
Papa Francisco discursa perante a presidente da Eslováquia. Foto © Vatican Media
A denúncia da invocação do nome de Deus para atos desumanos; o alerta para o facto de o anti-semitismo continuar à espreita na Europa e o apelo a uma educação para a fraternidade são os aspetos mais salientes dos dois primeiros dias da viagem apostólica do Papa Francisco, que incluiu a escala de sete horas para encerrar o Congresso Eucarístico Internacional em Budapeste (Hungria) e, desde domingo ao final do dia, a visita pastoral à Eslováquia.
Dirigindo-se nesta segunda-feira, 13, à comunidade judaica na praça Rybné Námestie, em Bratislava, Francisco evocou, em primeiro lugar, a contiguidade da sinagoga com a catedral da Coroação, que existiu durante séculos. Ela “exprimia a coexistência pacífica das duas comunidades (cristã e judaica), símbolo raro e altamente evocativo, estupendo sinal de unidade em nome do Deus dos nossos pais”.
Com a Segunda Guerra Mundial e a “loucura do ódio” dos nazis a ela associado, “o nome de Deus foi desonrado”: mais de cem mil judeus eslovacos foram mortos. Foi desonrado, acrescentou o Papa, “porque a pior blasfémia que lhe pode ser feita é usá-lo para os seus próprios fins, em vez de respeitar e amar os outros”. E prosseguiu no mesmo tom contundente:
“Aqui, perante a história do povo judeu, marcada por esta afronta trágica e indizível, temos vergonha de o admitir: quantas vezes o nome inefável do Altíssimo foi usado para atos indizíveis de desumanidade! Quantos opressores declararam: ‘Deus está connosco’; mas eram eles que não estavam com Deus.”
Embora tivesse acabado de ouvir o testemunho de uma sobrevivente e de uma freira ursulina, evocando os “Justos” que salvaram os judeus durante a perseguição nazi, o Papa quis fazer sua esta memória da Shoah: “No Memorial está escrito em hebraico Zachor (lembra-te!). A memória não pode e não deve ceder ao esquecimento, porque não pode haver um alvorecer duradouro da fraternidade sem antes compartilhar e dissipar as trevas da noite.”
Francisco sublinhou “a vontade de perseverar no caminho da reconciliação e da amizade”, observando: “Aqui, nesta terra eslovaca, uma terra de encontro entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul, que a família dos filhos de Israel continue a cultivar esta vocação [de encontro] e seja um sinal de bênção para todas as famílias da terra.”
Alertou, depois, para a necessária vigilância: “Ainda hoje não faltam ídolos vãos e falsos que desonram o nome do Altíssimo. São os do poder e do dinheiro que prevalecem sobre a dignidade humana, da indiferença que desvia o olhar, das manipulações que instrumentalizam a religião fazendo dela uma questão de supremacia ou reduzindo-a à insignificância. Ainda é o esquecimento do passado, a ignorância que justifica tudo, raiva e ódio. Unamo-nos – repito – na condenação de todas as violências, de todas as formas de antissemitismo e no nosso empenho para que a imagem de Deus, em cada criatura humana, não seja profanada.”
No domingo, 12, ainda em Budapeste, num encontro com responsáveis cristãos e judeus húngaros, o Papa apelara a que “dos lábios dos homens de Deus saiam apenas mensagens de abertura e de paz, não de divisão”, pois “num mundo dilacerado por tantos conflitos, este é o melhor testemunho que deve oferecer quem recebeu a graça de conhecer o Deus da aliança e da paz”.
Repetiu o aviso de que o antissemitismo anda por aí, na Europa e noutras paragens. “Este é um fusível que não deve queimar. E a melhor forma de neutralizá-lo é trabalharmos juntos, positivamente, e promover a fraternidade”, disse.
E foi nesse contexto que fez a proposta: “Devemos empenhar-nos em promover juntos uma educação para a fraternidade, a fim de que não prevaleçam os surtos de ódio que a querem destruir.”










