França: 3.000 crianças vítimas de abusos sexuais na Igreja desde 1950

| 20 Jun 20

Abuso de menores.

Ilustração: Direitos reservados

 

Ao longo das últimas sete décadas, em França, pelo menos 3.000 crianças foram vítimas de abusos sexuais no seio da Igreja Católica: uma média de mais de 40 casos por ano. Os crimes terão sido perpetrados por cerca de 1.500 religiosos, conforme revelou nesta última semana o presidente da Comissão Independente sobre o Abuso Sexual na Igreja (CIASE, na sigla francesa), o jurista Jean-Marc Sauvé.

Ao todo, desde junho de 2019 (altura em que foi feito um apelo a todas as pessoas que tivessem sido vítimas de abuso sexual na Igreja para que o denunciassem), foram recebidas mais de 5.000 queixas por esta comissão independente instituída pelos bispos. Destas, cerca de 13% chegaram de pessoas que já eram adultas no momento em que os alegados abusos terão ocorrido, tratando-se sobretudo de seminaristas e religiosas no noviciado, e na sua maioria mulheres, noticiou o jornal La Croix.

Numa conferência de imprensa com o objetivo de fazer um balanço do trabalho desenvolvido até agora pela CIASE, Sauvé explicou que “é a primeira vez” que se faz um levantamento deste género em França e disse estar “intimamente convencido de que há muitas mais vítimas”.

“Na Igreja, como em qualquer sociedade humana, as posições de poder e responsabilidade podem ser distorcidas e tornar-se abusivas”, lamentou o presidente da comissão de inquérito, citado pelo jornal francês. “Daí a importância da escolha dos superiores, de limitar os poderes e de estabelecer mecanismos reguladores internos”, sublinhou.

Sauvé assumiu considerar “muito perturbador o ponto ao qual a [Bíblia] pode ter sido manipulada para satisfazer impulsos sexuais”, e deu o exemplo dos conteúdos do Cântico dos Cânticos, que terão servido de pretexto para justificar alguns dos abusos.

As “teologias dos escolhidos” ou de uma “elite espiritual” na Igreja, à qual a lei não se aplicaria, e ainda uma “desvirtuação grosseira do culto mariano”, têm sido também associadas à prática de alguns dos abusos.

A comissão, criada em 2018 na sequência de vários escândalos por abuso sexual na Igreja francesa, identificou inúmeros casos de abuso através de uma análise feita aos arquivos das dioceses e das congregações religiosas. Devido à pandemia de covid-19, o prazo para recolha de testemunhos foi prolongado até final de outubro deste ano. As conclusões e recomendações finais deverão ser apresentadas entre setembro e outubro de 2021.

 

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