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Festa de Maria Madalena: um filme para dar lugar às mulheres

Festa de Maria Madalena: um filme para dar lugar às mulheres

by | 22 Jul 19 | Cultura e artes - homepage, Últimas

Os dois principais protagonistas do filme de Garth Davis: “Os gestos, as expressões dos olhares, o riso e o choro são mais importantes do que as palavras.” Foto: Direitos reservados

 

No dia (22 de Julho) que a Igreja Católica consagra a Maria Madalena, vale a pena regressar ao filme realizado por Garth Davis e dedicado aquela figura bíblica. A obra, datada do ano passado (com Rooney Mara como Madalena e Joaquin Phoenix na figura de Jesus), releva a situação da mulher, no tempo em que Jesus pregava a sua mensagem junto dos “anawin”: os pecadores, os aleijados, os pobres, os impuros. Incluíam-se neste grupo as mulheres, consideradas seres inferiores, submetidas a um forte poder patriarcal: o pai; o irmão; o marido.

Maria Madalena, a protagonista do filme, juntamente com os irmãos, costumava mergulhar até ao fundo do Lago da Galileia, quando era criança. A sensação de se sentir plenamente livre, sem corpo, vivida nesse instante, nunca a abandonou. Isso é, para ela, o Reino de Deus – conceito essencial pregado por Jesus – explicado através de uma parábola aos seus ouvintes: O Reino de Deus comparado à pequeníssima semente de mostarda que uma mulher plantou no quintal e que se transforma numa árvore onde as aves fazem os ninhos.

Esta recordação surge em três momentos do filme.

Logo no início. Maria é então uma jovem de Magdala, uma povoação junto ao Lago da Galileia, que tem a intuição da presença de Deus e que aspira viver sempre no sentido do transcendente. Persiste em rejeitar o casamento que a família lhe quer impor. Finalmente, segue Jesus, o “curador” e o grupo dos discípulos, após longa resistência da família que nunca a irá compreender, pois isso significa quebrar para sempre com os laços familiares. Nunca mais será recebida pelos seus. É uma grande afronta.

O segundo momento em que se repete a recordação da infância e, em simultâneo, a audição da parábola, é na Paixão de Cristo. Jesus está crucificado e Maria, juntamente com outras mulheres, permanece ao pé da cruz. Os olhares de ambos fundem-se no mesmo ideal, na promessa que ela lhe fez – nunca o abandonar, segui-lo. Plantar a semente do Reino da misericórdia, do perdão, do amor. Maria de Magdala nasceu com esse dom. Cuidar naturalmente dos que sofrem, consolando com o olhar, com o tocar confiantes.

No fim, surge novamente em voz off a mesma parábola e o corpo mergulhado nas águas azuis do lago. Após ter visto o Senhor Jesus ressuscitado, Maria Madalena compreende, claramente, que o Reino está dentro de cada um e caberá aos discípulos continuar a missão de amor, de perdão, de misericórdia. As mulheres acompanham-na e, à frente delas, a Mãe do Senhor.

O filme parece um sonho, uma visão intemporal. Os evangelhos estão presentes, mas as cenas estão dispostas de outro modo; os actores, de várias etnias, tornam ainda mais intemporal a acção. Há um grande despojamento. Nos cenários: o lago – sereno, às vezes ouvindo-se o rumor das águas; as redes de pesca que as mulheres consertam; a aridez dos aglomerados rochosos; as casas térreas, de pedras grosseiras. Os gestos, as expressões dos olhares, o riso e o choro são mais importantes do que as palavras. O vestuário: mantos, túnicas brancas ou acinzentadas ou negras. Opondo-se a esta fluidez, o vermelho sangrento das vestes e dos próprios corpos, dos homens que sacrificam, no Templo de Jerusalém, os animais.

Índice trágico do “Cordeiro de Deus”, também ele sacrificado, ensanguentado, arrastando a trave da cruz até ao Gólgota.

Os discípulos têm noções diferentes do Reino. Judas Iscariotes – meio “alumbrado”, ingénuo, meio louco, vive obcecado pelos mortos que irão sair dos túmulos ao encontro da luz, quando o Reino acontecer, visto ter perdido a sua filhinha e a mulher. Para ele, o Mestre é um feiticeiro poderoso que, com um toque de dedos, dizima todos os inimigos. Ao ver que Jesus não avança em definitivo para a matança dos inimigos, “dá-lhe uma ajuda”. Para a maioria dos outros discípulos homens, o Reino é uma conquista do poder, coroando Jesus como o Rei Messias, misericordioso com os pobres e com todos os desgraçados, desbaratando o poder opressor dos príncipes-sacerdotes do Templo e dos Romanos, seus aliados.

Maria mantém-se de lado destas discussões, consultando Jesus com os olhos que se afasta para orar ao Pai. Exprime ao Mestre a fidelidade em segui-lo, mesmo para além da morte.

Cena do filme, com Jesus baptizando Maria Madalena: discípulos e discípulas continuarão a missão de anunciar e baptizar. Foto: Direitos reservados

 

Joaquin Phoenix, no papel de Jesus, é uma presença fortíssima. Calmo, fala do Reino e da libertação interior de cada ser humano através do amor, perdão, misericórdia. Um olhar penetrante. Abraça os corpos aleijados, retirando de si a força do amor que os faz viver e curar, ao mesmo tempo que sorri, por vê-los contentes. A reanimação de Lázaro faz delirar a população, todos gritam alegres e confiantes, irrompendo pelo átrio do Templo. Jesus permanece fora da agitação exterior, expulsando, num gesto simbólico, da casa de Deus, o dinheiro, o negócio, o poder. Sabe o que o espera.

Anteriormente, às portas de Jerusalém, doce é o encontro e os afagos da Mãe ao seu Filho. Ela sabe também o que irá acontecer.

A intenção do autor é dar lugar às mulheres. Não restam dúvidas, fazendo uma leitura atenta dos quatro Evangelhos que Jesus lhes dá o primeiro lugar. A elas, anuncia-lhes quem é Ele, verdadeiramente. Companheiras de Cristo, continuarão a sua missão, juntamente com os homens. Anunciando, tal como eles, a Paixão e a Ressurreição de Jesus Cristo; curando, baptizando em nome do Senhor. Tornando-se diáconas. Sabe-se, está escrito. Mas, nos Actos dos Apóstolos, elas desaparecem sem deixar rasto.

A protagonista, numa outra cena do filme: “É perturbante para os discípulos homens que uma mulher seja a protagonista da Ressurreição do Senhor.” Foto: Direitos reservados

 

É perturbante para os discípulos homens que uma mulher seja a protagonista da Ressurreição do Senhor. Pedro acusa Maria: “Tu enfraqueceste-nos e enfraqueceste-o”, no momento em que esta leva aos homens a notícia de Jesus Ressuscitado. Esta ideia está mais desenvolvida no Evangelho apócrifo de Maria, datado do século II. Nesta obra, em certas passagens, há uma tensão entre Pedro e Maria de Magdala.

Colocará o filme demasiada ênfase no papel da mulher, na vida de Jesus e na sua missão? Mas não é este tema agora tão pertinente e tão urgente, na Igreja Católica?…

 

Maria Madalena


Realizador: Garth Davis. 2018, 120 min

Argumento: Helen Edmundson e Philippa Goslett

Elenco: Rooney Mara (Madalena), Joaquin Phoenix (Jesus), Chiwetel Ejiofor (Pedro) e Tahar Rahim (Judas)

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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