
“Nos actuais programas de filosofia do ensino secundário há que estabelecer pontes entre as teorias e os problemas que são apresentados aos alunos e a vida real que todos conhecem por experiência própria.”
Na sequência do meu último texto no 7 margens, no qual recorri à tese de Karl Jaspers, para quem filosofar é estar a caminho, lembro uma posição aparentemente contrária, defendida por Montaigne, um filósofo francês do século XVII, para quem “Filosofar é aprender a morrer.”[1] Durante muito tempo critiquei esta tese, achando-a exagerada e justificando-a por se enquadrar num tempo de guerras constantes em que a vida humana era permanentemente colocada em risco, quer pelas lutas entre países, quer pela dureza dos regimes onde a pena de morte era prática comum para castigar crimes violentos.
Sempre defendi a ligação entre a filosofia e a vida. Sempre considerei que as aulas de filosofia, quer no ensino secundário quer na universidade, deveriam ser um incentivo para melhor compreendermos o real em que habitamos e que mesmo disciplinas filosóficas aparentemente mais teóricas como a lógica não deixavam de constituir uma ajuda determinante para a nossa integração social, ensinando-nos a compreendê-la, a aceitá-la e/ou a combatê-la quando a considerássemos perniciosa para o nosso estatuto de humanos a viver entre humanos. Por isso sou crítica da prática que hoje se tornou comum de usar os testes de escolha múltipla como método de avaliação na disciplina de filosofia, e apenas considero esta prática legítima se for pedida uma justificação da escolha feita pelos alunos.
A ideia de ligar a filosofia à morte é-me desagradável. Perante a aceitação calma como Sócrates encarou a sua condenação a minha posição é sempre de solidariedade com os seus discípulos, que se revoltavam e choravam. E embora acredite na vida eterna, o que logicamente me deveria levar a alegrar quando morre alguém que me é próximo, na realidade fico triste e aceito o luto como uma prática pertinente.
Como se depreende pelo título deste texto, considero que havendo uma relação estreita entre a filosofia e a vida, interessa que tanto numa iniciação à disciplina quanto no aprofundamento das suas temáticas, o estudo dos filósofos e das problemáticas por eles tratadas nunca deverá perder de vista a dimensão prática. E esta implica que se ensine a viver e a viver melhor.
Sempre defendi que a disciplina de filosofia é essencial no ensino secundário, devendo no entanto adaptar-se à idade dos alunos que a frequentam, interessando-se pelos seus problemas e abrindo-lhes perspectivas para outros campos, nomeadamente ajudando-os a cultivar uma visão crítica, o que na maior parte dos casos não ocorre nas disciplinas dos currículos escolares actualmente em vigor onde os temas são abordados de um modo dogmático. O questionamento próprio da actividade filosófica exige a abertura de novos horizontes bem como o treino de uma atitude interrogativa que levanta questões e coloca dúvidas. Nos actuais programas de filosofia do ensino secundário há que estabelecer pontes entre as teorias e os problemas que são apresentados aos alunos e a vida real que todos conhecem por experiência própria. Acontece que os filósofos que se estudam no secundário aparecem de um modo geral através de escritos dispersos dos mesmos, servindo para ilustrar determinadas teorias mas desenquadrados dos posicionamentos que tomaram. A filosofia é apresentada “aos remendos”, em pequenos textos utilizados para responder a questões, sem grande preocupação em identificar os seus autores naquilo que foi a novidade das suas obras, bem como dos novos caminhos que traçaram. Penso que seria útil a leitura integral de uma obra – e há obras acessíveis aos adolescentes, muito mais interessantes do que os textos fragmentados que geralmente se lhes apresentam como solução para as questões levantadas. Os professores queixam-se que os alunos não lêem. Mas o gosto pela leitura é uma aprendizagem que urge cultivar. E se realmente pensamos que filosofar é aprender a viver, essa aprendizagem será tanto mais conseguida quanto mais estabelecermos amizade com os filósofos, lendo-os, comentando-os, identificando-nos com as suas teses ou aprendendo a criticá-las. Daí podermos dizer que quem ensina filosofia tem a responsabilidade acrescida de também ensinar a viver.
[1] “Que philosopher c’est apprendre à mourir”, Montaigne, Les Essais, I, Paris, Garnier, 1941, cap. XX, pg. 81.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa










