Fr. Agostinho da Cruz, professor da liberdade (e o seu último poema, quase “inédito”)

| 2 Mai 20

Da leitura dos poemas de Frei Agostinho da Cruz, nascido no dia 3 de Maio de 1540 (faz 480 anos), na vila de Ponte da Barca, nunca saímos de mãos vazias. Ao lê-lo, esquecemos que a sua linguagem tem mais de quatrocentos anos. Trata-se de um poeta cuja actualidade se torna patente a cada hora de convívio. Não se limitou a revestir de beleza artificial os lugares comuns do seu tempo. Confrontamo-nos com um ser que se expôs em cada linha, na sua biografia tumultuosa, cheia de “guerras” e de desilusões. Mostra-se como um ser que caminha pelas sendas da humildade, com árdua consciência de si e das suas infidelidades. É alguém que se sente subir até ao divino, encontrando o Criador em todas as criaturas.

Vivendo numa época de grande crise, escolheu o confinamento como via de purificação. Tendo uma vida cheia de sucessos à espera, beneficiando dos contactos estreitos que tinha com a mais alta nobreza e a Casa Real, escolheu a mais pobre das ordens religiosas para se fazer frade, não se conformando com o mundo. Aos 20/21 anos de idade, seguiu o exemplo de São Francisco de Assis e ingressou na Ordem dos Frades Menores, escolhendo o mais despojado dos conventos, em Sintra. Ali esteve 45 anos, remendado, descalço, quase solitário, reduzindo-se ao essencial. Teve, todavia, sempre um objectivo: fazer-se eremita na Arrábida e aí praticar o mais radical isolamento contemplativo.

A chegada da velhice deu-lhe tal prémio. Aos 65 anos rumou para a “serra das estrelas tão vizinha” e aí viveu numa choupana e, depois, numa pobre cela afastada, junto da Ermida da Memória, encontrando na “liberdade” o seu “melhor manjar” que consiste, segundo afirma, em “ter saudade de Deus”. Os primeiros sete anos foram difíceis; foi expulso pelo menos três vezes por quem o não entendia. Só nos últimos sete anos de vida teve paz na Arrábida. E aí ficou sepultado, na igreja do convento, na sequência da sua morte em Setúbal (14/3/1619).

Neste tempo rigoroso e exigente que vivemos, Frei Agostinho ensina-nos o que é essencial. Ao contrário do que possamos pensar, não é o convívio, não é o gozo do sucesso ou do consumo, nem é a riqueza acumulada ou exibida, não é viajar ou corrermos de um lado para o outro. Para o frade-poeta, a melhor parte está no encontro com a divindade em tudo quanto nos rodeia, na contemplação dos pequenos nadas que afinal são tudo, na valorização da sede como ânsia de beber a “água viva”. Saibamos aprender com ele, lendo-o e meditando-o.

Assinalando o dia do seu 480º. aniversário, publicamos um soneto de sua autoria. Não é inédito, embora tenha algumas pequenas variantes. A partir da leitura do seu manuscrito, até há pouco desconhecido, sabemos que foi o último poema que escreveu.

 

Estes são os últimos versos
que fez frei Agostinho em sua
vida porque daí a poucos dias
morreu

Ancorou-me a velhice no remanso
deste mar oceano largo e brando
onde não tenho já que andar remando
nem querer noutra parte milhor lanço.

Neste repouso meu em que me lanço
e me levanto sempre desejando
as forças se me vão acrescentando
pera alcançar um bem que não alcanso.

E tendo já no mar ferro lançado
a confiança minha não se altera
por mais que o bravo mar vejo alterado

antes mais firme e forte persevera
que quem só no seu Deos tem ancorado
do bem se logra já que ter espera.

 

Ruy Ventura é escritor, ensaísta e investigador, e organizador da Antologia Poética de Frei Agostinho da Cruz.

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