“Filosofar é estar a caminho”
(Karl Jaspers)

“(…) a contemplação do Todo em que nos integramos é uma via importante para o cultivo da espiritualidade.” Foto © Steffan Mitchell / Unsplash
Durante anos integrei um grupo de caminhantes na zona de Sintra. Com ele conheci lugares insuspeitos, revisitei sítios que ganharam novos relevos depois de percorridos a pé, atendi a povoações que conhecia apenas de passagem, interessei-me por problemas que nunca me tinham preocupado, nomeadamente os de carácter ecológico, estabeleci relações com pessoas que desconhecia.
Os passeios eram longos e faziam-se várias paragens. Lembro uma delas, numa zona perto de Mafra, onde todos nos sentámos a descansar no largo de uma igreja. Como os membros do grupo usavam bengalas e óculos escuros, logo alguém da terra nos abordou, perguntando se éramos invisuais e se queríamos ajuda da Junta de Freguesia. Sossegaram quando nos identificámos como um grupo amante de passeios, informando de onde vínhamos e qual era o nosso objectivo – conhecer terras diferentes e usufruir da paisagem vegetal e humana.
As caminhadas que então fazíamos, orientados por um guia que previamente as preparava, integrava novos e velhos e tinham uma duração de duas a três horas, com o objectivo de conhecer as zonas que íamos atravessando, gozando da paisagem e eventualmente falando com os seus habitantes quando tal se proporcionava.
Recordo que uma vez desafiámos duas netas para nos acompanharem, pensando que miúdas dez e doze anos (como era o caso) aguentariam tão bem, ou melhor, do que os elementos seniores. Aconteceu que ao fim de um quarto de hora de caminhada elas perguntavam aos componentes do nosso grupo, todos eles adultos, quando é que o passeio terminaria. Embora tenham aguentado estoicamente até ao fim, penso que acabaram mais cansadas do que os elementos mais velhos. Mas a verdade é que nunca mais nos pediram para nos acompanhar e sempre que nos viam a preparar novas excursões afastavam-se prudentemente para não serem convidadas na participação das mesmas.
Recentemente li um livro de Frédéric Gros no qual a actividade de caminhar era aproximada da filosofia.[1] De facto este autor não considera a caminhada como desporto, mas sim como uma inversão da lógica dos habitantes das cidades pois, enquanto caminhantes devem fruir do vagar, habitando uma paisagem e fazendo dela a sua casa. Caminhar exige uma aproximação lenta do que nos rodeia, absorvendo os seus sabores, as suas cores e os seus cheiros. As paisagens que vamos atravessando e descobrindo são uma fonte renovada de energia que nos estimula a continuar, mesmo quando o cansaço é grande. Enquanto andamos usufruindo o prazer de uma marcha solta, esquecemos as preocupações do dia a dia – o que nos interessa é apreciar os trilhos, usufruir das vistas, conversar com companheiros e companheiras ao ritmo do que vamos contemplando, partilhar de um modo informal experiências e desejos. Caminhar, de um modo solitário ou em grupo, é abandonar a rotina e construir novos elos de solidariedade, com a paisagem que contemplamos ou com os outros que nos acompanham.
Sendo Espinosa o filósofo que mais tenho estudado ao longo da vida, não posso deixar de ser sensível com a identificação que este faz entre Deus e a Natureza. Não partilhando o panteísmo do autor da Ética acredito no entanto que a contemplação do Todo em que nos integramos é uma via importante para o cultivo da espiritualidade. Note-se que Espinosa nunca se preocupou com o bem-estar da Natureza – algo que consideraria absurdo pois admitia que a poderíamos usar em proveito próprio dado que somos parte dela. Mas o seu objectivo essencial foi compreendê-la, estudá-la e apreciar a sua potência, de modo a tomarmos consciência de que tudo quanto existe é sua manifestação. Realizar-nos-emos tanto melhor quanto mais percebermos que somos parte de um Todo e quanto mais agirmos de acordo com as suas leis, mais felizes seremos. A beatitude – um estado raro que só poucos alcançarão – é a consciência do modo como pertencemos ao Todo em que nos integramos. Algo que, segundo ele, é tão difícil quanto raro, tal como nos é dito no final na Ética. Mas é essa a via que ele nos pretende revelar ao longo desta sua obra pela qual percebemos que filosofar é estar a caminho. Só que, neste caso, os trilhos que percorremos são exclusivamente mentais, ignorando a actividade física.
[1] Frédéric Gros, Caminhar. Uma filosofia, trad. de Inês Fraga, Lisboa, Antígona, 2024.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia (aposentada) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.









