Recomendações do Inquérito 7MARGENS sobre o Sínodo

Forte apelo à “desclericalização” da Igreja Católica

| 13 Out 21

Papa Francisco com os participantes no Momento de Reflexão que deu início ao Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade. Foto ©Vatican Media 2021

 

A “desclericalização” da Igreja Católica; aposta na escuta de todas as pessoas de boa vontade, sem exceção; a urgência de uma atitude de acolhimento de todos, em especial os que andam pelas margens; o debate e assunção de um maior protagonismo do papel das mulheres; e a aposta estratégica na formação dos presbíteros, dos leigos e, em particular dos catequistas – eis as quatro recomendações mais salientadas pelos 1036 respondentes ao inquérito sobre o Sínodo da Igreja Católica, cujos resultados o 7MARGENS tem vindo a apresentar nos últimos dias.

As respostas à única pergunta aberta da consulta aos leitores deste jornal são de uma diversidade e riqueza dignas de atenção, não lhes faltando, em vários pontos, propostas concretas que iremos apresentar.

Antes disso, importa referir que perto o número de pessoas que aceitou escrever algum contributo, desde mensagens quase telegráficas até respostas com alguma elaboração, aproximou-se das 950, o que é merecedor do empenho de participação na conversa pública sobre o Sínodo. Entre as perto de oito dezenas de casos de ausência de resposta, uma parte significativa assumiu que não sabia ou entendia não ter condições para responder. Alguns anotaram que não entendiam o que se pedia, ao solicitar recomendações.

Recorde-se que a pergunta pedia para que o respondente dissesse que recomendação faria ao Sínodo, se porventura o Papa Francisco ou o Bispo local lhe pedissem uma contribuição para integrar nas recomendações ao Sínodo, sendo dada uma extensão de resposta até 500 caracteres.

 

Falta de informação nas paróquias

Fiéis numa missa numa igreja do Porto. Foto © João Lopes Cardoso/Diocese do Porto.

 

Uma boa dezena de leitores entendeu questionar ou fazer sugestões em torno do próprio Sínodo, queixando-se de falta de informação nas paróquias. Outros apelam aos párocos que “expliquem bem, em linguagem aberta, o que é um sínodo, incluindo nas homilias” e “que tarefas é que ele exige” (“fui às Paulinas, dizia alguém, e disseram-se que não receberam nada sobre o assunto”). Um outro pedia que do processo sinodal “não discuta a doutrina da Igreja”. Finalmente, houve quem pedisse que os padres prestem mais atenção ao que pede o Papa e o divulguem e uma última que, no processo “se escute com a mesma atenção os mais preparados intelectualmente e os simples, de modo a ser mais inclusivo”.

A grande maioria das respostas, no entanto, olham para aquilo que a Igreja precisa de inscrever na sua agenda sinodal, projetando o futuro. Ficaremos hoje por algumas notas gerais, indo, depois, a áreas mais específicas, tendo, no entanto, consciência da dificuldade de tocar todas as preocupações dos respondentes.

Assim, os pontos mais salientados e reiterados podem sintetizar-se nos seguintes:

– Um forte apelo à “desclericalização” da Igreja: frequentemente o poder e peso do clero – bispos e padres – são apontados como excessivos; que se traduzem numa separação indesejável entre os dois lados; que esta situação nega a sinodalidade das comunidades dos primeiros três séculos. Entre as propostas surge a escolha mais democrática – ou, pelo menos, transparente –  das lideranças, nomeadamente na escolha dos bispos ; reforço do papel e poder dos leigos e das comunidades locais.

– Desejo de regresso à figura das pequenas comunidades, eventualmente inspiradas nos movimentos de comunidades de base que frutificaram em várias partes do planeta. Isto para que se criem condições de uma vivência mais intensa e consciente da fé cristã. Nesta linha, as paróquias irão carecer de uma revisão profunda, assumindo na sua vida normal uma lógica sinodal, participada, assente na escuta. Os presbíteros assumirão o seu papel de pastores, de proximidade com as pessoas e os grupos, deixando tarefas de orientação e gestão das paróquias a grupos de leigos eleitos por toda a comunidade.

– O acolhimento e a escuta de todos deve ser a marca distintiva não apenas do Sínodo prestes a começar, mas da vida destas igrejas locais e também da orientação das dioceses. Acolher e fazer-se próxima de todos os que buscam e que andam à procura do seu caminho e para quem a Igreja se reveste de significado, em particular os mais pobres, os divorciados, recasados ou não, LGBTI, etc. A escuta deve ser incondicional, sem atitudes de julgamento ou condenação.

– O papel da mulher na vida da Igreja e nos ministérios, a todos os níveis, deve ser obeto de estudo e tomadas medidas que promovam a igualdade. As situações de discriminação devem ser analisadas e adotados caminhos de superação.

 

Destaque para a aposta na formação do clero e dos leigos

Papa Francisco em oração no Momento de Reflexão que deu início ao Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade. Foto ©Vatican Media 2021

 

Relativamente à formação, que surge nas respostas como uma das preocupações maiores, ela é apontada como estratégica relativamente ao clero e aos leigos e comunidades cristãs. A formação dos seminários deve merecer aos responsáveis eclesiais “o máximo cuidado” e orientar-se no sentido de uma igreja sinodal, de proximidade e de escuta. Alguém referia que “os padres novos parece que são mais antigos que os padres mais velhos”. Devem poder dispor de uma formação de qualidade não apenas teológica e pastoral, mas também nos planos “cívico, cultural e social”.

A formação é também requerida para os leigos, para dar mais consistência à vida eclesial, habilitando-os a assumir novas responsabilidades. Também eles precisam de desenvolver e aprofundar as exigências de uma igreja sinodal, até para se não tornarem, no interior da igreja, não ou mais clericalistas do que os clérigos. A formação bíblica surge referida por um significativo número de leitores, em sintonia com o sonho de uma Igreja mais próxima das exigências evangélicas.

Ainda neste capítulo da formação, os e as catequistas assumem um papel crucial. Sendo apontada a urgência de repensar a catequese, como muitos propõem, num sentido de menos transmissão formal de conteúdos e de aposta vias mais criativas e participativas, a formação de catequistas revela-se uma aposta que haverá que fazer.

Se é verdade que a grande maioria das respostas apontou no sentido de uma igreja mais “samaritana” e “franciscana”, menos ritualista e mais próxima e aberta às pessoas, também houve quem tivesse propostas que exprimem preocupações de outra natureza. Assim, houve quem advertisse, como se referiu atrás, para o risco de, ao lançar o processo sinodal, se vir a “discutir a doutrina da Igreja”; quem alertasse para o “excesso de tolerância e pouca exigência” que a Igreja tem demonstrado e que tem levado ao “abandono dos mais jovens”, logo na adolescência. Uma resposta demarcava-se de orientações que poderiam levar a “transformar o Vaticano numa ONG”.

 

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