia que “O ser humano possui um importante valor. Por mais que o rotulem e o avaliem, ele continua a ser, acima de tudo, uma pessoa.” Nas relações sociais e interpessoais os indivíduos constituem-se como referências uns para os outros, seja pela positiva ou pela negativa. Aqueles que nos impactam e agradam acabam por tornar-se referências positivas para nós. Desejamos saber falar, agir ou estar como uma dada pessoa, mas detestaríamos comportar-nos como outras, as quais funcionam para nós como referências negativas.

É nesse exercício de deve e haver que nos vamos construindo, juntamente com o que pensamos, sentimos e sabemos, sempre condicionados pela nossa personalidade. Mas se vivermos isolados perdemos aquela centelha de humanidade que nos pode chegar apenas pelo modelo dos outros a quem podemos ver e ouvir.

Uma comunidade local de fé que seja funcional propicia um ambiente de calor humano, de fé e esperança que se articula como catalisadora do mais positivo que há nas pessoas. Oferece oportunidades de serviço aos outros, de solidariedade para com os mais necessitados e de desenvolvimento pessoal. Mas também ganhos significativos em termos de saúde emocional que não podem ser desprezados.

Nada pode substituir o calor humano, a interacção entre pessoas diferentes, a relação interpessoal, quando estamos frente a frente com os outros, olhos nos olhos. É por isso que a covid-19 vem apresentar novos desafios às comunidades de fé. A prolongarem-se indefinidamente as medidas de confinamento profiláctico acabará por resultar não apenas em elevadíssimos custos económicos, mas sobretudo numa eventual desumanização, o que seria preocupante.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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