
Uma criança de cinco anos espera a sua vez para obter comida, em Rafah, Faixa de Gaza. Foto © Abed Zagout, Unicef
São já 2,15 milhões aqueles que estão, neste momento, a passar fome na Faixa de Gaza, o que corresponde a 96% da população da região. De acordo com dados divulgados esta terça-feira, 25, pela Integrated Food Security Phase Classification (IPC), a situação é dramática. Vários médicos que estão a trabalhar em unidades móveis de saúde já alertaram, também, para a carência de víveres nos abrigos.
A Save the Children, organização presente no terreno, documentou cerca de 40 casos de crianças com desnutrição grave e potencialmente fatal numa das suas clínicas em apenas cinco semanas, onde também chegam adultos que apresentam um peso extremamente baixo, fadiga, tensão arterial baixa e outras doenças associadas à fome, revela em comunicado.
Os apoios de vária ordem que chegam à região revelam-se decisivos para a sobrevivência das pessoas que habitam este território, pelo que a Save the Children apela à concessão de acesso livre e absoluto às agências de ajuda humanitária e outras organizações de auxílio para, assim, se salvarem o máximo possível de vidas. Isto porque, por esta altura, estas entidades ainda têm muita dificuldade em entrar em Gaza sem restrições.
“Sabemos como prevenir a desnutrição, sabemos como tratar a desnutrição, mas não nos estão a dar a oportunidade de o fazer. As restrições severas e significativas à ajuda e os combates intensos significam que não podemos gerir clínicas como normalmente faríamos, e já o fizemos noutras inúmeras situações de emergência, para salvar vidas”, afirma Rachael Cummings, chefe da equipa de Save the Children em Gaza. “A taxa de deterioração da população aqui é extraordinária. As comunidades anteriormente saudáveis estão simplesmente a definhar. Estamos a assistir a um aumento do número de crianças com diarreia, icterícia, problemas respiratórios, que são todas as doenças que, quando combinadas com a fome extrema, podem matar uma criança em dias”, acrescenta.
As estatísticas da IPC demonstram, de igual modo, que aproximadamente 745 mil pessoas em Gaza enfrentam condições de emergência de insegurança alimentar que se caracteriza por desnutrição aguda e um risco crescente de morte relacionada com a fome. O relatório revela, com efeito, que sem o fim das hostilidades e a melhoria imediata do acesso à ajuda, todas as crianças de Gaza correm o risco de passar fome.
Falta tudo: comida, água potável, antibióticos e equipamentos médicos
De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, pelo menos 34 pessoas, a maioria das quais crianças, já morreram de desnutrição grave. A investigação da IPC menciona ainda que, embora a população do norte de Gaza tenha sido temporariamente retirada do limiar da fome, prevista para maio, isso deve-se apenas ao facto de ter sido permitido que uma ajuda limitada chegasse aos mais necessitados. Em contrapartida, no sul de Gaza, a situação de fome deteriorou-se substancialmente na sequência do recrudescimento das hostilidades e da diminuição do acesso à ajuda.
“De certa forma, é muito simples. Para evitar que as crianças morram de fome e subnutrição, é preciso conseguir chegar até elas, fazer-lhes o rastreio e tratá-las. Precisamos de ter acesso às comunidades. Precisamos de fornecer alimentação suplementar às crianças e às mulheres grávidas e lactantes para evitar que as crianças fiquem subnutridas em primeiro lugar. E as famílias precisam de ver cumpridos os seus direitos fundamentais à água potável, ao saneamento e aos serviços de saúde para evitar que mais crianças fiquem ainda mais doentes”, conclui Cummings.
Já inúmeros médicos que estão a trabalhar neste território alertam, também, para a falta de víveres que as populações estão a enfrentar. “Há uma grave escassez de medicamentos necessários para o cancro e até de antibióticos para as crianças”, refere Bassam Abu Hamad, consultor de saúde. “Em termos de equipamento, é ainda mais complicado porque o sistema de saúde foi destruído. Muitas ambulâncias foram completamente destruídas”, complementa.
Lubna Yousif Sabbah, coordenadora dos programas de saúde e psicossociais, citada pelo World Council of Churches apela, por fim, à oração. “Encorajamo-nos a continuar a ajudar e a servir as pessoas necessitadas”, menciona Sabbah. “Podeis rezar para acabar com esta guerra e com a violência contra pessoas inocentes em Gaza. Rezem para que a paz, a prosperidade e a justiça prevaleçam”, acrescenta.
A fome, a carência de medicamentos e outros bens essenciais têm sido uma constante desde que Israel retaliou o ataque do Hamas, invadindo a Palestina e a Faixa de Gaza. Mas não só nesta região se vive em guerra ou se passa fome, como documenta este trabalho da agência Reuters.









