
Dante no exílio (autor desconhecido). Palácio Pitti, Florença.
“Melhor do que muitos outros” Dante “soube exprimir, com a beleza da poesia, a profundidade do mistério de Deus e do amor”. A Divina Comédia é “expressão sublime do génio humano”, “fruto duma nova e profunda inspiração” escreve o Papa Francisco na carta apostólica Esplendor da Luz Eterna, que dedica ao poeta florentino na passagem do 700º aniversário da sua morte. A Carta foi publicada nesta quinta-feira, 25 de março, festa litúrgica da Anunciação do Senhor, na Igreja Católica, que coincide com a data do falecimento do poeta.
Meditando sobre a vida de Dante Alighieri [1265-1321] – o “fundador da linguagem literária italiana”, segundo Vasco Graça Moura, que traduziu a Divina Comédia – escreve Francisco: “relendo a sua vida sobretudo à luz da fé, Dante descobre também a vocação e a missão que lhe foram confiadas, de modo que, paradoxalmente, de homem aparentemente falido e desiludido, pecador e desanimado, transforma-se em profeta de esperança” porque “é capaz de ler o coração humano em profundidade; e em todos, mesmo nas figuras mais abjetas” consegue vislumbrar o “desejo de alcançar alguma felicidade, uma plenitude de vida.”
É esse desejo que possibilita “um caminho que não é ilusório nem utópico, mas realista e possível, onde todos podem entrar, porque a misericórdia de Deus oferece sempre a possibilidade de mudar, converter-se, encontrar-se a si mesmo e encontrar a via para a felicidade” afirma Francisco na sua leitura da Divina Comédia.
O prodigioso intercâmbio
Para o Papa, “o mistério da Encarnação, que hoje celebramos, é o verdadeiro centro inspirador e o núcleo essencial de todo o poema. Nele realiza-se o que os Padres da Igreja chamavam «divinização» – o prodigioso intercâmbio, pelo qual, ao mesmo tempo que Deus entra na nossa história fazendo-Se carne, o ser humano, com a sua carne, pode entrar na realidade divina, simbolizada pela rosa dos bem-aventurados.”
Esta divinização do humano, não diminui em nada a liberdade humana, antes lhe confere um horizonte. O poeta, segundo Francisco, “faz-se paladino da dignidade de todo o ser humano e da liberdade como condição fundamental tanto das opções de vida como da própria fé. O destino eterno do homem (…) depende das suas escolhas, da sua liberdade (…) o maior dom de Deus ao homem, para que possa alcançar a meta última, é precisamente a liberdade”.
A Carta – que se estende por nove pontos e pouco mais de 7.400 palavras – refere ainda a importância que a Divina Comédia confere à Virgem Maria e a São Francisco “esposo da senhora Pobreza” para chegar à atualidade: “Neste momento histórico particular, marcado por muitas sombras, por situações que degradam a humanidade, por falta de confiança e de perspetivas para o futuro, a figura de Dante, profeta de esperança e testemunha do desejo humano de felicidade, pode ainda dar-nos palavras e exemplos que estimulam o nosso caminho”.
Em língua portuguesa a tradução mais divulgada da Divina Comédia é da autoria de Vasco Graça Moura numa edição bilíngue que a Bertrand editou em 1995 e que já conheceu oito reedições. Por essa tradução, em conjunto com a de Vita Nuova de Dante e obras de Francesco Petrarca, o escritor português, que morreu em 2014, foi galardoado com o Prémio de Tradução 2007 do Ministério da Cultura Italiano.










