Francisco e os “Guerreiros do Rosário”

| 12 Out 21

Papa Francisco. Rosário

O Papa Francisco a rezar o Rosário numa ligação com vários santuários marianos do mundo, em maio de 2020. Foto © Vatican News

 

São de todos conhecidas as reformas que corajosamente o Papa Francisco tem procurado levar a cabo ao longo do seu pontificado. Muitas delas não serão assim tão inéditas, indo apenas no sentido de se implementar e consolidar o que foi decidido no Concílio Vaticano II. Sabendo-se que durante os pontificados de João Paulo II e de Bento XVI houvera um certo afrouxamento na implementação dessas reformas, a tarefa que Francisco tem tentado levar a cabo não tem sido, no entanto, nada fácil dada a resistência de alguns dos sectores mais conservadores da Igreja.

Num encontro do Papa com jesuítas na sua recente viagem à Eslováquia (12-15 de setembro), à questão colocada por um deles sobre como estava, Francisco respondeu “Ainda estou vivo, apesar de algumas pessoas quererem que eu morra”. O Papa acrescentou ainda: “Eu pessoalmente mereço ataques e insultos porque sou um pecador, mas a Igreja não os merece. Eles são obra do diabo. Também já disse isto a alguns deles.”[i]. Mais tarde, soube-se que se referia a ataques pessoais proferidos contra ele através do maior canal de televisão católico do mundo, o Eternal Word Television Network (EWTN) e um dos bastiões dos católicos mais conservadores. Temos assim de facto assistido ultimamente a persistentes ataques contra o Papa, a quem acusam de querer restringir a missa tridentina, de propor uma nova eclesiologia que abre mão a uma Igreja mais inclusiva, de abrir as portas ao diálogo com outras religiões, de aceitar o princípio da liberdade religiosa, de destruir a autoridade papal ao propor modelos de colegialidade e abrir as portas a uma maior participação das mulheres na vida da Igreja entre outras.

Entre os que mais se têm debatido contra o espírito progressista do Papa, encontra-se o conhecido cardeal norte-americano Raymond Burke, símbolo, aliás, na opinião de muitos, de uma certa visão ultrapassada e fracassada da Igreja. Burke é um dos mais acérrimos defensores do catolicismo conservador pré-conciliar, insistindo em que a Igreja tem se apegar ao tradicionalismo. Muito recentemente tem vindo a promover a Operation Storm Heaven (Operação Tempestade do Céu) a fim de criar um exército de um milhão de soldados de Cristo armados com um rosário especial, os Warrior’s Rosary (Guerreiros do Rosário) liderados por ele, obviamente[ii]. Estas novas bazucas espirituais destes guerreiros fazem certamente alusão à citação atribuída ao famoso Papa Pio X que lutou pela supremacia papal e contra o liberalismo teológico: “O Santo Rosário é a grande arma do nosso tempo. É através do Santo Rosário que obteremos misericórdia, deteremos o mal, converteremos nações e traremos paz! (…) O Rosário é a mais bela e a mais rica em graças de todas as orações; é a oração que mais toca o Coração da Mãe de Deus.”

O Papa Pio V atribuiu á oração do Rosário, aliás um dos símbolos mais ligados à devoção mariana, a vitória dos cristãos na Batalha de Lepanto contra o Império Otomano em 1571. Não deixa de ser tentador traçar um paralelismo entre esse exército que derrotou os infiéis e aquele que o cardeal Burke quer constituir. Esses pecadores, que muitos desses cristãos conservadores temem – entre eles, os progressistas e liberais como o (anti-)Papa Francisco – devem ser levados à presença da Mãe Santíssima, a fim de que ela os converta ao bom caminho, tal como era antes do Concílio Vaticano II. Nada é mais evidente do que o confronto, silencioso por vezes, entre essa ala conservadora e o próprio Papa Francisco.

Este Papa, que entende que a misericórdia deve ser o núcleo da mensagem do Evangelho, referindo-se aos seus detratores, afirmou certa vez que “algumas destas pessoas são ‘restauracionistas’ no sentido em que parecem oferecer uma forma de segurança, mas em vez disso ‘dão apenas rigidez’. Outros, são ‘pelagianos’ na medida em que querem voltar ao ascetismo e à penitência, e parecem ‘como soldados prontos a fazer tudo pela defesa da fé e da moral’, mas depois ‘surge algum escândalo’ em torno do fundador. Sabemos tudo isto, certo?’ mas ‘Jesus tem um estilo diferente’”[iii]

Um dos grandes cardeais do século passado, Carlo Maria Martini, em entrevista depois publicada com o título Diálogos Noturnos em Jerusalém, já afirmava que “a Igreja está cansada, na Europa e na América. A nossa cultura envelheceu, as nossas igrejas são grandes demais, as nossas casas religiosas estão vazias, a burocracia da Igreja aumentou, os nossos ritos e os nossos paramentos são pomposos. Estas coisas expressam o que somos hoje. A Igreja ficou 200 anos para trás.”[iv]. Colocado no meio de uma guerra de rosários, Francisco, que deseja levar a Igreja ao sabor dos ventos do Espírito, uma Igreja viva e renovada ao estilo do Seu Mestre, necessita das orações de todos nós.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

[i] https://www.americamagazine.org/faith/2021/09/21/pope-francis-ewtn-critics-241472
[ii] https://www.catholicaction.org/take_heaven_by_storm
[iii] https://angelusnews.com/faith/this-is-how-pope-francis-keeps-his-peace-amid-vatican-corruption/
[iv] https://www.diesirae.pt/2020/10/carta-aberta-de-mons-carlo-maria-vigano.html

 

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