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Fé, lugar dos artistas e coisas simples

| 09/03/2024

“Deus é o Deus do silêncio, porque só o silêncio de Deus é a condição do risco e da liberdade.” Foto © Miguel Veiga

“Hoje, ao escutar um podcast de uma escritora, percebi, talvez por esta usar muito bem também a proza falada, que o que diverge entre os artistas e os outros é o sentir. A maneira como os estímulos impactam e ecoam no interior de cada um faz realmente toda a diferença.” Foto © Miguel Veiga

 

Há quem diga que «a arte imita a vida.» Eu não tenho essa certeza, mas sei que quem é capaz de esculpir o seu sentir, através de palavras, tintas, linhas ou paus que seja, vive de uma forma que, talvez por não se fazer entender de modo óbvio, parece incompatível com aquilo que se convenciona chamar normalidade.

Hoje, ao escutar um podcast de uma escritora, percebi, talvez por esta usar muito bem também a proza falada, que o que diverge entre os artistas e os outros é o sentir. A maneira como os estímulos impactam e ecoam no interior de cada um faz realmente toda a diferença.

Para alguns o drama óbvio da vida tem de ser retratado pela sua expressão. E, sim, não pode falar-se com os mais novos sobre isso porque ainda não têm idade para se desencantar. Quererá isto dizer que não podem ler certos livros, não podem ver certos filmes, não podem apreciar algumas pinturas?

Não estou, naturalmente, a falar de crianças, mas de adultos jovens que parece que, nos tempos que correm, têm de ser poupados à consciência do que a vida é. Sabem que a morte existe, mas não é para eles; sabem que a guerra existe, mas não no seu país (sempre que isso se aplique); sabem que a peste existe, mas eles vão sobreviver; sabem que o abandono também existe, mas, eles, nunca irão ficar sozinhos.

Por outro lado, os mais velhos ou os ainda novos a partir de certa idade, talvez quando é inevitável que tenham mais passado do que futuro, têm de enfrentar tudo – dramas, ficção assustadora, problemas financeiros, ameaças da realidade sem qualquer disfarce. Mas porquê? Não será que é justamente a partir da maturidade que mais é necessário investir na fé, na dinâmica dos dias, no entusiasmo que evita dramas para que a força de prosseguir não nos seja literalmente roubada?

Creio, sem ter soluções mágicas, que a falta de equilíbrio entre uns que podem sofrer tudo e outros que podem sofrer nada, em função da idade (sempre adulta, volto a frisar), é responsável por grande parte das injustiças que são praticadas; creio que o desrespeito por algumas existências, só porque, aparentemente, representam pouco, esconde a fragilidade que toca a todos e, por isso, nos desumaniza e disfarça de nós mesmos e da nossa essência; creio que a superproteção face à realidade global, pretendendo encantar, não prepara para o mundo em que vivemos.

Um destes dias encontrei um pequeno texto, atribuído, na fonte que consultei, a Bruno Missurino, que dizia assim- «Hoje em dia quase ninguém erra. São tão perfeitos. Tão incríveis. Tão vencedores. Tão evoluídos. Tão exemplares. Sempre com um conselho na ponta da língua. Sempre com uma opinião formada sobre tudo. Eu sinto falta de pessoas reais. Sinto falta dos que confessam as falhas e os medos. Sinto falta das pessoas que sentem e o demonstram. Sinto falta de quem ainda está a aprender. Pessoas artificiais desinteressam-me. Há um brilho único naqueles que vestem apenas a humanidade. Há uma beleza incomparável naqueles que não se escondem na mentira da perfeição.»

E, continuo eu – há um tesouro nos que sabem rir dos seus fracassos; nos que conseguem não se transformar em produções fictícias de um querer ser que nunca alcançarão; nos que apenas são homens e mulheres neste planeta de qualquer coisa pode, mas não qualquer coisa serve; nos que têm a coragem de não parecer e de não aparecer só porque sim; nos que só falam do que sabem e, sobretudo, nos que não inventam para se promoverem junto dos demasiado distraídos.

O homem (falo de homens e mulheres porque estou a usar a língua portuguesa) precisa de saber fazer coisas simples que lhe são exigidas todos os dias – cultivar o silêncio interior, viver tranquilo, ir ao encontro, cumprir a sua missão, estar bem onde tiver que estar em cada momento, dar a vida em pequenos instantes por aquilo que vale a pena, não ter pena de não “ir a todas”, confiar, ter esperança, sonhar de forma proporcionada ao empenho que põe e ao esforço que faz … Enfim. E, sobretudo, também me parece simples, procurar não ser ridículo através de insanidades projetadas em vídeos, podcasts, redes ou outros lugares que permitem o culto da ignorância e da estupidez.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

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