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Jovem a trabalhar no terraço. Foto Milko
Cerca de 48% dos jovens estariam dispostos a abdicar de um emprego estável e bem pago se o ambiente de trabalho fosse considerado tóxico. Foto © Milko

Estudo internacional

Fé, felicidade e “salário emocional”: jovens redefinem relação com a Igreja e o trabalho

| 19/05/2026

A segunda edição do estudo internacional Footprints, que acaba de ser apresentada na Pontifícia Universidade de Santa Cruz, em Itália, revela que os jovens crentes são, em média, mais felizes e civicamente ativos, mas expõe também uma rutura profunda com as instituições tradicionais na Europa mediterrânica. Entre a exigência de ambientes de trabalho mais saudáveis e uma vivência religiosa autónoma, a Geração Z parece desafiar os modelos estabelecidos, preferindo a espiritualidade sem dogmas e o propósito em detrimento do mero retorno financeiro.

Os jovens que praticam ou professam uma fé religiosa registam níveis superiores de felicidade e de compromisso cívico quando comparados com os seus pares não crentes. Esta é a principal conclusão da segunda edição do estudo internacional Footprints. Young people’s values, hopes and expectations, promovido pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz em parceria com a consultora Gad3.

O estudo baseia-se numa amostra de 4.889 entrevistas realizadas a jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 29 anos, em oito países de diferentes continentes: Argentina, Brasil, Itália, Quénia, México, Filipinas, Espanha e Reino Unido. O relatório global, disponibilizado online, retrata uma geração que está a redefinir a sua relação com a espiritualidade, o trabalho e a sociedade.

 

O fosso da felicidade e a importância do bem-estar psicológico

Os dados demonstram a existência de um verdadeiro “fosso da felicidade” (happiness gap) entre quem tem fé e quem não tem. Numa escala de 0 a 10, os jovens crentes avaliam o seu nível de felicidade com uma média global de 7,1, face aos 6,3 atribuídos pelos não crentes. Esta tendência de bem-estar espiritual reflete-se fortemente na esfera profissional. Mais de 60% dos inquiridos que professam uma crença afirmam que o seu emprego possui um “significado espiritual profundo”.

O estudo destaca ainda a emergência do conceito de “salário emocional” entre a designada Geração Z. O bem-estar psicológico e a qualidade do ambiente de trabalho ganham terreno face ao retorno puramente financeiro. Cerca de 48% dos jovens estariam dispostos a abdicar de um emprego estável e bem pago se o ambiente de trabalho fosse considerado tóxico.

 

Europa mediterrânica na cauda da religiosidade

Jovens na missa. Foto Israel Torres de Pexels

Enquanto nações como o Quénia e as Filipinas exibem taxas esmagadoras de religiosidade entre os seus jovens, a Europa mediterrânica surge como um cenário bastante distinto. Foto © Israel Torres / Pexels

 

Apesar de a maioria da amostra global se identificar como crente, os dados por país evidenciam realidades geográficas e culturais profundamente distintas. Enquanto nações como o Quénia e as Filipinas exibem taxas esmagadoras de religiosidade entre os seus jovens (93% e 89%, respetivamente), a Europa mediterrânica surge como um cenário bastante distinto.

De facto, em Itália e Espanha, o panorama inverte-se drasticamente: o número de ateus e agnósticos supera o de crentes na mesma faixa etária. Em território espanhol, apenas 42% dos jovens se declaram crentes. Em Itália, o valor não ultrapassa os 35%, embora se registe um fenómeno cultural singular: muitos jovens italianos, mesmo definindo-se formalmente como ateus ou agnósticos, continuam a sentir-se identificados com a tradição e a religião católica. Os dois países europeus encontram-se igualmente no fundo da tabela no que toca à perceção da presença da espiritualidade nas suas vidas diárias (48% em Espanha e 52% em Itália, contra os 92% registados no Quénia).

 

Valores sociais e descontentamento com o futuro

No plano ético e social, o estudo expõe consensos alargados e algumas clivagens geracionais. A corrupção política (91%) e a crise ambiental (90%) surgem quase unanimemente como as maiores ameaças contemporâneas aos olhos dos entrevistados.

No entanto, nas questões de moral sexual e bioética, a barreira da crença pessoal fica evidente. Por exemplo, 81% dos crentes consideram que a pornografia prejudica as relações humanas, uma visão que é artilhada por apenas 54% dos agnósticos e ateus.

A nível de perspetivas económicas e laborais, os jovens italianos são os mais pessimistas do grupo de países estudados. Apenas 32% dos inquiridos acredita que as oportunidades de emprego vão melhorar no futuro, contrastando fortemente com a média global de otimismo de 60% registada no resto do mundo.

O relatório conclui ainda que os jovens religiosos votam mais (74% vs. 69%), participam mais em campanhas de sensibilização social (41% vs. 29%) e integram mais associações cívicas.

 

Crise de frequência e abandono dos sacramentos

Quanto à vivência da religião entre os que se declaram católicos, 82% partilha da crença na presença real de Jesus na eucaristia e 81% reconhece que o sacramento da confissão é importante para libertar o coração do pecado. No entanto, existe um forte contraste entre esta valorização teórica e a prática diária.

Entre os inquiridos, 14% declarou expressamente ter deixado de frequentar os serviços religiosos e a missa. Neste subgrupo, o principal argumento evocado (41%) prende-se com a visão de que “não é necessário ir à igreja para encontrar Deus”. Um fenómeno muito semelhante afeta a reconciliação: 7% dos jovens católicos inquiridos assumiu ter abandonado por completo a confissão. Entre estes, a esmagadora maioria (57%) justifica o afastamento afirmando que prefere “pedir perdão diretamente a Deus”.

O abandono dos sacramentos liga-se ainda à rejeição das posições institucionais da Igreja em matérias como a sexualidade (26% no caso da missa) ou à falta de reconhecimento da autoridade eclesial (24% no caso da confissão). Adicionalmente, barreiras como a “vergonha” ou o “embaraço de falar sobre as próprias fraquezas com um padre” afetam 19% dos jovens à escala global, assumindo particular expressão em Espanha (32%) e em Itália (25%), onde esta resistência supera largamente o grupo dos que consideram a confissão algo fundamental.

 

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