
O Papa na chegada ao Parque Tejo para a Missa de Envio dos jovens na JMJ Lisboa 2023. “Vale a pena caminhar e suar, suportar os obstáculos e enfrentar o cansaço, porque a recompensa final é maravilhosa”, diz Francisco na mensagem aos participantes da JMJ deste ano. Foto © João Matos/JMJ Lisboa 2023
Pode parecer um paradoxo, mas “a solução para o cansaço não é ficar parado para descansar”. Quem o diz é o Papa, na sua Mensagem para a 39ª Jornada Mundial da Juventude”, divulgada nesta terça-feira, 17 de setembro. Qual é, então, a solução? “Pôr-se a caminho e tornar-se peregrino da esperança”, diz Francisco, assegurando que “a esperança vence todo o cansaço, toda a crise e toda a ansiedade”.
O Papa reconhece que sentir cansaço é normal, e aponta que “nalguns casos, o que provoca ansiedade e cansaço interior são as pressões sociais para atingir determinados padrões de sucesso nos estudos, no trabalho e na vida pessoal”, e isso “produz tristeza” e o sentimento de que “nunca estamos à altura”. Mas, recorrendo à imagem do atleta no estádio que corre para conseguir a vitória (utilizada pelo apóstolo Paulo na sua Carta aos Coríntios), Francisco lembra os jovens da “força interior que é necessária para chegar à meta” numa competição desportiva. E explica: “a esperança é precisamente uma força nova, que Deus infunde em nós, que nos permite perseverar na corrida, que nos dá uma ‘visão de longo alcance’, que ultrapassa as dificuldades do presente e nos orienta para uma meta concreta: a comunhão com Deus e a plenitude da vida eterna”.
E assim, “se há uma bela meta, se a vida não se dirige para o vazio, se nada daquilo que sonho, projeto e realizo se perde, então vale a pena caminhar e suar, suportar os obstáculos e enfrentar o cansaço, porque a recompensa final é maravilhosa”, sublinha Francisco na sua mensagem para a JMJ deste ano, que se celebra nas igrejas particulares a 24 de novembro.
Os momentos de crise vão continuar a existir, reconhece ainda o Papa, mas “estes momentos de crise, porém, não são tempos perdidos ou inúteis”. Pelo contrário, “podem revelar-se importantes oportunidades de crescimento”.
Quanto ao descanso, também é necessário. Mas é preciso aprender “a descansar como Jesus e em Jesus”, defende. “Ele, que recomenda aos discípulos que repousem depois de regressarem da sua missão, reconhece a vossa necessidade de repouso do corpo, de tempo para o lazer, para gozar a companhia dos amigos, para o desporto e até para o sono. Mas há um repouso mais profundo, o repouso da alma, que muitos procuram e poucos encontram, e que só pode ser encontrado em Cristo”, pode ler-se na mensagem aos jovens.
Francisco deixa-lhes, depois, um convite: que se coloquem a caminho “não como meros turistas, mas como peregrinos”. “Isto é, que a vossa caminhada não seja apenas uma passagem pelos lugares da vida de forma superficial, sem captar a beleza do que encontrais, sem descobrir o sentido dos caminhos percorridos, captando só breves momentos, experiências fugazes registradas numa selfie. O turista faz isso. O peregrino, pelo contrário, mergulha de alma e coração nos lugares que encontra, fá-los falar, torna-os parte da sua busca de felicidade”, explica o Papa.
E, tendo em vista o Ano Jubilar, desafia os que possam a ir a Roma “em peregrinação para atravessar as Portas Santas”, lembrando como ao chegar à Basílica de São Pedro, em Roma, se atravessa a praça que está rodeada pela colunata criada pelo arquiteto e escultor Gian Lorenzo Bernini, que “no seu conjunto, parece um grande abraço”. “São os dois braços abertos da Igreja, nossa mãe, que acolhe todos os seus filhos”, assinala Francisco. “Neste próximo Ano Santo da Esperança, convido-vos a todos a experimentar o abraço do Deus misericordioso, a experimentar o seu perdão, a remissão de todas as nossas ‘dívidas interiores’, como era tradição nos jubileus bíblicos” conclui.
O papel dos jovens para que o Mediterrâneo “não seja mais um cemitério”
Também nesta terça-feira, o Papa enviou uma outra mensagem a 50 jovens oriundos de 25 países das margens do Mediterrâneo que já se “puseram a caminho”, mais concretamente àqueles que se encontram reunidos até domingo em Tirana, a capital da Albânia, no MED 24 – Encontros do Mediterrâneo.
Na mensagem em vídeo, que pode ser vista acima, Francisco pediu-lhes que coloquem “a voz dos que não são ouvidos no centro”, lembrando os mais pobres que “sofrem por serem vistos como um fardo ou um incómodo”, e também os outros jovens que, “muitas vezes”, têm de deixar o seu país à procura de um futuro melhor.
Incentivando-os a “ler os sinais dos tempos” juntos, e a compreender a diversidade das tradições de cada um “como uma riqueza dada por Deus”, o Papa assinalou que “unidade não é uniformidade”. “A diversidade das nossas identidades culturais e religiosas é uma dádiva de Deus. Permitam-se crescer na estima mútua, como testemunharam os vossos antepassados”, pediu.
“Somos todos peregrinos da esperança, caminhando em busca da verdade e vivendo a nossa fé construindo a Paz. Deus ama todos os homens e não faz distinção entre nós”, lembrou ainda o Papa, para deixar um apelo: “Cuidai de cada um. Não se trata de números, mas de pessoas, de rostos, cuja dignidade deve ser promovida e protegida. Renunciemos à cultura do medo para abrir a porta do acolhimento e da amizade”.
Francisco terminou a mensagem a confiar os jovens “a Maria, Mãe do Bom Conselho”, e pediu que aprendam do seu “Coração Imaculado a ser incansáveis peregrinos da esperança e a seguir os sinais de Deus”, para que o Mediterrâneo reencontre “o seu rosto mais belo”, que é o da fraternidade e da paz, e “não seja mais um cemitério”.









