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Foi um bom centenário, “não é assim”, padre Júlio Fragata?…

Foi um bom centenário, “não é assim”, padre Júlio Fragata?…

by | 3 Mai 20

Padre Júlio Fragata (à esquerda) com Pedro Arrupe (superior-geral da Companhia de Jesus, de 1965 a 1983). Foto: Direitos reservados

 

O padre Júlio Moreira Fragata nasceu a 17 de Abril de 1920, em Seixo de Ansiães (Carrazeda de Ansiães) e faleceu a 27 de Dezembro de 1985, em Braga. Eminente figura como sacerdote jesuíta, como professor universitário, autor de obras de alto nível científico e conferencista em Portugal e no estrangeiro. Etc. (de verdade). Espera-se realizar a devida homenagem a 20 de Outubro, na sua terra natal. Entretanto, fantasiei o relato da celebração do centenário como se tivéssemos a sua presença física. Aqui vai:

Foi um bom centenário, “não é assim”?

Pois foi assim de certeza. Assistiu à festa organizada pelos seus antigos discípulos e amigos, com o habitual ar comedidamente bem-disposto e terminou com simples palavras: “Pois, não é assim, eu acho que não merecia tanto trabalho, não é assim, porque a amizade de todos já me acompanhava e eu, não é assim, nunca os esquecerei. Bem-hajam.” E retirou-se para aquele cantinho sagrado de sabedoria, onde os centenários da alegria se sucedem fora dos limites do tempo.

Só quando falava de coração é que usava a muleta “não é assim”. Nas aulas, no aconselhamento, na discussão… o “não é assim” seria substituído por um breve silêncio feito de meditação crítica.

Como professor ou conferencista, explorava toda a riqueza do tema em questão, com o dom de clareza e de metodologia que lhe era notavelmente peculiar. Juntava rigor e isenção. Ficou marcada uma conferência sobre o marxismo, nos anos 60, em que as palmas de certos sectores de ouvintes foram tímidas… O que lhe importava era iluminar as ideias que marcavam a história do pensamento e podiam transformar a História da Humanidade.

Sabia escutar. E o silêncio referido era como estar atento aos quatro pontos cardeais que rodeavam a pessoa sentada a seu lado. “Pois, não é assim, talvez seja conveniente aprofundar esse aspecto…” ou “não me parece poder concordar…” ou “acho que está a ver muito bem” e até “posso assegurar-lhe que o que me diz é verdadeiramente inspirado por Deus”. E gastaria o tempo necessário para aprofundar um tema, deixar dicas para investigação…

Como se vê, as reticências abundam no texto: talvez porque ele deixava caminhos abertos a quem procurava sempre mais. Mas também não hesitava, como superior, mestre ou amigo, a emitir uma posição definida (neste caso, sem a muleta): “Sobre esta questão, estou convencido que o melhor caminho a tomar… Fica portanto assente.”

Foi meu orientador de doutoramento até à morte (apresentei a tese meio ano depois). Teve o cuidado de me escolher um substituto, consciente da iminência daquele último “pois não é assim” (à nossa escala temporal). Conselheiro espiritual desde os meus 21 anos (1962), ajudou-me a discernir que deixar de ser jesuíta era o meu bem maior. E depois, com toda a simplicidade, ajudou-me a “adaptar” à nova vida os “mandamentos” da vida antiga.

Ao discutir temas da tese (“Filosofia da Educação e Aporias da Religião”, defendida em 1986), quantas vezes me dizia com liberdade: “Pois não é assim, já vê que eu não posso repetir estas coisas do púlpito abaixo.”

Discernia os níveis de expressão e os condicionamentos de quem ouve. Também não dizia o contrário do que achava mais correcto: como que expunha o mais profundo e crítico pensamento em parábolas…

E com estas reticências continuarei a celebrar esse mestre, cuja espiritualidade está meio patente na colectânea dos seus pensamentos.

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado

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