Foi então que conheci a Manuela Silva…

| 18 Out 19

Manuela Silva em Julho de 2012, quando completou 80 anos. Foto © Maria do Céu Tostão

 

Em 2004, depois de quatro anos em Itália e acabadinha de regressar de um ano na América Latina no meio dos mais pobres, e tendo aí conhecido uma Igreja que andava envolvida nas revoluções sociais e a lutar ativamente pela justiça, mesmo quando para isso se tornava incómoda e alienava a simpatia dos poderosos, fiquei desanimadíssima com o que encontrei em Portugal. A Igreja cheirava-me a mofo, parecia que tinha sempre medo de incomodar e de ferir susceptibilidades, e por isso calava e consentia, passiva e conivente com o status quo.

Eu, que nunca calei nem deixei de lutar por aquilo em que acreditava, e que sempre li o Evangelho como um texto verdadeiramente radical e revolucionário, fiquei desgostada e afastei-me. Foi então que conheci a Manuela Silva. Numa conferência organizada por ela, enquanto presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, percebi pela primeira vez que havia uma Igreja progressista em Portugal, que era minoritária e pouco visível, é certo, mas que estava viva.

Nessa conferência ouvi uma oradora, no palco, reclamar contra a orientação neoliberal e acrítica do ensino na Faculdade de Economia da Católica. Precisamente por ser a Católica, era inaceitável que os alunos não fossem estimulados a porem em causa os pressupostos de um sistema que produzia cada vez mais desigualdade e que não permitia erradicar a pobreza.

Fiquei rendida e, no final da conferência, pedi a palavra e vociferei contra o capitalismo, a falta de democracia, o conservadorismo e a hipocrisia da Igreja, a falta de ativismo e participação cívica em Portugal (na altura, as pessoas eram muito mais passivas e não havia grande consciência política entre os jovens em Portugal – felizmente, penso que muito mudou nos últimos 15 anos) e o contraste que via relativamente à Igreja politicamente ativa que encontrara em Itália e, sobretudo, na América Latina.

No dia seguinte, a Manuela ligou para casa dos meus pais e perguntou por mim. Eu já estava casada e não faço ideia como é que ela chegou até mim por aquela via. Deixou o seu contacto e liguei-lhe de volta. Convidou-me para sua casa, e ficámos amigas desde então. Graças a ela fiz parte de duas equipas da Comissão Justiça e Paz, desenvolvi um projeto lindo de Educação para o Desenvolvimento em escolas e paróquias, conheci o Alfredo Bruto da Costa, o José Dias, o António Marujo, pessoas que muito me ensinaram, e sobretudo, graças a ela não me afastei da Igreja, não desertei.

Fui encontrando as minhas bolhas de oxigénio dentro da comunidade dos que querem seguir Jesus, compreendendo que nem todos O seguimos da mesma maneira, mas que não devo desistir de procurar quem O queira seguir da mesma maneira que eu.

Querida Manuela…. muito obrigada.

 

(Este texto foi inicialmente publicado na página da autora na rede social Facebook)

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