Foi um erro silenciar os casos de padres que tiveram filhos, reconhece responsável do Vaticano

| 2 Fev 21

Escola. Criança.

Não reconhecer as crianças filhas de padres provocou “muito sofrimento e muitas feridas” que “demoram a sarar, diz responsável do Vaticano. Foto: Direitos reservados

 

A Igreja Católica cometeu um erro quando procurou que os seus membros silenciassem casos de padres que tiveram filhos, admitiu o presidente do Comité Pontifício de Ciências Históricas, padre Bernard Ardura, num documento que o National Catholic Reporter (NCR) acaba de dar a conhecer.

O documento, de três páginas, foi endereçado por Bernard Ardura como resposta a questões que lhe haviam sido colocadas por Vincent Doyle, um irlandês, ele próprio filho de um padre, que lidera a Coping International. Esta organização proporciona apoio psicológico e pastoral gratuito a filhos de padres e religiosos e defende os direitos destes relativamente à Igreja Católica.

Doyle tinha dirigido uma mensagem ao referido Comité, por considerar que “é especialmente importante reconhecer oficialmente os crimes das instituições no passado, que duraram e continuaram ao longo de séculos”, segundo declarações suas ao NCR.

O Catholic Reporter ouviu, por sua vez, o presidente do Comité do Vaticano, que justificou deste modo a resposta dada recentemente a Doyle: “Neste caso, está em jogo muito sofrimento e muitas feridas demoram a sarar. Considero uma prioridade expressar a minha proximidade de forma concreta, ao tentar entender de um ponto de vista histórico como e por que é que a instituição tomou posição”. E observa: “Temos de aceitar a nossa história em todos os seus aspetos e isso nem sempre é fácil.”

No documento, o padre Ardura faz notar que a Igreja, no período anterior ao atual, procedeu como diversas outras instituições das nossas sociedades, isto é, “procurou cuidadosamente evitar abordar publicamente tudo quanto dizia respeito ao comportamento dos seus membros, os quais ela certamente desaprovava, mas sobre os quais fez silêncio, seguramente por vergonha, mas também por receio de perder a confiança”.

“Isto foi um erro, que se explica pelo contexto, mas que não deixa de ser um erro”, entende o padre Ardura. “A abordagem atual, desejada com determinação pelos papas Bento XVI e Francisco, visa não só romper com os silêncios anteriores, mas ainda denunciar qualquer forma de abuso, ao ponto de impor a ‘tolerância zero’.”

Vincent Doyle questionara também o seu interlocutor sobre o facto de a Igreja ter considerado “o escândalo institucional” mais importante do que “o escândalo de ferir crianças, em silêncio”.

Na resposta, o responsável do Vaticano considera dois aspetos, “à luz da tomada de consciência operada a diferentes níveis, ao longo das últimas décadas”. O primeiro consiste no reconhecimento de que “objetivamente o silêncio que rodeou estas crianças (…) teve consequências nefastas sobre as pessoas, quer se trate de crianças ou de adultos”.

O segundo aspeto passa pelo reconhecimento de que, “numa época em que o silêncio era generalizado e tocava todas as instituições – religiosas e civis –, numerosas dioceses e congregações religiosas intervieram regularmente para tomar a seu cargo, pelo menos no plano material, estas crianças”. Mas, acrescenta, “infelizmente, isso não retira o sofrimento delas, mas mostra verdadeira compaixão”.

O National Catholic Reporter adianta, com informações de contexto destes problemas dramáticos, que os últimos números do Vaticano indicam que existem, no mundo, cerca de 414 mil padres católicos. Embora não haja um número seguro para o número de filhos de padres, Vicent Doyle adianta que a sua organização conta com cerca de 50 mil utilizadores registados em 175 países.

Este ativista entende que o Papa deve reconhecer publicamente a existência dessas crianças. “É importante que um papa diga que ‘os filhos dos [ministros] ordenados devem ser respeitados, amados, cuidados, e não negligenciados de forma alguma'”, diz. “Estou a desafiar o Papa. Se eu não acreditasse nele, não lhe colocaria este desafio, com respeito e humildade”, acrescentou ele, na entrevista ao NCR.

Doyle conheceu pessoalmente Francisco em Roma, em junho de 2014, e diz confiar nele. Mas entende que, uma vez que um padre admite ter um filho, não deve ser automaticamente laicizado, especialmente se isso significar que ele, a criança e a mãe irão viver na pobreza. Ele sugere que o Vaticano crie uma comissão dedicada à questão das crianças filhas de padres e que uma possível solução poderia passar por admitir que esses padres poderiam ficar na posição de viri probati (homens casados a exercer o ministério).

 

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