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COP 30 Foto Kiara Worth
Os participantes na COP30 dividem-se entre a frustração e a esperança. Foto © Kiara Worth

COP30 no Brasil

Fósseis vencem, investimento climático estagna, transição justa aprofunda-se e planeta afunda-se

| 25/11/2025

Há dois anos, no Dubai, a Cimeira do Clima concluiu que era preciso uma transição energética que se afastasse do recurso aos combustíveis fósseis, mas a cimeira de Belém, a COP30, terminou no domingo 23 de novembro com um estrondoso silêncio sobre os combustíveis fósseis. Um “terrível fracasso”, exclamam ativistas do clima. Reconhecendo o fracasso, outros chamam a atenção para a criação de um mecanismo de transição justa que inclui critérios protetores dos direitos dos trabalhadores, da mulher, dos povos indígenas, dos negros e de minorias vulneráveis.

Fracasso? Sem dúvida! Leia-se o que a Amnistia Internacional afirma no seu comunicado divulgado no dia 24 de novembro: “A COP30 não permitiu consensualizar planos concretos para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e o fim da desflorestação, nem sobre um aumento do apoio [financeiro] para os países de menor rendimento”. Ao contrário das expectativas, “o documento final evitou qualquer menção aos combustíveis fósseis, o principal motor das alterações climáticas, nem conseguiu desenvolver, ou tão só reafirmar, o compromisso de ‘transição’ dos combustíveis fósseis acordado na COP28 [Dubai 2023]”.

“Sim, definitivamente, a Cimeira de Belém é um recuo em relação à COP28, no que dia respeito aos combustíveis fósseis”, admite ao 7MARGENS o cientista brasileiro Vinícius Ferreira da Paixão, professor visitante no Campion Hall, da Universidade de Oxford, onde também coordena a Escola de Verão de Ecologia Integral (IESS).

Mas isso não é tudo.

Vinícius revela que saiu de Belém do Pará com sentimentos contraditórios: “frustrado” com a ausência de qualquer menção aos combustíveis fósseis; “encantado” com “o progresso da ciência de qualidade em todos os domínios relacionados com as alterações climáticas, desde os mares aos polos gelados”; “feliz” com o facto de “as metas globais de adaptação passarem a incluir métricas humanas”; e ainda “orgulhoso e contente” com “a presença da sociedade civil em força, sobretudo as comunidades indígenas”, elas que conseguiram fazer mexer os critérios de medição da transição energética justa.

O cientista brasileiro, que é também animador do movimento Laudato si’, aponta como fonte de esperança muitos dos relatos que teve oportunidade de conhecer durante a Cimeira de Belém e que mostram, alguns com “dados científicos poderosos”, que é possível combater as alterações climáticas.

 

A Cimeira do negacionismo?

UN Climate Change Executive Secretary Simon Stiell at the COP30 opening Foto Kiara Worth

Simon Stiell, secretário executivo para as alterações climáticas da ONU, disse que “a COP30 mostrou que a cooperação climática está viva e forte”. Foto © Kiara Worth

Nenhum destes aspetos é valorizado por Genevieve Guenther, diretora fundadora da organização End Climate Silence no texto de opinião que assina em The Guardian de dia 24 de novembro. Contrariando a afirmação de Simon Stiell, secretário executivo para as alterações climáticas da ONU, de que “a COP30 mostrou que a cooperação climática está viva e forte, mantendo a humanidade na luta por um planeta habitável”, Guenther escreve: “Sejamos claros: a Cimeira foi um fracasso. O texto final, conhecido como Mutirão Global ou Esforço Coletivo Global, é, na sua essência, uma peça de negacionismo climático”.

Para ela, “parece claro que os petroestados, liderados pela Rússia e pela Arábia Saudita, lutaram contra a eliminação gradual dos combustíveis fósseis e venceram” e lembra: “Em 2023, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) revelou que o mundo já havia explorado, ou planeava explorar, combustíveis fósseis em quantidade excessiva para ser capaz de manter o aquecimento global em mais 2°C. Apontou para que ativos em combustíveis fósseis tinham de ser abandonados e não utilizados – se quiséssemos limitar o aumento do aquecimento global a 2°C. Mas o texto de decisão da COP30 ignora tudo isso. Aliás, nem sequer menciona os combustíveis fósseis”.

Enquanto Vinícius valoriza a vitória dos movimentos e organizações da sociedade civil visível na introdução das “métricas humanas” nas metas globais de adaptação, incluindo aí as questões de género (“as mulheres e outros grupos sociais são muito mais profundamente vítimas das alterações climáticas”), Guenther insiste: “no dia 21 de novembro, o número de países que apoiava o roteiro para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis subiu para 89. No entanto, qualquer menção a ele desapareceu da segunda versão preliminar divulgada no mesmo dia. Graças à COP30, a era dos combustíveis fósseis simplesmente continuará.”

Para além do prolongamento do reinado do mundo do carvão, da gasolina, fuel e gasóleo, a Amnistia Internacional sublinha outro “desastre”: “O financiamento climático é uma obrigação dos países de rendimentos elevados que os países de rendimentos mais baixos vêm exigindo há anos, especialmente para obter muito mais apoio que os ajude a adaptarem-se aos impactos devastadores atuais e futuros das alterações climáticas, pelos quais não são responsáveis.” Essas necessidades de financiamento estão estimadas em mais de 260 mil milhões de euros por ano.

Em Belém, ficou prometido que o financiamento global para adaptação às alterações climáticas será triplicado, chegando a 120 mil milhões de dólares. Mas o ano para cumprir essa promessa escorregou de 2030 para 2035. “A adaptação não pode esperar, especialmente porque o financiamento para os países em desenvolvimento está a diminuir enquanto os impactos climáticos se aceleram”, comentou, a este propósito, a presidente do Instituto Talanoa, Natalie Unterstell.

Outra das grandes apostas do Presidente Lula, o Fundo de Florestas Tropicais destinado a financiar a preservação ambiental em países tropicais, não reuniu mais de 6,5 mil milhões de euros de doações e compromissos. Muito menos do que o desejado.

Por fim, entre as vozes críticas, Ann Harrison, consultora de justiça climática da Amnistia Internacional, sublinhou que “a falta de negociações participativas, inclusivas e transparentes deixou, tanto a sociedade civil como os povos indígenas, que responderam em grande número ao apelo global do mutirão, fora do processo real de tomada de decisões”. É facto, mas a sua presença em grande número em Belém do Pará não foi irrelevante: os direitos dos povos indígenas figuram pela primeira vez nos documentos oficiais de uma Cimeira do Clima como referência para avaliar da justiça da transição energética em cada país e no mundo.

 

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