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Férias… e écrans

| 22/08/2024

Parque das Conchas

“Acabo de fazer a minha habitual caminhada matinal pela Quinta das Conchas, o verdadeiro tesouro que tenho perto de casa.” Foto: Parque das Conchas (Lisboa).  © Teresa Vasconcelos

 

Estamos a partir para férias (os que podem!…). E que tal darmos férias aos écrans durante o mês… ou uma quinzena… ou mesmo durante uma semana de férias? Que saboroso seria!!! Espero que não imaginem que “endoidei” de vez. Sim, tenho um telemóvel que me simplifica imenso a vida… e …caso pensem que “endoidei… paciência.

Agora vamos ao contexto: acabo de fazer a minha habitual caminhada matinal pela Quinta das Conchas, o verdadeiro tesouro que tenho perto de casa e que sobressai no meio dos prédios dos anos 70 do século passado, perto de bairros de realojamento – as famílias ciganas aos domingos fazem piqueniques em toalhas de xadrez espraiando-se pelos relvados – e os prédios, alguns bem luxuosos, a emergir como cogumelos na chamada “Alta de Lisboa”. A Quinta das Conchas – e a Quinta dos Lilazes – são duas quintas adjacentes uma à outra que se tornaram num parque camarário pertencente a todos nós: daí que por vezes ao conversar com amigos mencione a “minha” Quinta das Conchas… porque também é minha.

De um caloroso verde nesta altura do ano, emergem árvores de grande porte: os velhinhos e fortes eucaliptos – que cheirinho ao entrar no parque… -, as oliveiras de tronco retorcido escrupulosamente respeitadas pelos arquitetos paisagistas e de onde já emergem envergonhadas azeitonas; uma zona com diferentes árvores de fruto devidamente assinaladas.  Carvalhos a anunciar bolotas e lá mesmo ao fundo um arbusto /árvore mais rara aqui no sul a que eu chamo “mimosa” porque não abdico das minhas raízes minhotas (trata-se de uma “espécie” de origem australiana) – que floresce em pequenos sóis a iluminar cinzentos janeiros ou fevereiros. Caminhos térreos. Havia a célebre Alameda das Palmeiras que foi cruelmente destruída pela doença do escaravelho da palmeira. Era tão bela! Outros percursos são cimentados com placas, alternados com os passadiços em madeira; dois pequenos lagos e um tanque lá em cima – agora com patos a crescer desde que começou a primavera -, bancos ao sol ou à sombra para todos os gostos…até uma breve colina por onde passeamos em terra “bem” batida no meio de plantas e flores selvagens. Aí por vezes planeiam borboletas. Um parque infantil, um café com esplanada e, do outro lado do imenso relvado onde ao domingo se joga futebol (lindo!), está um restaurante onde, ao domingo também, se pode comer cozido à portuguesa. Não menciono as flores, todas diferentes conforme a altura do ano e o ritmo das estações [que, infelizmente já não é tão exato]; da festa das árvores floridas na primavera, os frutos no verão, a austeridade dos troncos vazios de folhas, por baixo de um céu acinzentado, por vezes chumbo… que se desdobra em chuvas outonais ou invernais. Nos anos de covid valeu-me deambular pela “minha” Quinta das Conchas….

Quinta das Conchas

“Um parque infantil, um café com esplanada e, do outro lado do imenso relvado onde ao domingo se joga futebol (lindo!)…” Foto: Parque das Conchas (Lisboa).  © Teresa Vasconcelos

 

Desculpem ou meus leitores esta longa “deambulação”, mas é para que entendam de que “preciosidade” estou a falar. Sim, também há jovens famílias que preferem cuidar de cães de estimação, pouco se importando com a limpeza dos respectivos dejetos; há os velozes ciclistas nas suas sofisticadas (e pesadas bicicletas); há os “frics“ das corridas a pé que literalmente se nos atravessam no caminho não se desviando um milímetro que seja. E há [algumas] crianças, bem bebés nos seus carrinhos a dormir sorvendo aquele ar limpo e doce, ou acordados a dar com as pernitas e a acenarem com os braços, ao cuidado de avós ou outros idosos, pais (poucos porque estarão a trabalhar) e algumas jovens babysitters ou mais experientes cuidadoras.

Neste momento quero chegar ao busílis da questão. Os telemóveis ™ – os “célulares” dizem os nossos amigos brasileiros – são, neste contexto, uma espécie de plantas parasitas do  tipo do escaravelho da palmeira, que se grudaram à nossa pele, fixam-se aos nossos dedos deslizantes, o nosso olhar distraído na imagem e luminosidade metálica… ou o ouvido bloqueado e isolado do mundo, em conversas de lana-caprina. Quem corre tem os ouvidos tapados por auscultadores ligados aos tm, os ciclistas também – invadindo e ajudando a deteriorar os frágeis passadiços de madeira destinados a pessoas e não a veículos, por onde já não ando porque as tábuas irregulares parecem roller coasters e convidam a quedas, tropeções, etc., já que não há qualquer manutenção.

[Já lá tropecei, esparramando-me completamente no chão, sangrando vistosamente do nariz e sem que ninguém ousasse socorrer-me porque a queda tinha sido tão aparatosa que decidiram chamar o 112…  por causa de tábuas com os parafusos enferrujados e salientes… portanto a manutenção continuava a não ser feita. Após tentativas na junta de freguesia – creio ser uma emanação da câmara para estar mais perto dos cidadãos – fui por duas vezes pouco amavelmente advertida de que “não era nada com eles (junta)!!!”  Em desespero de causa porque da câmara ninguém atendia telefones… fui ao site “Na minha rua” da Câmara de Lisboa. Recebi uma resposta mecânica a dizer que tinham anotado a reclamação. Passadas três semanas vieram substituir três ou quatro traves, colocaram uns envergonhados “sinais” dos dois lados do passadiço: um breve pauzinho com um “recado” – “atenção passadiço irregular! “– inserido numa bolsinha de micas, daquelas que os jovens usam nos dossiês de disciplina. Como é óbvio, os “sinais” duraram pouco tempo e tornaram -se rapidamente invisíveis.]

Sai-me esta escrita como “as cerejas” mas desta vez, sim, quero continuar a falar de telemóveis. Por “defeito profissional” sou observadora atenta do que se passa com as crianças e vejo que praticamente todos os que cuidam das crianças naquele parque, estão grudados nos telemóveis, sem sequer pousarem o olhar no pequenino ser que pede interação dentro do seu carrinho – gestos de braços, pernas, ondulações do corpo, olhos exigentes de atenção, sons diversos – sem haver qualquer atitude responsiva por parte do adulto: seja ele o mais jovem ou o mais velho, mulher ou homem. Todos “grudados” nos telemóveis. Uma verdadeira epidemia. Sim, reconheço que deslizar os dedos pelo écran se tornou uma dependência como qualquer outra dependência. Uma dependência aceite socialmente. Ficamos grudados nesses fatídicos tele-móveis.

Ora privar as crianças mais pequeninas – “pessoas de pouca idade” (Carvalho, Kohan e Almeida, 2024, no prelo)[1]  – das interações com adultos responsivos torna-se uma perda irreversível para “as pessoas de pouca idade” (como agora os sociólogos soem dizer, formulação que nos dá que pensar no que é uma criança, mesmo um bebé: estamos a falar de pessoas)… Qualquer cidadão-cidadã deve saber este facto. Também podemos ser alertados pelos médicos, as enfermeiras pediatras, os psicólogos (dos centros de saúde), as educadoras/ educadores (nas creches), de que este tempo não volta atrás.  Temos a responsabilidade profissional de explicar aos pais este processo… porque os pais (ou outros cuidadores) estão simplesmente a aprender a ser pais: e eles aprendem muito por intuição, alguns por experiências anteriores [e muito bem…], mas aprendem sobretudo por modelização. Dou um simples exemplo: mudar uma fralda – mesmo sob as árvores de um magnífico jardim – pode ser feito mecanicamente, a “despachar”, sem paciência, sacudidamente; ou pode fazer-se de um modo interativo, falando com a criança mesmo que ela não perceba tudo o que estamos a dizer (a não ser talvez pelo tom de voz); pelo toque que acaricia ou faz cócegas, deixando que ela se aproprie da embalagem de plástico (ou cartão), fazendo-a sentir o cheirinho a “limpo”.  Os primeiros anos de vida (a adolescência também) são um período especialmente importante para a conectividade (ligações) das sinapses cerebrais. Por isso, são chamados de “períodos sensíveis” ou “críticos” para o desenvolvimento do cérebro. Se essas sinapses não se realizam no seu devido tempo, simplesmente deixam de se fazer, facto que é irreversível. Até nos bebés que adquirem a marcha, a mecânica destas conexões se faz maioritariamente  na interação com o adulto… ou só se fazem bem mais tarde…

Um pediatra brasileiro – José Luiz Setúbal –  explica de um modo bem simples – a propósito da neurociência: “a neurociência mostra com pesquisas, o que a natureza nos tem ensinado, pela experiência. Semear, arar o campo, prover de sol, água e adubo, evitar pragas são cuidados fundamentais para que uma planta cresça e frutifique quando adulta. Se dermos importância ao desenvolvimento cerebral da criança pequena [pessoa de pouca idade], ela deve receber – de nós – algo comparável”.

Lumiar. Quinta das Conchas

“A Quinta do Lumiar merece esses desvelados cuidados. Mas as “pessoas de pouca idade” que “habitam” a Quinta do Lumiar merecem toda a nossa atenção e cuidados, ousaria dizer, prioridade…”  Quinta das Conchas (Lisboa). Foto © Teresa Vasconcelos

 

A Quinta do Lumiar merece esses desvelados cuidados. Mas as “pessoas de pouca idade” que “habitam” a Quinta do Lumiar merecem toda a nossa atenção e cuidados, ousaria dizer, prioridade: estes cuidados são de experiência e intuição feitos, é certo, mas presentemente são pela ciência demonstrados. Não neguemos as preciosas interações que um adulto atento e que ama as crianças pode e deve fazer, pondo de lado os famigerados telemóveis a não ser para alguma urgência. Agora somos sustentados pela ciência que até lhes chama “pessoas de pouca idade”, para que não as coloquemos num mundo separado do adulto…

Não me considero exemplo para ninguém mas sou daquelas pessoas que ama, se encanta, se sente estimulada… e se diverte com as tais “pessoas de pouca idade”. É que elas são mesmo pessoas, mas ainda precisam tanto de nós. E sofrem bem com as oportunidades perdidas de as tornar felizes, inteligentes, interrogantes, solidárias… E não consigo deixar de pensar naquelas que são vítimas da fome ou maus-tratos, da guerra e da violência, da exploração pelo trabalho infantil, do tráfico sexual ou de órgãos.

Nestas deambulações pela Quinta das Conchas e procurando estar atenta ao que por ali se passa, tomei a decisão de “despedir” o facebook do meu telemóvel. Mark Zuckerberg ficas a saber, por muito genial que sejas, que já não tenho amigos no facebook [tenho outros, por sinal bem bons, com quem vale a pena “perder tempo”!], deixei de fazer likes ou dislikes, já não faço partilhas, algumas bem pouco úteis porque raramente lidas. Tomei consciência de que o facebook se pode tornar viciante, voilà. Apesar do interesse de muita coisa que recebia, sobretudo informação de última hora, com a enorme perícia de um sobrinho  bem mais novo do que eu e pleno de competência informática, com tentativas e erros, é certo, conseguiu desligar-me do insistente facebook. É que gruda-se mesmo. Apesar de se manter o assédio e tentativas que o facebook faz de me seduzir a voltar – pior do que a concorrência entre a NOS e o MEO -, estou determinada. Era tanto o lixo que recebia, o assédio dos anúncios, o tempo que perdia a ver-me livre deles e a comunicar que não queria esse tipo de anúncio, a invasão sistemática da minha privacidade com mensagens inúteis – quando podia estar a ler um bom livro, a saborear poemas, ou simplesmente a olhar para longe e a escutar … Na Quinta das Conchas decidi “fechar portas”. Não tenciono reabri-las: chamem-me “bota de elástico”, cota, o que quiserem. Está decidido.

O que não posso é prescindir da leitura de boa literatura ou de jornais, de ter tempo de olhar para as plantas da minha varanda ou as árvores da Quinta das Conchas. Parar para olhar para os bebés e para as pessoas reais do meu bairro. Lamento desiludir (???) os meus amigos do facebook e dos “likes” mas vou deixar de clickar. Nunca gostei de écrans – só no cinema ou num bom filme na televisão –; cansam-me os olhos já de si pouco saudáveis e não preciso de estar sempre a falar de tudo quanto faço ou sei. As férias que espero finalmente começar são um tempo para estas decisões. Assim, na “rentré” já estou pronta.

Parque das Conchas. Lumiar. Plantas

“Mas dou sobretudo graças ao encantamento da Quinta das Conchas, aos adultos que interagem com crianças e olham para as árvores e o verde.”  Foto: Plantas no Parque das Conchas (Lisboa). © Teresa Vasconcelos

 

Atenção: não, não deixarei de telefonar aos amigos, de receber sms sendo que alguns (descansem, não os vossos…) vão diretamente para o lixo: quero continuar a comunicar individual e coletivamente pelo whatsapp.  E não me desvinculo dos écrans, claro, só ficam no devido lugar: sem eles não poderia mandar e receber emails, ir à internet recolher informações e sobretudo escrever… escrever… escrever. Aí dou graças aos écrans que nos facilitam a escrita sem termos de rasurar folhas de papel ao limite de uma possível compreensão.

Mas dou sobretudo graças ao encantamento da Quinta das Conchas, aos adultos que interagem com crianças e olham para as árvores e o verde. E aos cães, claro, que eu gosto bem deles. Agora quero terminar em beleza: já estava eu com este artigo em mãos e observo uma paisagem silenciosa, lindíssima: sentados num banco, concentrados, um pai de meia idade e um filho de uns 11-12 anos em leitura silenciosa, cada um embrenhado no seu livro numa cumplicidade notável. Mal me ousei mexer. Confesso o meu “pecado”: de longe tirei disfarçadamente uma fotografia aproximando o visor. Não é para ser divulgada aqui, claro. Mas é para eu não me esquecer.

[1] Formulação introduzida entre nós por Carvalho, Kohan e Almeida (2024, no prelo)

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participa no Movimento do Graal. Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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