[Olhar de teóloga]

“Fiducia Supplicans”: seremos julgados pelo amor

| 7 Jan 2024

Homofobia. Homossexualidade

Manifestação em Estrasburgo, em Janeiro de 2013, contra a homofobia. Foto © Claude Truong-Ngoc/WikiCommons

 

É um homem já entrado numa certa idade e que, até há pouco tempo, não sabia que havia comunidades LGTBIQ+ cristãs. Quando descobriu e foi acompanhado até uma delas, foi para ele como se tivesse ressuscitado. Foi assim que ele me contou não há muito tempo. Foi-me relatando a sua história lentamente, misturando recordações mais tristes do que alegres desde que tomou consciência da sua homossexualidade até chegar aos dias de hoje.

Viveu toda a sua vida com medo de ser descoberto e, sobretudo, com um imenso sentimento de culpa porque era assim que o faziam sentir cada vez que se confessava – porque acreditava que ser homossexual era um pecado que ele próprio consentia sendo como era, como é. Partia-me o coração vê-lo chorar enquanto me contava isso. Agora está tranquilo, sereno. Sente-se acolhido numa dessas comunidades cristãs LGTBIQ+, já sabe que não é mais pecador do que qualquer um de nós, mas, sobretudo, sabe que é amado por Deus, por esse Deus que acolhe sem perguntar.

 

Faz falta escutar

Para compreender, faz falta escutar. Somente uma escuta atenta e livre de preconceitos nos permite conhecer a realidade em que vivem muitas pessoas com histórias de sofrimento que se poderiam ter evitado. Porque somos tão mestres em fazer sofrer e tão pouco empáticos em nos colocarmos na pele daqueles que sofrem?

Nestes dias tenho lido e ouvido muitos comentários a propósito da publicação de Fiducia supplicans. Alguns foram positivos, inteligentes, com uma interpretação pastoral de acordo com o texto e, sobretudo, com uma raiz evangélica fora de qualquer dúvida. Outros, pelo contrário, foram desapiedados, frios, desumanos, com tanto moralismo superficial quanto desconhecimento destas pessoas.

 

Toda a condição humana

Há muito tempo que ando às voltas com um versículo do evangelho de João (1:14), “o Verbo se fez carne”, porque nessa carne assumiu toda a condição humana, absolutamente toda, e a levou para a sua vida, a sua morte e a sua ressurreição.

A partir daí, querer ser mais deus do que Deus – como li no outro dia a respeito deste tema – querer impor normas que Deus nunca estabeleceu, não pode trazer nada de bom porque é pura rigidez e hipocrisia. Vamos por partes.

 

  1. Este documento segue na esteira da Amoris Laetitia, que se seguiu ao Sínodo sobre a Família, onde já se afirmava que a união de duas pessoas que tem estabilidade pode ser acompanhada pela Igreja. Seria bom que algumas pessoas relessem a exortação ou, simplesmente, a lessem pela primeira vez.

 

  1. Francisco convida-nos a redescobrir em profundidade outro sentido da bênção que é acompanhar o crescimento das pessoas e não apenas o do seu puro reconhecimento.

Nesse sentido, todos devemos e podemos ser abençoados.

 

Papa Francisco preside à eucaristia no Estádio Velódrome. Foto © Vatican Media

O Papa Francisco “convida-nos a pôr a todos – e a pormo-nos a todos – sob o olhar amoroso e misericordioso de Deus”. Foto © Vatican Media

 

  1. Francisco convida-nos a pôr a todos – e a pormo-nos a todos – sob o olhar amoroso e misericordioso de Deus para acompanhar e animar as pessoas a que vivam uma vida cristã melhor. Isto é válido para todos porque não há cristãos perfeitos.

 

  1. Somos chamados a sair, ou melhor a abandonar, uma moral fria e calculista, para acompanhar as pessoas passo a passo, situação a situação, porque, para Deus, todos os seus filhos são dignos da mesma misericórdia e do mesmo amor. Até os intransigentes entram dentro desta realidade.

 

  1. Quando falamos de pessoas em situação de união irregular, ou de pessoas numa união LGTBIQ+, tendemos a esquecer que essas pessoas têm famílias que também sofrem, não são ilhas. Este documento faz com que apreciem o amor incondicional de Deus pelos seus filhos, irmãos, amigos.

 

  1. Para alguns terá sido pouco o avanço porque não é considerado como matrimónio; para outros terá sido demasiado porque pode ser confundido com um matrimónio (o que não é verdade, lendo o documento). Para alguns, a comunhão na Igreja está em perigo. Mas, se deixarmos fora da Igreja uma parte dos seus membros – porque são batizados – que são nossos irmãos, porque são pessoas LGTBIQ+ ou vivem numa união irregular, de que comunhão estamos a falar?

 

  1. Há países onde só por se declarar homossexual ou lésbica uma pessoa é condenada à morte; a nossa própria sociedade, aparentemente tão permissiva, está a voltar a desenvolver uma clara homofobia. Neste contexto, a Igreja, seguindo a mensagem e o modo de vida de Jesus, mostra-se acolhedora, respeitosa, uma casa segura. Isso é assim tão mau e perigoso?

 

  1. Também teríamos de falar sobre a encarnação porque não somos já os homens e as mulheres do século XVI, XVII… ou simplesmente do século XX, tão próximo ainda de nós, e da antropologia aparentemente inamovível, da moral que é muito mais do que a moral sexual. Vamos rever tudo isso para enfrentá-lo com serenidade?

 

Bênçãos de homossexuais na Alemanha: “Já havia padres que abençoavam essas pessoas e a Igreja não se afundou”. Foto: Direitos reservados.

Bênçãos de homossexuais na Alemanha: “Já havia padres que abençoavam essas pessoas e a Igreja não se afundou”. Foto: Direitos reservados.

 

  1. Nem todas as culturas poderão aplicá-lo à mesma velocidade. Nalguns países estão a descobrir a presença de pessoas LGTBIQ+ nas suas comunidades e tem de se ir passo a passo. Neste momento, os responsáveis de algumas dioceses de culturas diferentes da nossa querem aprender a lidar com essas pessoas para não as magoar e acolhê-las. É um grande passo. Não se pode correr antes de saber andar. Nestes casos, seguramente, as bênçãos chegarão um pouco mais tarde. No entanto, já estão aqui. E isso é bom. Embora, para sermos sinceros, já havia padres que abençoavam essas pessoas e a Igreja não se afundou.

 

  1. Colocarei agora a questão mais espinhosa para aqueles que se mostram mais rígidos e indiferentes, que é uma forma de manifestar contrariedade e rejeição. Se algumas pessoas se escandalizam por abençoar pessoas numa união irregular ou casais do mesmo sexo, ficariam igualmente escandalizadas se soubessem quantos padres são ordenados sabendo os bispos que são homossexuais e que vivem de forma activa a sua homossexualidade? Numa ordenação eles são mais que abençoados.

 

Existem pessoas LGTBIQ+ na Igreja. Há diáconos, padres, religiosos, religiosas, bispos, cardeais… Seguramente terá havido algum papa, e alguns santos e santas devem ter sido. E a Igreja ainda está aí, necessitando de reforma, por outras razões.

 

Juízes implacáveis

Termino com duas petições aos bispos e padres e uma às comunidades eclesiais. A primeira é que leiam bem o documento. Aprofundar o sentido da bênção. A segunda é que se algumas pessoas nestas situações se aproximarem de vós pedindo uma bênção e não se sentirem capazes de o fazer, digam simplesmente que não o fazeis, mas não se ponham como juízes implacáveis porque, “no entardecer da vida seremos julgados pelo amor” (São João da Cruz).

Às comunidades eclesiais digo que não tenham medo, que deem lugar a quem chega, sem perguntar, tal e como Jesus acolhia quem se aproximava dele.

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo da Igreja Católica. Este texto foi inicialmente publicado na revista Vida Nueva. Tradução de Júlio Martin.

 

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