Noite de 24 de dezembro

Fogueira de Natal desperta a chama da tradição em Alijó

| 24 Dez 2023

Nas vilas e aldeias transmontanas, as fogueiras de Natal são lugares de encontros de gerações, que aquecem as pessoas nas noites frias de inverno. No Douro, a fogueira de Alijó reúne a população, sobretudo na noite de consoada.

Fogueira de Natal

Fogueira de Natal de Alijó em 2022. Foto: Direitos reservados

 

Em Alijó, no distrito de Vila Real, o acumular de lenha seca e troncos que resultaram de podas e limpezas de árvores ao longo das últimas semanas já é visível no centro da vila. O monte de lenha, que vai dar lugar à grande fogueira, ganha forma na praça central, entre o plátano centenário, que concorre a Árvore do Ano, o chafariz e a Igreja Matriz.

A fogueira de Natal é uma tradição bastante antiga, que se crê remontar à época Celta, e já se tornou um hábito na vila de Alijó. “Na noite de 24 de dezembro, antes da Missa do Galo, a fogueira é acesa e é tradicional as pessoas reunirem-se até tarde, à volta dela, para se aquecerem e conviverem durante longas horas. Antigamente, as pessoas só regressavam a casa de manhãzinha, quando a fogueira se apagava”, conta Lina Carvalho, presidente da Junta de Freguesia.

Uns dias antes do Natal é notória a azáfama da recolha de lenha, com o contributo importante dos funcionários da Junta de Freguesia, a promotora da iniciativa, mas também da câmara e de pessoas da vila que transportam cepas de videiras, depois de podadas as vinhas da região demarcada mais antiga do mundo, o Douro.

 

Encontro intergeracional “pela noite dentro”

Fogueira de Natal

A fogueira de Natal de Alijó acende-se a 24 de dezembro. Foto: Direitos reservados

 

A chama desta fogueira, tal como as relações familiares nesta época do ano, precisa de muito sustento. E o contributo de todos vai avolumando o monte de lenha, que dá corpo à tradição. “Ao longo de vários dias, vamos juntando madeira, principalmente as murras, que são os troncos maiores, mas também colocamos lenha seca por baixo, para que a fogueira não se apague. A ideia é estar sempre acesa, para que todas as noites as pessoas se reúnam e convivam”, sublinha Lina Carvalho.

“A ‘murra’ a arder nos terreiros, celebrando o fogo purificador, herdeiro dos antigos rituais do solstício de inverno que assinalavam a chegada de um novo ciclo fertilizador sobre a Terra” é “um dos símbolos dos genuínos natais transmontanos”, salienta Alexandre Parafita, etnólogo e investigador no Centro de Estudo de Letras da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em conversa com o 7MONTES.

Esse costume, enraíza-se no facto de “nas aldeias transmontanas o conceito de família não se fechar nas paredes de uma casa porque a família é toda a comunidade”, refere Parafita, que completa: “E não é de estranhar que assim seja, pois, porta sim, porta não, todos são parentes.” É por isso que “a festa começa com a consoada em casa e completa-se na comunidade, à volta da ‘murra’”.

Tradição que torna o convívio de Alijó em algo bastante participado, em particular na noite de consoada, a 24 de dezembro. “Depois de jantar – diz Lina de Carvalho – as pessoas juntam-se à volta da fogueira. É um momento de grande confraternização”, confraternização aquecida pelo Moscatel de Alijó, que a Junta de Freguesia oferece.

Neste grande encontro intergeracional, a população mais jovem é a mais resistente. “A convivência é maior entre os mais novos, que se mantêm ali até altas horas da madrugada”, conta a responsável, acrescentando que, para resistirem à noite fria, “trazem vinho, puxam o seu brasume, assam uma chouriça ou uma alheira e convivem pela noite dentro”.

A inauguração da fogueira de Natal de Alijó acontece às 22 horas do dia 24. Vai manter-se acesa durante quatro a cinco dias, até bem perto do Ano Novo, numa tradição que aquece os alijoenses nesta época do ano.

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