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Força e fé perante o medo e a pandemia

| 17/08/2020

Na instituição em que trabalho, houve uma forte mobilização das equipas no sentido de se organizarem seguindo as orientações da Direção Geral da Saúde: fez-se o plano de contingência, prepararam-se as declarações de controlo de mobilidade para as deslocações ao serviço e houve também uma grande mobilização de apoio entre as chefias, psicólogos, médicos, enfermeiros, assistente social, terapeutas, auxiliares.

Pessoalmente, tive de me organizar: apesar do medo, receio de ficar doente ou pôr doente a minha filha, Sara, decidi trabalhar. Era mais um desafio na vida: algumas pessoas amigas apoiam-me para ficarem com a Sara para eu poder deslocar-me para o trabalho e, perante a minha decisão, já não podiam ajudar-me, porque sentiam receio, o que é compreensível pois trabalho numa unidade de saúde. O medo que essas pessoas tinham também eu tinha. E tive de recorrer a outros apoios que não eram confortáveis para mim nem para a minha filha…

Desde o início da pandemia, foi grande a mobilização e rapidez na organização e na contenção da pandemia; mas o mais importante foi a atenção e a preocupação prestada aos colaboradores. Atravessávamos momentos de tensão e medo, mas foi fácil ultrapassá-los. Tínhamos uma boa equipa e uma chefia que a todos foi capaz de mobilizar a fim de ficarmos todos bem física e psicologicamente. Isso ajudou-me muito porque, desde o início da quarentena, sempre trabalhei, não meti baixa por ter uma filha menor, no que foi mais um desafio na minha vida e da minha filha. É assim que se cresce e eu cresci muito a nível pessoal e profissional.

A situação dos utentes foi a mais tensa e muito triste: eles sentiam-se como se tivessem sido abandonados pelos familiares por já não terem visitas. Os doentes mais conscientes estavam frustrados e houve momentos em que tivemos de ser mais assertivos nas respostas. Outros, menos conscientes da realidade do que se passava, manifestavam-se com choro ou recusa na alimentação.

O primeiro impacto com a pandemia foi um frenesim: o que vamos fazer, como fazer, como adaptar o espaço, como usar tecnologias, como gerir a equipa e as emoções (porque trabalhamos com pessoas e para as pessoas)? No início houve a preocupação e muitos cuidados para que ninguém ficasse com o vírus (nem doentes nem funcionários). Foi o momento de gerir emoções e preocupações, muito difícil tanto da parte dos doentes como dos funcionários, era muito stress.

Viu-se aí a importância de um psicólogo num meio profissional como este, e também a importância de saber pedir ajuda. Era altura de manter a “calma”. Foi muito difícil, da parte de todos os envolvidos. Depois do medo e da angústia, acusa-se o cansaço físico e o psicológico, bem como a importância de se continuar a trabalhar: a pandemia ainda não acabou. Nessa fase pedi ajuda à psicóloga, porque houve momentos em que já não me reconhecia: com o cansaço, a paciência não é a mesma e, numa conversa, tive a ajuda para continuar a caminhada.

Para superar e ter o sucesso possível nesta pandemia, prosseguindo a caminhada, tem sido necessário um conjunto de comportamentos: amor à profissão, bom equilíbrio emocional, saber pedir ajuda, ter uma equipa funcional e organizada. E uma boa bagagem pessoal de força e fé.

A fé faz-me alcançar a paz interior e a tranquilidade. Estando triste ou alegre, oro, e muitas vezes, quando estou em reflexão, fico a ouvir a canção da consagração a Nossa Senhora e isso traz-me paz. A minha fé vem desde a infância, do que aprendi em casa, da catequese e de outras pessoas que me acompanharam, mas, noutra fase, aprendi e redescobri a fé por mim. Vejo a fé como uma escola da vida para a vida e é isso que me faz alcançar uma paz interior.

 

Marisa Fernandes é auxiliar de acção médica na Unidade de Cuidados Continuados e Integrados São Roque, da Misericórdia de Lisboa

 

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