“Para que a memória não se apague”

Fernando Giesteira, o transmontano vítima da PIDE/DGS no dia 25 de Abril de 74

| 20 Abr 2024

A “Revolução dos Cravos”, apesar de pacífica, ceifou a vida a quatro jovens que, no dia 25 de abril de 1974, foram mortos pela PIDE/DGS, à porta da sede da polícia política do Estado Novo, em Lisboa, depois de cercada pela multidão. 50 anos passados, recordamos a mais jovem vítima da “revolução sem sangue”, de apenas 18 anos, que era natural de Trás-os-Montes.

Fernando Giesteira tinha 18 anos quando foi baleado no dia da revolução.

Fernando Giesteira tinha 18 anos quando foi baleado no dia da revolução.

 

Durante anos, as muitas facetas da história contada sobre a “Revolução dos Cravos” deixou de parte os cinco mortos (quatro jovens manifestantes e um funcionário da PIDE) registados nesse dia 25 de abril de 1974. Até há pouco tempo, a única homenagem direta às vítimas aconteceu em 1980 com a colocação de uma placa, “por um grupo de cidadãos anónimos”, na fachada da antiga sede da polícia política.

Um dos nomes ali inscritos é o do transmontano Fernando Carvalho Giesteira, morto a tiro pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), ou Direção-Geral de Segurança (DGS), na Rua António Maria Cardoso, no dia da revolução, com sangue, que libertou Portugal de um regime opressivo e autoritário.

Fernando Giesteira nasceu em agosto de 1955 em Salto, concelho de Montalegre. “O pai, que era das Minas da Borralha”, aldeia que deve o nome à mina de volfrâmio explorada até 1986, “veio para Vila Pouca de Aguiar trabalhar nas Minas de Jales”, conta ao 7MONTES José de Sousa Ribeiro, de 82 anos, que trabalhou com Armando Gomes Giesteira, pai de Fernando, depois de a família se mudar, de malas e bagagens, para Vreia de Jales. A mãe era Emília de Carvalho.

Diariamente, José e Armando seguiam juntos, a pé, desde Vreia de Jales até Campo de Jales, onde eram exploradas as minas de ouro, as últimas de onde se extraiu este metal precioso em Portugal, até ao seu encerramento abrupto, em outubro de 1992. Nesta mina, com 620 metros de profundidade, chegaram a trabalhar entre 500 e 600 pessoas por dia. “Vinha muita gente de fora para trabalhar nas minas”, lembra José.

Importa referir que Vreia de Jales era, nos anos 60 e 70 do século passado, uma pequena terra, sede de freguesia, com cerca de três mil habitantes, e local de residência quase exclusivo de mineiros e respetivas famílias.

Natural de Paredes, José, que vivia com cinco irmãos e o pai, já viúvo, em Vreia de Jales, recorda os dias (e as noites) de trabalho árduo no interior das galerias mineiras. “O Armando trabalhava dentro da mina. Era escombreiro. Andava de pá e pico. Eu, quando comecei a trabalhar lá, era ajudante do meu pai, que era entivador. Metia as madeiras para escorar as galerias. Era um trabalho muito duro”, recorda.

“O Giesteira era meu companheiro”, acrescenta o antigo mineiro, que, quando se deu a revolução em 1974, já se encontrava fora do país, emigrado na Alemanha. “Só soube mais tarde, através da rádio, que mataram um homem daqui [Vreia de Jales]”, relata José.

“Eu conheci o filho do Giesteira”, atira Carminda Notário, de 84 anos, também ela natural desta aldeia, como se pedisse licença para se intrometer na conversa. O casal tinha três filhos, duas raparigas e um rapaz, “mas só o filho é que está cá sepultado”, continua. Os pais, entretanto, falecidos, regressaram à terra natal.

Carminda recorda-se que o funeral de Fernando Giesteira foi o primeiro, na sua memória, “em que os militares deram tiros para o ar”, por ter sido uma das vítimas mortais da Revolução de Abril. “Estava muita gente no cemitério nesse dia. Foi um dia muito marcante para a aldeia”, adianta, admitindo que nem todos sabiam em que circunstâncias o jovem Fernando tinha sido morto em Lisboa.

José e Carminda recordam, por fim, “um jovem pacato”, mas “sonhador”, nascido no seio de “uma família humilde”, que vai para Lisboa aos 16 anos de idade à procura de um futuro melhor. Faleceu prematuramente. Teria hoje 68 anos.

 

Livro “Esquecidos em Abril” recorda vítimas da revolução

Placa de homenagem às quatro pessoas assassinadas no dia 25 de Abril. Foto DR

Placa de homenagem às quatro pessoas assassinadas no dia 25 de Abril. Foto: Direitos reservados

 

Fernando Giesteira é uma das figuras memoradas no livro “Esquecidos em Abril – Os mortos da revolução sem sangue”, de Fábio Monteiro, “para que a memória não se apague”. Editado em 2019, o livro regista que a 25 de Abril de 1974 morreram, no contexto da Revolução, “quatro civis e um funcionário da PIDE/DGS”.

O autor escreve que Fernando veio para Lisboa, em 1972, por intermédio de “um conhecido de um amigo”, para trabalhar como empregado de mesa na famosa boate “Cova da Onça”, situada na Avenida da Liberdade e explorada “por três irmãos naturais de Trás-os-Montes”. Era comum este estabelecimento receber deslocados da terra natal para trabalharem na capital, “oferecendo um regime de comida e roupa lavada”.

Fernando Carvalho Giesteira vivia em Lisboa há quase dois anos quando se deu o 25 de abril. Morava sozinho num quarto da Pensão Flor, situada no n.º 12 da Praça João do Rio, no Areeiro. “Ao mudar-se para Lisboa, Fernando descobriu um tipo de liberdade que até então lhe fora vedada”, garante a irmã ao jornal digital “Fumaça”, num artigo baseado no livro de Fábio Monteiro.

Na manhã da revolução, depois de fechada a boate, “Fernando saiu da ‘Cova da Onça’ e não regressou à Pensão Flor”. “Meteu-se no meio da multidão que acorria ao Quartel do Carmo, no meio de uma multidão de curiosos espetadores da revolução. As balas cegas, vindas da varanda da sede da PIDE/DGS, o singularizaram, na Rua António Maria Cardoso. E logo ali morreu”, acrescenta o mesmo artigo.

Fernando Giesteira “acabou baleado e morto, tinha 18 anos, a mais jovem das vítimas do dia da revolução”. O corpo foi sepultado em Vreia de Jales, na aldeia onde moravam os pais, à época. Escreve a mesma fonte que a família não teve dinheiro para pagar os custos com o transporte, nem as exéquias, e que foram os patrões, os donos da “Cova da Onça”, que assumiram as despesas.

50 anos depois, o nome de Fernando Giesteira consta da homenagem às vítimas da PIDE que a Câmara Municipal de Lisboa promoveu no início do mês, numa cerimónia inserida nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.

Da cerimónia constou, ainda, a colocação de uma nova placa no local, que resultou da petição “Homenagem em Lisboa – 25 de Abril”, do movimento cívico “Não Apaguem a Memória”, que reuniu 1 167 assinaturas.

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