Fernando Belo (1933-2018): o filósofo que foi padre e fez a leitura materialista do Evangelho de Marcos

| 6 Dez 18 | Diálogo ecuménico e inter-religioso

Em Agosto de 2015, Fernando Belo escrevia no Público: “Há três dicotomias políticas nos evangelhos que podem ser esclarecedoras: ‘não podeis servir Deus e o Dinheiro’ (Mateus 6,24), ‘dai o que é de César a César e o que é de Deus a Deus’ (Marcos 12,17), ‘[Deus] não é um Deus de mortos, mas de vivos; todos com efeito vivem por ele’ (Lucas 20,38). O dinheiro, César e o Deus dos mortos (da religião enquanto poder, de que o suporte é o Templo, adversário simbólico de Jesus) são três feitiços do poder substantivo que impede que se possa viver fecundamente. É o cerne da atitude espiritual, renunciar aos feitiços, mas também é a de todos os grandes apaixonados por causas de vida, artistas ou pensadores, gente entregue à generosidade social, aqueles cujas biografias lemos por vezes maravilhados, que nos mostram como vale a pena viver. Fecundidade fora do ‘poder’: ‘sem posses’ mas ‘podendo’ além do que podiam. É isso uma ética radical.”

Da busca de uma ética radical se fez a vida de Fernando Belo, filósofo e professor de filosofia, após ter-se licenciado em Engenharia Civil, entrado para o seminário, ordenado padre e licenciado em teologia. Foi depois de se desencantar com o ministério de padre que abraçou uma carreira académica na área da filosofia, caminho que lhe tinha sido aberto ainda no seminário pelo padre Honorato Rosa. Fernando Belo morreu na madrugada de segunda-feira passada, 3 de Dezembro, aos 85 anos, na sequência de uma doença respiratória. 

O seu percurso singular ficou marcado pela publicação de Lecture Matérialiste de l’Évangile de MarcRécit, pratique, idéologie (Leitura Materialista do Evangelho de Marcos – Narrativa, prática, ideologia), publicado em Paris pela editora católica francesa Éditions du Cerf, em 1974. 

Traduzida em Espanha, Alemanha e Estados Unidos, a obra “articulava uma leitura textual da narrativa do Evangelho de São Marcos, influenciada por Roland Barthes, à estrutura social da Palestina da época bíblica, servindo-se de fortes referências francesas, muito importantes à época, nomeadamente Louis Althusser e Georges Bataille”, como escreveu António Guerreiro, no Público, ao recordar o trajecto de Belo. “O estruturalismo francês, com o diálogo que este promoveu entre a filosofia e as ciências sociais e humanas, foi o campo e o horizonte teórico e epistemológico em que Fernando Belo se inscreveu”, acrescentava Guerreiro. Seria mesmo esse livro, acrescenta o crítico, que abriria as portas da Faculdade de Letras ao futuro professor. Belo ficaria na Faculdade entre 1975 e 2003

Aos 19 anos, Fernando Belo esteve num retiro com o padre Abel Varzim – que viria ele próprio a ser ostracizado pelo regime do Estado Novo e pelo cardeal Cerejeira, por causa das suas posições sociais e políticas. Nessa altura, teve uma inspiração, como contava num texto sobre Experiência espiritual, o que é?, escrito no passado dia 30 de Outubro, no seu blogue Filosofia Mais Ciências 2: “A escolha veio a manifestar-se depois, primeiro com a decisão de entrar no seminário acabados os seis anos de licenciatura e mais tarde, depois da licenciatura em teologia em Paris, em 1969, e da ruptura com a condição de padre católico, com a decisão de prosseguir pela leitura materialista do evangelho de Marcos a que se seguiu, em Lisboa e na Faculdade de Letras, a inesperada possibilidade duma vocação filosófica – aberta no seminário por um extraordinário professor de filosofia, o P. Honorato Rosa –, sempre com um pé fora da filosofia, nas ciências, no cristianismo e na história europeia. O que se manifestou como efeito daqueles minutos de transe foi uma enorme paixão intelectual, totalmente ignorada pelo adolescente de 19 anos que foi ao tal retiro espiritual.”

Nascido em 1933, Fernando Belo foi ainda, durante a sua vida de padre, professor no então Liceu Camões e capelão na base militar da Ota, antes de ser transferido, por causa das actividades políticas em que começou a envolver-se, para a paróquia da Baixa da Banheira. 

No mesmo texto do blogue, Fernando Belo fazia uma avaliação desse percurso: “Que tenha largado o que era a única possibilidade de exercer a teologia em que me licenciara em Paris e continuado esses cinco anos (1968-73) a trabalhar nas questões que me apaixonavam, que nunca tenha largado nenhum ponto criticável do cristianismo sem ser por argumentação, implica que houve – durante aliás toda a minha vida futura – uma espécie de docilidade intelectual no seio da atitude crítica de busca que poderá ser o que sobrou do espiritual. 

Um dos amigos recorda, aliás, que Fernando Belo fez uma “experiência dolorosa com a tentativa de conseguir uma inserção comunitária” no cristianismo. Como essa tentativa não resultou, Belo considerou que não tinha sentido continuar como padre. Para ele, deixava de ter sentido viver essa experiência “sem ser em comunidade”, diz Avelino Rodrigues, seu colega dos tempos de juventude. 

Capa do livro de Fernando Belo (1974), na edição original francesa.

A experiência religiosa ou espiritual estava presente em muitos textos de Fernando Belo. Em Maio deste ano, no Público, onde escreveu vários artigos soltos, citava, a propósito do Maio de 68, Michel de Certeau, pensador católico francês, para escrever: “Foi uma população nova na cena pública que tomou a palavra – la prise de la parole, título do ensaio de Michel de Certeau –, tomou a palavra política, em França e por todo o lado, do Japão à Califórnia passando por Praga. Contestou o patriarcado familiar, o pai e o marido-patrão, pela simples presença afirmada sem licença fora de casa, mas fora de casa também contestou o poder do pai, o patriarcado social, o poder dos ‘patrões’, dos professores e dos ‘padres’, com o papa Paulo VI a desperdiçar o ‘aggiornamento’ conciliar com uma encíclica que proibia a pílula e abria a porta da rua aos católicos progressistas; contestados até os dirigentes sindicais e partidários leninistas, que bem lhes responderam, aos grupúsculos de várias tendências, dizendo-os contaminados com ‘a doença infantil do comunismo’.”

Ainda no Público, Rui Tavares evocou também na sua crónica, o “Homem sábio, homem bom” que foi Fernando Belo: “Estou convencido de que a obra de Fernando Belo vai ser muito lida e inspirar muita gente no futuro. Como argumento apresento os seus dois últimos livros, cujos índices ele me mandou por e-mail antes da publicação (saíram recentemente pela Colibri). Um deles é um livro sobre “a unificação dos saberes”, um tema de toda a sua vida, a que costumava chamar “filosofia com ciências”. O outro tem um título belíssimo e um subtítulo mais certeiro ainda: Seja um texto de paixão. Onde se mostra que sem a Filosofia não haveria Europa.

O leitor pode achar que este livro me interessa porque nele se fala de Europa. E não errará. Só que mais importante ainda é o que está por detrás: a filosofia. E mais importante ainda é o que está por detrás da filosofia: o amor, a amizade.”

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