(1929-2021)

Fernando Echevarría

| 5 Out 21

Morreu na segunda-feira, no Porto, aos 92 anos, o poeta Fernando Echevarría. A notícia foi conhecida esta terça-feira. Nascido em 1929, em Cabezón de la Sal, Santander, filho de pai português e de mãe espanhola, viveu em Portugal a partir dos 2 anos, mas estudaria em Espanha e exilou-se por motivos políticos em França, no início dos anos 1960. Regressou a Portugal nos finais de 80.

O poeta Fernando Echevarría no Encontro de Reflexão Teológica do Metanoia, em 2018. Foto © António José Paulino.


A exactidão é a realização integral:
ex-actum, o que está feito, o que é agido até ao fim.
A poesia é a acção integral da disposição para o sentido. 
Jean-Luc Nancy

Fernando Echevarría era um poeta desafectado, que ria com vontade, quando lhe contavam, por exemplo, que um dos seus primeiros livros, Introdução à Filosofia, constava nas prateleiras de uma biblioteca ao lado de Aristóteles. Considerava-se, às vezes, e falava disso com à vontade, um simples homem, de modo levemente abrutalhado, com pouco jeito para preitos, vassalagens, convénios, mesuras ou trapalhadas. Conheci-o numa festa, em Paris, talvez na Gulbenkian ou na embaixada e ficámos a falar disto e daquilo e ele bebia muito devagar, saboreando cada pequeno gole como se bebesse o ar fresco da montanha.

Não se desconsiderava, pois se tinha em boa conta, mas sabia rir de si, e isso era também a sua humanidade. O poeta não se faz ou se desfaz em dotes oratórios, para com eles comover as multidões ou desassossegar os incautos. Falava simplesmente e aproximava os desentendidos, a gente que não conhecia os códigos da academia ou os rituais do convénio. Achava-se um homem com sorte e ria com fartura, o seu rosto esclarecido pelos olhos pequeninos e o grande bigode, quase clássico, algures num ressumar do grande Cervantes.

O poeta era como um fruto da primeira luz, visitando o café, se possível junto à água de um rio ou no ângulo de uma torre. A tarde prometia silêncio e música, a grande evocação matemática da obscuridade. De manhã escrevia, como se acordasse iluminado por uma descendência rítmica, imune a bravatas e mundanidade. No seu tempo de poesia, ouvia-se pulsar a gramática, o horizonte retórico, como se a disciplina se santificasse por uma certa ordem convulsa, o acidente perseguido numa longa viagem, desde o texto sagrado, a sua inscrição de fogo, a voz etérea em sufrágio, caída em verso e sublimada por modos que não podem ser bem descritos, mas se ouvem na música de Bach, em algumas árias de ópera e na filigrana barroca. Ao mesmo tempo o silêncio dos grandes espaços, a grande nave, a folha com a sua nudez e a luz dos “anjos com coração”.

Não será de metafísica que estamos a falar nem da filosofia que respirava o seu corpo. Falamos de arquitectura e densidade, de uma escritura, mais do que de uma escrita. Era assim que ele conhecia a língua, indo por uma rua, procurando a mesa ao fundo do café. No silêncio do método, o caminho vagaroso das horas e aquele ímpeto, o nascimento, a língua rigorosa e altíssima com que escrevia. Uma língua sobre outra língua, uma luz de entendimento trazido em ondas sonoras, em motivo respirado e logo reflectido, jogo de espelhos na textura molhada, coberta por um mar.

Abre-se o dia, como se abrisse uma porta e aí é tempo de poesia. E assim se foi construindo uma obra, todos os dias, pela manhãzinha, àquela hora, sim, a estrela d’alba. Chegados hoje, o poeta deixa-nos uma obra imensa que as próximas gerações haverão de descobrir. Uma das mais densas e intrigantes interrogações ao indizível misturado nos passos humanos, o bafejar da coisa sagrada. Um grande e precioso tesouro da língua portuguesa.

5 de Outubro de 2021

 

Combater bem o mal

Combater bem o mal novidade

Os tempos que se vivem na Igreja Católica suscitam especial dor a todas as pessoas, sejam ou não crentes, provocando revolta em muitos contra um aparentemente imobilismo na resposta a uma crise que já se prolonga por demasiado tempo. A Igreja, enquanto realidade operante no mundo, não ficou imune a este fenómeno transversal à humanidade que é o abuso sexual de menores.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Comissão quer “dar voz ao silêncio” das vítimas dos “crimes hediondos” dos abusos do clero

Pedro Strecht apresentou membros

Comissão quer “dar voz ao silêncio” das vítimas dos “crimes hediondos” dos abusos do clero novidade

Daqui a um ano haverá relatório, que pode ser o fim do trabalho ou o início de mais. A comissão para estudar os abusos sexuais do clero português está formada e quer que as vítimas percam o medo, a vergonha e a culpa. Ou seja, que dêem voz ao seu silêncio. Pedro Strecht apresentou razões, o presidente dos bispos disse que não quer mais preconceitos nem encobrimentos, mas “autêntica libertação, autenticidade e dignidade para todos”.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This