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[À Margem]

Fixemos o número: 3,83 mil milhões. Metade da humanidade. Para dizer o quê?

| 19/02/2026

Chocante? Gritante? Escandalosa? Ofensiva? Aviltante?…

1.

As palavras já não servem, mesmo quando todas juntas, para descrever a tragédia do fosso das desigualdades que continuam a cavar-se no nosso mundo. Nesta sexta-feira, 20, assinala-se o Dia Mundial da Justiça Social, mas estamos muito longe de atingir os mínimos da dignidade humana em muitas áreas.

Poderiam usar-se muitos números para percorrer a realidade das misérias em que tantos vivem. Bastam alguns exemplos, citados no último relatório da Oxfam e que reproduzo da notícia do 7MARGENS em Janeiro: em 2025, a riqueza dos mais de 3.000 super-ricos aumentou três vezes mais rápido do que a taxa média anual dos cinco anos anteriores; os 12 bilionários mais ricos do mundo têm mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade, ou seja, mais de quatro mil milhões de pessoas; desde 2020, a redução da pobreza que se vinha a verificar, estagnou (e está pior em África); em 2022, quase metade da população mundial (48 por cento), ou seja 3,83 mil milhões de pessoas, vivia na pobreza; o número de pessoas a enfrentar insuficiência alimentar cresceu à escala planetária 42,6 por cento entre 2015 e 2024 e atinge moderada ou gravemente uma em cada quatro pessoas em todo o mundo. (ver 7MARGENS)

Há outro dado relevante: o relatório da Oxfam International tem o título Resistindo ao domínio dos ricos; protegendo a liberdade face ao poder dos bilionários. Isto significa que o aumento do fosso das desigualdades está a ameaçar gravemente as democracias e a liberdade. A Oxfam nota: “O aumento da desigualdade é um dos indicadores mais fortes do início do colapso das democracias.” Temos, aliás, visto o que tem sucedido com os discursos populistas a medrar exactamente nos meios mais desiludidos e esquecidos do combate às desigualdades.

2.

O desfile de números poderia continuar, porque o que aí vem pode ser pior: o desmantelamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), que foi seguido por cortes do Reino Unido, Alemanha e Canadá nas verbas de ajuda pode provocar, até final da década, a morte de pelo menos 9,4 milhões de pessoas. Dessas, dois milhões e meio podem ser crianças com menos de cinco anos. Quem o diz é a insuspeita revista médica The Lancet, citada na CNN International.

Repare-se bem: mais de nove milhões de pessoas, quase um Portugal inteiro. E um quarto delas serão crianças. Os cortes, diz a mesma fonte, já obrigaram ao encerramento de clínicas de HIV na África do Sul, programas médicos no Afeganistão e de combate à desnutrição e doenças evitáveis em todo o mundo. Nada disto, no entanto, comove o narcisimo do actual ocupante da Casa Banca. Que, infelizmente, não está sozinho entre as lideranças políticas mundiais, como se vê pelos exemplos referidos.

Só mais alguns números: os dados recolhidos pelo SIPRI (Instituto Internacional de Investigação sobre a Paz, de Estocolmo) relativos a 2004, dizem que o volume de negócios dos 100 maiores produtores de armamento cresceu em média cerca de 6 por cento, em comparação com 2023; as vendas de armas e de serviços de natureza militar atingiram um montante recorde de 679 mil milhões de dólares americanos; os conflitos na Ucrânia e em Gaza, foram dois dos factores principais para este aumento da corrida aos armamentos; na Europa, as 26 empresas de armamento que figuram no top 100 viram as receitas subir 13 por cento de 2023 para 2024 (151 mil milhões de dólares), por causa da procura potenciada pelo apoio à Ucrânia e pela política adoptada contra a “ameaça russa” e para satisfazer as exigências do presidente dos EUA.

Indústria das armas: disparou a procura e… os lucros dos produtores

Portugal não está imune a tristes realidades: tendo registado nos últimos anos uma redução da taxa de pobreza, continua a ser um dos países mais desiguais entre os 27 da União Europeia.

3. 

Talvez não seja apenas um feliz acaso de calendário que, neste ano, quando se avolumam os desafios e problemas, a Quaresma cristã e o Ramadão muçulmano (e também o Ano Novo tibetano) coincidam no tempo. (ver 7MARGENS)

A oração, o jejum e a caridade, que marcam estes tempos dos dois credos, não são apenas atitudes e gestos individuais. Eles implicam uma relação com os mais fragilizados. Em ambos os casos, a fé só se vive em comunidade – no islão, fala-se de umma, no cristianismo de ecclesia. E em ambos os casos, a fé não se pode espartilhar, separando as suas diferentes dimensões – neste caso, o jejum, a oração e a esmola (o mesmo que caridade ou solidariedade). Na Quaresma, esta trilogia é inseparável e só as três experiências em conjunto dão sentido ao tempo litúrgico. No Ramadão, os crentes são, pelo jejum, desafiados à partilha: “As mesas enchem-se no momento da quebra do jejum, o iftar, muitas vezes em família, entre amigos ou em comunidade. E, com a comida, cresce também a caridade”, escrevia há dias Mohammed Ibrahim no 7MARGENS.

“Alimentam-se os necessitados, reforça-se a solidariedade e recorda-se que o sustento é, antes de tudo, uma dádiva. Ao sentir na própria pele a fome e a sede, mesmo que temporariamente, o ser humano aproxima-se da realidade de tantos que vivem essa condição diariamente, e para quem a fome é rotina. É nesse reconhecimento que nasce a empatia – e, muitas vezes, a transformação interior.”

4. 

Na sua encíclica Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum, o Papa Francisco dizia o mesmo quando falava do santo de Assis: “são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (LS, 10).

Os crentes – cristãos e muçulmanos, juntos neste acaso de calendário; mas também judeus, hindus, budistas ou outros – devem exigir-se a si mesmos essa atitude que marcou a vida de tantos místicos das diferentes tradições religiosas: a espiritualidade e a maior ascese completam-se com a atenção ao outro; o que significa que quando outra pessoa está em condição de especial necessidade, a fé em Deus deve traduzir-se na proximidade com essas pessoas. Na tradição cristã, essa atitude é traduzida na parábola do juízo final, que se lê em Mateus 25, no islão ela pode ler-se numa sentença do profeta Muhammad, citada na página Why Islam?: «“Todo o muçulmano deve fazer caridade.” Perguntaram-lhe [ao profeta]: “E se não puder?” Ele respondeu: “Então ele deve procurar trabalho e ajudar a si mesmo e aos outros.” Perguntaram-lhe: “E se não puder?” O Profeta (que a paz esteja com ele), respondeu: “Então ele deve ajudar alguém em necessidade.” Perguntaram-lhe: “E se não puder?” Ele respondeu: “Então ele deve ordenar o que é certo ou bom.” Perguntaram ao Profeta (que a paz esteja com ele), “E se não puder?” Ele respondeu: “Então, pelo menos, ele deve se abster do mal, e isso seria caridade para ele.”»

Vale a pena, enfim, recordar o que escrevia também o Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social – e que pode ser lido como a urgência de dar a experiências como a Quaresma e o Ramadão um sentido não só pessoal, mas também comunitário e social:

«Não se alcança a igualdade definindo, abstractamente, que “todos os seres humanos são iguais” (…). O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nem pode sequer preservar-nos de tantos males, que se tornam cada vez mais globais. (…)

«(…) o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento não justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente. (…) Todo o ser humano tem direito de viver com dignidade e desenvolver-se integralmente, e nenhum país lhe pode negar este direito fundamental. Todos o têm, mesmo quem é pouco eficiente porque nasceu ou cresceu com limitações. De facto, isto não diminui a sua dignidade imensa de pessoa humana, que se baseia, não nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro para a fraternidade nem para a sobrevivência da humanidade. (FT 104-107).»

5. 

Esse é o apelo a todos os que entendem que a criação e a dignidade com que vive é um reflexo do Criador em quem acreditam: que haja um futuro para a humanidade. É importante que haja um dia para nos recordar (e sobretudo, nos impelir a agir) que não se pode mais tolerar o escândalo das tremendas injustiças que sofrem tantas criaturas de Deus.

 

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