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[Entre Margens]

Fernando Alexandre e os exames nacionais: o viés que volta a cavalo

| 07/07/2026

 

Há já muitos anos, numa emissão da rádio clássica portuguesa, ouvi um divulgador de ciência referir-se ao problema do viés que apoquenta presentemente o Ministério da Educação Ciência e Inovação (MECI). Dizia, então, o referido especialista que, na correcção de uma prova de ciências exactas e naturais, seria necessária dúzia e meia de correctores para suprimir o dito viés, número que subia para mais de uma centena em matérias como a filosofia.

Ao problema do viés, noção que, por agora, me dispenso de clarificar, tem-se respondido com medidas como a normalização e crescente detalhe dos critérios de correcção, com a formação de correctores ou com a alteração do figurino das provas, substituindo a produção escrita por questões de escolha múltipla, para só mencionar algumas.

Agora, porém, a extraordinária manobra da digitalização e subsequente retalhar das provas por diferentes correctores (gostaria de saber quantos para os exames de filosofia, matemática e português) visaria, diz-nos o ministro, combater o viés. Isto é, em última análise, trabalhar no sentido do aperfeiçoamento das condições de equidade no tratamento dos públicos escolares.

Justificar-se-ia, assim, quer a manobra quer, pelo seu ineditismo, alguma perturbação ilustrada por casos, certamente laterais, mas publicáveis e tanto mais amplamente replicáveis quanto anedóticos. Tendo lido centenas de missivas endereçadas ao ME, há exactamente três décadas, a propor as mais desvairadas medidas em ordem à igualdade de tratamento dos alunos, entre as quais a realização de exames em recintos desportivos, sei bem como pode ser difícil combater o efeito já descrito por Hegel em fórmula lapidar: «o mais concreto é o mais abstracto; o mais abstracto é o mais concreto». (É por isso que poderemos dizer que o homicídio escabroso cem vezes replicado na CMTV é da ordem da abstracção vazia: nada nos ensina e priva-nos decisivamente do contacto com a vida.)

Ambicionar a justiça não se confunde com o processo que a realiza. Dito de outro modo, juntar todos num estádio para fazer um exame não é o mesmo que ser justo. É só tê-los a todos debaixo d’olho. Do mesmo modo, e a contrário, a falha na distribuição de uma pergunta de economia, erradamente remetida a, digamos, um biólogo não revela nada sobre o potencial de uma medida como a que analisamos.

Comparemo-la, por isso, com outra circunstância anedótica, que deixou todos aos gritos: a imagem que deveria ser objecto de uma composição. Aparecia num livro de preparação para exame. Logo, dizem-me, todos os que o consultaram e por ele se prepararam estão em vantagem.

E é aqui que a porca do viés torce o rabo, amotina o lameiro, sei lá!

Se formos prudentes, podemos reconhecer, do lado da criança, um sem-número de outros factores de diferenciação que actuam, aos olhos de todos os especialistas, desde sempre para hierarquizar os desempenhos, e, por estranho que pareça, entre os 10, 20 ou 30 mais importantes, não se inclui ter ou não ter feito previamente o exercício tal ou tal. Outra coisa seria tê-lo resolvido sabendo que iria ser publicado no enunciado do teste. E podemos ainda perguntar se, ao tornar-se editor de colectâneas de provas de exame, o instituto respectivo não estaria a dizer aos alunos que teriam aí uma vantagem adicional, algo que ninguém discutiu até hoje, desde logo porque é sempre melhor estudar mais e, estudando mais, a probabilidade de reconhecermos um problema, uma pergunta, um nome, é certamente mais e não menos provável.

A verdade, e volto à placidez da rádio clássica, é que o MECI, ao querer combater o famoso viés, está, muito provavelmente, a procurar algo que dificilmente obterá por este meio (embora a respectiva mecânica nem sequer ainda tenha sido explicada). E isso, que talvez deseje, chama-se consistência.

Ora, permito-me sugerir, consistência não é o oposto de viés. Este supõe uma preferência injustificada face a critérios, sejam eles os que são expressamente formulados e veiculados pelo autor da prova, contornando-os, sejam, ainda do lado do corrector, os que decorrem inevitavelmente do domínio (ou falta dele) da língua ou linguagem veicular, seja os que decorrem de uma ausência de conhecimento dos fundamentos da ciência em questão, sejam os que resultam de uma deliberada preferência egotista por um autor, uma teoria ou uma forma de exposição, para nomear alguns.

Ilustração de João Santos: Justifica-se uma comissão de inquérito?

Por outro lado, a consistência ambicionada no primeiro exemplo, sendo estatisticamente regulada, por assim dizer (são as medidas de tendência central, com destaque para o desvio-padrão, que permitem estimar o número de correctores necessários para reduzir até ao valor x desejado, a amplitude dos desvios), supunha que toda a prova era corrigida pela mesma pessoa. Ora, de duas uma: ou conhecemos, antes de distribuir por vários correctores fatias da mesma prova, o perfil de ‘exigência’, a experiência, e a aptidão profissional prévia dos correctores, incluindo a sua disposição para seguir as instruções de correcção, quando inequívocas, e as combinamos harmoniosamente à escala nacional, regional e local; ou, não entrando em linha de conta com estas poucas variáveis, aceitamos que a probabilidade de redução do efeito combinado dos vieses pela adição de vieses ignorados em cada prova é altamente improvável. Podemos, na melhor das hipóteses, apenas replicar, complicando enormemente a manobra (desde sempre assente num ideal de maximização da aleatoriedade, que não deve confundir-se com arbitrariedade) e, na pior, estar a amplificar, nacional, regional ou localmente, o enviesamento de olhares e resultados, acrescentando entropia.

Mas há uma coisa que todos sabemos e ainda torna mais enigmática a teoria do viés que o ministro se esqueceu de elaborar: a fortíssima correlação positiva entre vantagem ou desvantagem socioeconómica (proxy consagrado de todas as variáveis que concorrem para o sucesso escolar) e o acesso ao curso de 1ª escolha.

Por isso alguns dizem que todo este sistema serve apenas para determinar a posição relativa de algumas centenas de jovens no acesso à habitual medicina, aos três cursos de engenharia aeroespacial, astrobiologia e similares que hoje fazem sonhar, ou às engenharias do Técnico.

Por mim, prefiro dizer que o desastre que se perfila advém do feitiço de palavras como ‘digital’ e expressões como ‘I.A.’ entre os modernos profetas da reforma do Estado. Entretanto, ‘combater o viés’ parece só uma forma educada de justificar o que não se sabe muito bem como nasceu nem para que serve.

 

João Santos é professor. 

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