Francisco e o diálogo com o islão: “São decisões tomadas em oração. Não são caprichos.” (E o Líbano à vista…)

| 9 Mar 21

O Presidente Biden saudou a “visita histórica” do Papa ao Iraque, que foi “um símbolo de esperança para o mundo inteiro.” Francisco, no regresso a Roma, criticou quem o acusa de raiar a heresia com a aproximação ao islão, disse que pensa numa viagem ao Líbano e confirmou que irá à Hungria – “não ao país, mas à missa” de conclusão do congresso eucarístico…

Papa Francisco no voo de regresso do Iraque para Roma. Foto captada de vídeo na conta Twitter de Javier Martínez-Brocal (@javierMbrocal)

 

“São riscos, mas estas decisões são tomadas em oração, em diálogo, pedindo conselho, em reflexão, não são caprichos. E é a linha que o Concílio [Vaticano II] nos ensinou”, disse o Papa Francisco aos jornalistas, sobre o diálogo com o islão por ele encetado.

As declarações foram proferidas durante o voo que o trouxe de regresso do Iraque a Roma, nesta segunda-feira, 8 de Março, depois de uma viagem por muitos considerada histórica e que foi já saudada, também, por uma declaração do Presidente Joe Biden, dos EUA.

O Papa garantiu, aliás, que a sua aproximação ao islão não se ficará pela Declaração sobre a Fraternidade Humana, assinada há dois anos com o xeque Al-Tayyeb, do Egipto, líder do islão sunita, ou pelo encontro, sábado passado, com o ayatollah Ali al-Sistani, líder espiritual dos muçulmanos xiitas.

Haverá “novos passos”, disse, criticando os que o acusam de, com essas iniciativas, estar a um passo da heresia. “Há alguns críticos que dizem que o Papa não é corajoso, é um inconsciente, que está dando passos contra a doutrina católica, que está a um passo da heresia”.

Pelo contrário: a fraternidade “é importante” e é um “caminho cultural” que surge como consequência da “revelação de Jesus, [d]o amor, [d]a caridade”. “Como homens, somos todos irmãos e temos de seguir em frente com as outras religiões, não?”, disse, em forma de pergunta retórica. “Se és humano, filho de Deus, és meu irmão. Ponto.”

O Papa referiu-se ainda ao encontro com al-Sistani, que classificou como “uma peregrinação de fé e de penitência”. “É um homem sábio, um homem de Deus.” E acrescentou: “Senti-me muito honrado” por ser recebido. “No momento dos cumprimentos, ele nunca se levanta, mas levantou-se para me cumprimentar, por duas vezes. É um homem humilde e sábio, fez-me bem este encontro.”

A este propósito, e respondendo a uma pergunta de um jornalista libanês da Sky News, o Papa acrescentou que uma viagem ao Líbano está também no seu horizonte: “O patriarca [católico maronita de Antioquia, Béchara Pierre] Raï pediu-me que fizesse uma paragem em Beirute nesta viagem, mas pareceu-me muito pouco. Uma migalha diante de um problema, de um país que sofre como o Líbano. Escrevi-lhe uma carta, fiz uma promessa de fazer uma viagem”, disse ele, de acordo com a transcrição da conversa com os jornalistas, que pode ser lida no portal do Vaticano.

 

Biden: “Admiro o Papa pelo seu empenho em promover os laços comuns da nossa humanidade”

Numa declaração publicada também nesta segunda-feira, o Presidente dos Estados Unidos, saudou igualmente a insistência do Papa no diálogo inter-religioso: “A visita do Papa Francisco foi uma primeira visita histórica e bem-vinda ao país. Enviou uma mensagem importante, como o próprio disse, que ‘a fraternidade é mais duradoura que o fratricídio, que a esperança é mais poderosa que a morte, que a paz é mais poderosa que a guerra’”, escreve Biden.

O Presidente dos EUA, que se assume como católico, refere também a dimensão bíblica e inter-religiosa que a viagem de Francisco significou: “Ver o Papa Francisco visitar antigos locais religiosos, incluindo o local de nascimento bíblico de Abraão, passar tempo com o Grande Ayatollah Ali al-Sistani em Najaf, e rezar em Mossul – uma cidade que há apenas alguns anos suportou a devastação e a intolerância de um grupo como o Daesh – é um símbolo de esperança para o mundo inteiro.”

Joe Biden refere ainda a “diversidade religiosa e étnica” do Iraque, “lar de uma das mais antigas e diversificadas comunidades cristãs do mundo” e declara que continua “a admirar o Papa Francisco pelo seu empenho em promover a tolerância religiosa, os laços comuns da nossa humanidade, e o entendimento inter-religioso”.

Na conferência de imprensa a bordo do avião, o Papa referiu-se também à forma como nasceu a ideia da viagem ao Iraque: vários políticos e diplomatas fizeram o pedido, mas foi sobretudo o livro de Nadia Murad a relatar os abusos que a Prémio Nobel da Paz 2018 sofreu às mãos do Daesh, bem como o encontro que teve com ela em 2017, no Vaticano, que o fez decidir. “Quando ouvi a Nadia, que veio contar-me coisas terríveis… Todas essas coisas levaram à decisão.”

Francisco confessou que estes meses se sentiu a viver numa “prisão” e que a viagem foi um “reviver”, até porque um padre se torna padre para estar “ao serviço do povo de Deus, não por carreirismo, não por dinheiro”. Entretanto, pensa retomar as audiências públicas “assim que possível”, mas para já acata “as regras das autoridades”.

Outra confissão foi sobre o cansaço desta viagem: sete mil quilómetros em quatro dias. Entretanto, adiantou que, em Setembro próximo, irá à Hungria, à missa de conclusão do Congresso Eucarístico Internacional. “Não uma visita ao país, à missa”, fez questão de corrigir, adivinhando-se implicitamente o desagrado que lhe provoca o governo populista de Viktor Orban, que tem assumido políticas contra a emigração e os refugiados e de controlo da imprensa e de várias liberdades públicas. Já a Argentina ainda não tem data (esteve para acontecer em 2017) mas não há qualquer “patriafobia”.

Na mesma ocasião, Francisco falou ainda do Dia Internacional da Mulher, que se assinalava nesta segunda-feira, pedindo o reconhecimento da sua dignidade e criticando o tráfico ou as violências a que muitas mulheres são sujeitas.

Enaltecendo a “coragem” das mulheres, disse: “São elas que fazem avançar a história e isto não é um exagero.”

Com a conclusão desta que foi a sua 33ª viagem internacional, o Papa visitou já um total de 50 países e territórios, em alguns dos casos visitando apenas determinadas cidades e localidades – por exemplo, Estrasburgo, para ir às sedes do Parlamento Europeu e Conselho da Europa, ou a ilha de Lesbos, na Grécia, para visitar um campo de refugiados, numa lista registada pela Ecclesia.

 

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