Entrevista de vida (conclusão)

Francisco Fanhais: “Que um Deus reme connosco / na viagem”

| 20 Mai 2023

Francisco Fanhais. Foto © Maria do Sameiro Pedro

Francisco Fanhais. Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

Terceira parte da entrevista de vida a Francisco Fanhais, cuja primeira parte foi publicada no passado sábado, 13. 

Nesta última fase da conversa afloram as memórias familiares, sempre a fraternidade, a missão de partilhar memórias e a denúncia de iniquidades. E também se conta como a PIDE se infiltrava entre o clero.

Francisco Fanhais foi padre, acabando suspenso, antes do 25 de Abril de 1974, por ter participado na celebração da missa em que várias pessoas celebraram o casamento de José Felicidade Alves, outro padre que o cardeal Gonçalves Cerejeira tinha suspendido do ministério. Mas além das posições políticas e religiosas que lhe valeram várias condenações e o exílio, Fanhais ficou também conhecido pelas canções que gravou e cantou – entre as quais Canção da Cidade NovaVemos Ouvimos e Lemos ou Porque (os outros se mascaram mas tu não) – canções recordadas na primeira parte da entrevista. Hoje, Fanhais preside à Associação José Afonso, sobre quem incidiu a segunda parte da entrevista. 

 

Francisco Fanhais. Foto © Maria do Sameiro Pedro

Francisco Fanhais. Foto © Maria do Sameiro Pedro

7M – Ao longo desta nossa conversa, muito nos tem falado sobre fraternidade e diálogo, quer a nível pessoal quer a nível social. Reconhece o privilégio de ser contemporâneo do Papa Francisco, que nos fala em conversão social, em opção preferencial pelos mais pobres, dando um vigor novo à ideia de bem comum? No fundo, pondo na agenda e na primeira linha, valores que deveriam ser caros à Igreja.

FRANCISCO FANHAIS – São os que estão na linha da frente do Evangelho e são os que deviam estar na linha da frente da convivência em sociedade, neste mundo, que às vezes parece que, quando não, dá fracasso, mas quem tem um pé na primavera não pode desistir de o querer transformar.

Para além de tudo aquilo em que ele vai mesmo contra a tradição mais forte; mas ele não tem medo de dizer “não, não”. A ordenação das mulheres é uma coisa disciplinar; o fim do celibato, é uma coisa disciplinar. Ele trata dessas coisas, dando-lhes a relativa importância que elas possam ter, não as tomando como verdades absolutas, nem definitivas. Mas isso incomoda muita gente, agarrada aos seus privilégios, muitas vezes, agarrada às tradições, agarradas a uma teologia que é facilmente interpretada como ultrapassada. É um homem que não tem medo de arriscar. E é um homem profundíssimo naquilo que diz. É um homem muito, muito profundo, até na simplicidade com que apresenta as razões.

7M – É difícil chegar a essa simplicidade.

Muito, muito difícil, sim. É um franciscano também, na maneira de lidar com os outros, na maneira como se aproxima das pessoas, como se está nas tintas para ser espampanante. É um homem que eu acho que um mês depois de morrer vai ser santificado. Assim venha o sucessor. Assim venha outro que saiba… Mas ele até nisso é inteligente. O conclave para eleição do Papa é formado por cento e vinte cardeais, muitos deles já são cardeais nomeados por ele. Portanto, é uma pessoa que está, digamos até certo ponto, a assegurar o seu futuro. 

7M – Salienta-se a representatividade de tantas áreas geográficas do mundo que não estavam representadas.

Sim, sim, de todo o mundo. E, sendo estes todos nomeados por ele, penso que não os há de ter escolhido em vão, há de ter escolhido em função do próprio dinamismo que eles podiam dar às comunidades locais.  Portanto, até certo ponto, é para termos a garantia de que, para quem vier a seguir, é muito fácil percorrer o caminho e a porta que ele abriu.

Ele abriu portas, ele escancarou portas, mas sem se vangloriar nada. É uma figura espantosa. E foi engraçado: em casa fui acompanhando notícias do conclave na televisão, como toda a gente, dizia volta e meia, “ainda não é desta”. Até que às tantas viu-se o fumo branco. Depois dizia, “daqui a pouco vem aí um cardeal mais velhote dizer que já temos Papa. E eu – que engraçado – a pensar: “e se ele se chamasse Francisco?”. Então, não é que o homem diz “Habemus papam cujo nome não sei quê é Francisco?” Não é possível. [ri] 

7M – Partilham os dois esse nome, é verdade.

É. O que é um privilégio para o Papa. [ri]

7M – Quando veio de França, a seguir ao 25 de abril, participou naquelas missões que existiram pelo país inteiro?

Fui sim, sim. Foi o Zeca [Afonso] que me telefonou uma vez e disse-me: “Olha, vou-me oferecer para a Quinta Divisão, que era quem tratava das campanhas do MFA, e vou-me oferecer na Grão-Pará.” A sede ficava na rua Castilho, salvo erro. Fomo-nos lá oferecer à Quinta Divisão, que era onde funcionava esse departamento. E lá fomos, para o Nordeste, lá para cima, para Bragança, estivemos lá quinze dias. Gostei muito, gostei muito.

O Zeca e eu uma vez fomos a uma aldeia, Aldeia da Ribeira, onde as pessoas nos falavam de um rapaz que tinha sido preso pela PIDE, que foi lá e prendeu-o. Contaram-nos os pormenores todos e nós ouvimos aquilo tudo. E o Zeca disse “Eh pá, se calhar isto dava uma música”. Depois chegámos ao sítio onde estávamos a dormir e o Zeca começou a escrever a escrever, a escrever,… E no outro dia ou dois dias depois, o Zeca fez uma música para o poema, para a narrativa, que eles nos tinham contado. Então, ele foi lá, pegou na viola e começou a cantar. [cantarola] E ele cantou isso às pessoas. “Oh, mas isto é a história que a gente lhe contou!” Em terras de Trás-os-Montes. Foi um momento muito gratificante, de proximidade.

 

O Zeca era isto sempre. Ele tem um poema escrito em 1982, já ele estava bastante doente. Foi um poema escrito em Bucareste. Eu acho que eu vi esse poema escrito por ele, num papel, não sei se papel de jornal, o papel estava um bocado amarrotado, com uma letra um bocado insegura, mas vem publicado de resto num livro que saiu recentemente que se chama Obra Poética.

Obra Poética de José Afonso, publicada em 2022, numa cuidada edição da Relógio d’Água, com organização, prefácio e notas de Jorge Abegão e ilustração de Henrique Cayatte. A foto da capa é da autoria de Francisco Fanhais.

Obra Poética de José Afonso, publicada em 2022, numa cuidada edição da Relógio d’Água, com organização, prefácio e notas de Jorge Abegão e ilustração de Henrique Cayatte. A foto da capa é da autoria de Francisco Fanhais.

O verso é “Que Deus reme connosco / na viagem”. E é sempre que haja qualquer coisa de muito forte, de muito superior a nós todos, que nos possa irmanar e que nos possa acompanhar nesta viagem. Para o Zeca isso seria a fraternidade, a solidariedade entre todos, a amizade entre as pessoas, estar na vida de maneira diferente. Isto imagino eu, só se pode divagar a respeito disso. Se não temos possibilidade de falar com o próprio, deixamos as pistas para imaginarmos o que quisermos com este verso que é muito bonito, é uma maravilha.

7M – Nunca estamos dispensados de interpretar?

Qualquer pessoa pode entender esse Deus de que ele fala conforme quiser. O que é que pode mover as pessoas nesta viagem que estamos aqui a fazer? Pode ser o ódio, pode ser o domínio, mas pode ser a fraternidade, pode ser a solidariedade entre todos, pode ser o amor entre todos, pode ser a paz, podem ser esses valores. Que um Deus qualquer que ele seja, mas que reme connosco, nesta viagem que estamos a fazer — ele imagina que estamos todos no mesmo barco — e então que um Deus reme connosco na viagem. A síntese, que a mim me encanta, vinda de quem vem, conhecendo-o…

Quando ele morreu telefona-me o filho Zé: “Chico, o Zeca morreu”. Eu fui a correr para o Hospital de Setúbal. Quando lá cheguei, perguntei onde é que ele estava:  estava estendido numa mesa de pedra na morgue do Hospital. Estava só um homenzito ali ao pé a tratar das coisas. E eu diria que foi das meias horas mais específicas que eu tive na minha vida. Foi ter estado meia hora ali assim, ao pé dele, morto. Não estava mais ninguém, só eu e o homem que estava a tratar das coisas. Estive ali meia hora, a olhar para ele e a reviver a nossa vida, o nosso passado. Foi uma solidariedade e uma cumplicidade muito fortes.

7M – Atos generosos.

Não tem limites, não tem limites. E o último espetáculo que ele deu no Coliseu, em 83 – Jesus, que memória espantosa!… Coliseu à cunha, cheio. O Eanes não estava lá, estava a mulher do Eanes, a Dona Manuela. Estava no mesmo camarote onde estava a Lurdes Pintassilgo. E a Teresa Santa Clara Gomes, também do Graal. Quando Zeca canta “Águas das fontes calai, ó ribeiras chorai, que eu não volto a cantar” há assim como que um soluço coletivo, no Coliseu. Memórias que nunca mais passam. Eu tenho lá em minha casa o dossier por onde ele seguiu as músicas que fui eu que organizei…

7M – Nunca se cansa de falar do Zeca…

Não me canso de falar dele porque, de facto… Para quem conviveu com ele, é evidente que deixa o exemplo de um homem que pôs toda a sua arte ao serviço da cidadania. Estou aqui para fazer o que tenho de fazer. Sou cidadão de corpo inteiro. O exemplo dele deu muitos frutos a muita gente, para quem ele é uma figura importante. 

Fanhais: "Para quem conviveu com Zeca, é evidente que deixa o exemplo de um homem que pôs toda a sua arte ao serviço da cidadania." Na imagem, Zeca Afonso a escrever. Foto © Francisco Fanhais, cedida pelo autor.

Fanhais: “Para quem conviveu com Zeca, é evidente que deixa o exemplo de um homem que pôs toda a sua arte ao serviço da cidadania.” Na imagem, Zeca Afonso a escrever. Foto © Francisco Fanhais, cedida pelo autor.

 

7M – Como é que uma história de vida como a sua se conta, primeiro aos seus pais, agora aos seus filhos, aos seus netos? 

Eu não falo muito destes meus problemas, desta minha situação. Também os meus filhos não me perguntam muito. Se me perguntarem, eu falo. Mas percebo que eles estão numa outra onda, não é coisa que lhes interesse… Eles não são batizados, eu não os batizei. E, portanto, não sei se… Como não está muito, digamos, no universo de preocupações deles…

Eles sabem, efetivamente, que eu fui padre, tudo isso, mas quanto a quererem saber mais coisas, não têm essa preocupação. Não me coíbo de lhes dizer, caso venha a propósito, caso me façam alguma pergunta, alguma alusão, mas estar a dizer “meus meninos, agora vou falar-vos da minha vida, foi assim, assim, assim, percebem?…”

7M – Não é algo de que sinta necessidade.

Cada passo que dei foi um passo em sequência do anterior. Pode perguntar se foi duro… Eu sabia que estava inserido no grupo. Não estava sozinho nesta luta, neste dinamismo dentro da Igreja, por contestar as atitudes da Igreja oficial, não estava sozinho na denúncia da Guerra Colonial. Desse ponto de vista, estava com os meus amigos cantores. Portanto, eu sempre estive, de facto, tanto do ponto de vista religioso, digamos assim, como do ponto de vista político, inserido em grupos nos quais eu me sentia bem e que me acompanhavam e com os quais eu me identificava. Isso é uma força muito grande.

7M – Como se essa relação com o próximo não tivesse nunca deixado de ser uma prioridade?

Nunca, mas nunca, nunca, nunca. 

Foi isso que eu senti quando fui também para a ESE [Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Beja, onde se licenciou como professor de Educação Musical]. Quando eu entrei na sala, disseram-me mais tarde os meus colegas o que pensaram: “a gente via entrar aquele cota, pá, mas o que é que este gajo veio para aqui fazer?” E depois sempre respondi: “eu sou o vosso colega.”

 

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Francisco Fanhais e Pepe (José António) Feu a cantar a Cantata da Paz, de Sophia de Mello Breyner, na sessão evocativa dos 50 anos da vigília pela paz na Capela do Rato (30-31 Dezembro 1972). Foto © Cláudia Teixeira/Comissão Comemorativa 50 Anos 25 Abril.

 

7M – Foi uma notória relação de companheirismo.

Eu prefiro mil vezes fazer pontes a recuar um passo nas relações com as outras pessoas. Se tiver de ser, é. Mas são pequenos passos, porque eu sinto-me bem assim. Eu sinto-me bem a criar pontes, digamos assim. Acho que é um bocado natural. E tenho uma certa pena daquelas pessoas que sistematicamente criam obstáculos nas suas relações com os outros. Quando muitas vezes bastava uma palavrinha qualquer para desbloquear uma situação, desfazer um gelo, para que as coisas retomassem outro caminho. 

Eu tenho pena de só agora ter encontrado o poema, do Fernando Assis Pacheco. Porque, de facto, acho que se eu tivesse conhecido esse poema antes, eu diria que a minha vida toda de relação com as outras pessoas é sempre uma tentativa de ter um pé na primavera. Por mais chatices, por mais complicações que a vida me possa trazer, por mais complicações que os outros amigos possam ter, com os quais eu me identifico, com os quais eu sofro, vamos para a frente. Vamos pôr qualquer coisa de mais sólido, de mais esperançoso, nisto tudo.

E não me tem faltado ultimamente, em casos de pessoas de quem eu sou bastante amigo, que sei que estão a passar dificuldades, de vista, de saúde, etc. O último agora foi o meu amigo José Pinho, das livrarias Ler Devagar. Foi-lhe atribuída agora a medalha de mérito cultural pela Câmara Municipal de Lisboa. A atribuição dessa medalha foi no Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa. E eu fui lá, porque sou muito amigo dele e ele está muitíssimo doente. É muito duro nós vermos pessoas assim. Temos de nos apoiar a todos. 

7M – Encontrar amigos é análogo a fazer novos amigos…

Nas escolas, por exemplo, eu gosto imenso de ir às escolas. E agora, ultimamente, estive numa escola nas Caldas da Rainha, estive noutra perto de Fátima. E foi muito bom porque a gente encontra gente diferente.

Encontrei, por exemplo, o neto do Aristides de Sousa Mendes. O que é muito interessante. De repente estávamos a almoçar lado a lado e a conversarmos sobre as coisas e a simpatizar, a perceber que temos qualquer coisa que nos une, o que é comum a quem está neste mundo e que não quer viver a dormir.

Papa Francisco, baptismo

Fanhais sobre o caminho sinodal proposto pelo Papa: “Tem de haver um caminho em conjunto, tanto como objetivos e metas comuns. Isso é fundamental, para não nos sentirmos sozinhos, nem a trabalhar em vão ou a esbracejar inutilmente.” Na imagem, o Papa Francisco a batizar um menino, de nome Miguel Angel, no Hospital Gemelli, em Roma. Foto retirada do vídeo do Twitter.

 

7M – Isso que diz faz-nos voltar à conversa sobre o Papa Francisco. Ele propõe que caminhemos sinodalmente.

Tem de haver um caminho em conjunto, tanto como objetivos e metas comuns. Isso é fundamental, para não nos sentirmos sozinhos, nem a trabalhar em vão ou a esbracejar inutilmente.

E depois, sem procurar nada disso, obviamente, há imensas compensações que me deixam completamente surpreso. Por exemplo, [há dias] estive em Serpa. Há uma amiga alemã que vem cá regularmente com grupos de alemães. E então qual é o trabalho que ela me pede? É de ensinar a Grândola a esses alemães que vêm cá.

E eu lá estive, em Serpa, a ensinar a Grândola… Eles têm um papel com letra em português, a seguir a letra e a tradução em alemão, e depois outra tradução dela própria, mais conforme, digamos, com o original. E para mim é uma satisfação enorme, quando vi as pessoas a cantar a Grândola. E depois eu digo “agora, como é muito complicado para vocês, se calhar, estarem a cantar com uma letra em português. cantamos só em lá lá lá. Então, canta tudo em coro: Lá lá lá, lá lá lá lá lá lá lá lá lá… Depois, no fim, as pessoas vêm ter comigo e cria-se ali um ambiente de comunicação, que a mim me dá muita satisfação. Não procuro isso, mas o resultado é esse.

7M – Acontece o mesmo com os jovens nas escolas?

Ainda agora, nas Caldas da Rainha, estavam miúdos desde o 6º ao 9º ano, todos eles voluntários. Quando assim é as coisas correm maravilhosamente. Porque eu conto as coisas que me aconteceram, conto as histórias com o Zeca, conto a história da miúda filha de um preso.

É a história de uma senhora que morava numa barraca ali ao pé da Costa da Caparica. Antes de eu ter ido para França, integrei ocasionalmente a Comissão de Socorro aos Presos Políticos. Esta Comissão tinha duas componentes, uma jurídica, de apoio aos presos mesmo com advogados, etc. E a outra era uma componente social, de apoio às famílias, muitas vezes vivendo elas com muitas dificuldades económicas…

Uma vez, com mais dois amigos meus que já morreram, fomos visitar uma senhora que morava na Costa da Caparica, numa barraca. O marido estava preso em Peniche e ela tinha dois filhos, uma miúda que andava na quarta classe e um miúdo que andava na segunda classe. Levávamos uma boneca para a miúda, uma bola para o gaiato brincar. E a senhora, o trabalho dela era ir buscar peças de camisas soltas numa fábrica que havia ali perto. Trazia as mangas, os bolsos, os colarinhos, trazia tudo aquilo solto e passava a noite inteira ou o dia inteiro a coser à máquina sem eletricidade, com um candeeiro de petróleo ao lado, para depois de ter as camisas prontas as ir entregar à fábrica.

Entrada no Forte de Peniche, vista do lado do túnel. Foto © Fernando Barão, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

Forte de Peniche (entrada vista do lado do túnel), usado como prisão pela PIDE. Foto © Fernando Barão, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

 

7M – E as crianças?

Perguntámos à senhora se a miúda estava na quarta classe ia continuar a estudar. E ela voltou-se para nós e disse: “Como é que vocês querem que eu ponha a estudar se aquilo que eu ganho aqui, a trabalhar o dia inteiro, mal me dá para pagar as viagens para ir ver o meu marido a Peniche (que é para ele não pensar que a gente se esqueceu dele), comida para os miúdos, a renda da barraca, o petróleo, viagens, etc.. Não dá. Quando a miúda acabar a 4ª classe, ela vem trabalhar comigo, para arredondar o orçamento familiar.”

Nós pensávamos que os miúdos estavam a brincar aos saltos em cima da cama, longe da conversa. Quando a miúda ouviu a mãe dizer “Como é que vocês querem que eu a ponha a estudar?”, deu um grito em cima da cama e disse “Oh, mãe, mas eu sou inteligente.” Eu conto isto aos miúdos. Os miúdos ficam assim… “Vocês são inteligentes. Apliquem em vossa inteligência ao serviço do país, dessa terra bonita em que nós estamos.” São estas coisas que eu procuro transmitir e é isso que me faz feliz.

7M – Quando voltou a ser professor de Educação Musical, como é que se sentiu a retomar o ensino?

Foi ótimo. Foi muito bom, gostei muito. Não tinha muita diferença em relação às aulas que eu dava antes de ter a “habilitação própria”. Não é a “habilitação própria” que altera o que quer que seja, a relação com os miúdos, com os alunos. Porque a função do professor é a mesma. Aprende-se mais qualquer coisa, obviamente, devido a ter uma “habilitação própria”. Mas aquilo que se diz, a maneira como se ensina, as coisas de que se fala, o que se procura transmitir para a formação dos miúdos é a mesma coisa.

7M – A formação certifica o requisito formal de grau académico e traz, por isso, benefícios em termos remuneratórios…

Exato. E em termos de não sobrar tanto mês no fim do dinheiro. [ri] É das coisas que eu agora gosto mais de fazer é ir às escolas e falar com os miúdos: antes de tudo, daquilo que eu vivi, do Zeca, da importância que ele teve, que ele também era professor.

Para a semana vou a Estremoz, a uma escola, continuar a guerra. E aí vou eu outra vez, tocando na viola, cantando, “vemos, ouvimos e lemos”, ensinando a Grândola e o que vier a propósito.

grandola vila morena instrucoes bloco esquerda

No 25 de Abril, durante o confinamento de 2021 provocado pela pandemia, houve quem cantasse Grândola, vila morena à janela. Imagens retiradas do site do Bloco de Esquerda.

 

7M – O que as circunstâncias sugerirem…

Eu acho que herdei esta maneira de ser do meu pai. O meu pai era uma pessoa muito generosa. Ele era médico e morreu com cancro em 1958. Tinha 53 anos quando morreu. E ele era um homem de uma generosidade muito grande. Nós éramos quatro filhos e, muito embora tivéssemos dificuldades – como tínhamos – para sustentar aquilo tudo, ele ia visitar os doentes e muitas vezes, quando sentia que os doentes tinham necessidade, deixava dinheiro para eles comprarem os remédios.

Ainda há dias, por coincidência, estive no Entroncamento, a propósito de outra coisa, e veio ter comigo um senhor já de muita idade e disse-me: “Olhe, eu fui empregado na farmácia e lembro-me muito bem que o seu pai às vezes, às três da manhã, depois de ir ver um doente para o qual era chamado de urgência, batia-me à porta da farmácia, pois os remédios eram urgentes, e dizia: ‘Está esta receita aqui para aviar e está aqui o dinheiro para a receita, que esta receita é para entregar imediatamente em tal direção.’ O seu pai não só deixava receita, como deixava o dinheiro para pagar os medicamentos.”

Eu acho que esta disponibilidade vem-me de pequeno. Os meus irmãos também são assim. Não sei se tem a ver com a família, com os genes. E aprendi muito também. A escola do seminário é essa: disponibilidade para os outros. Tem tudo a ver com o Evangelho.

7M – Falar da fraternidade é uma missão que ocupa os seus anos mais recentes, no que toca ao contacto com jovens, nas escolas. Também tem referido fraternas relações com outros companheiros, entre o quais se destaca o Zeca Afonso, e ainda com outros padres. Está agora a partilhar connosco documentos bem diferentes [guardados numa pasta de arquivo], não é verdade?

Isto são documentos da PIDE, da Torre do Tombo. Por exemplo, este aqui. O padre Felicidade estava preso. E foi solto, porque fizemos uma campanha muito grande, muitos padres nas missas a falar da prisão dele e a reclamarmos a sua libertação. 

Há aqui um documento do dia 3 de junho de 1970 – eu estava no Barreiro –, onde o agente da PIDE escreve ao seu superior [lê documento em voz alta] “Ex.mo Senhor, no dia 28 de maio de próximo passado, na vila de Barreiro e Igreja de Santa Cruz, um dos padres daquela localidade, o conhecido padre Fanhais, ao celebrar a missa, a habitual missa dos domingos e feriados, às 10 horas da manhã, fê-lo apenas com o intuito de introduzir no pensamento dos crentes ali presentes a subversão e a revolta, exibindo para tal uma lista assinada por vinte e dois padres, dizia ele, protestando a prisão do ex-padre José da Felicidade Alves, que, em seu entender, está preso em Caxias”. “Em seu entender, está preso em Caxias” – como se não fosse de facto uma realidade. Atribui a mim o facto de dizer que ele está preso. “Segundo as suas palavras, não podia ali mencionar os nomes constantes na lista, mas que os interessados a poderiam consultar na sacristia, anexa à mesma igreja. Não esqueceu, no entanto, padre Fanhais, de abordar como principal tema, nessa missa, além de outros, a opressão em que o povo português, em seu entender, vive há 40 anos. O agente Manuel João dos Ramos Manassa. Assinado”.

Portanto, o PIDE estava na missa, para saber o que é que eu e os outros padres dizíamos… Entretanto, o padre Felicidade saiu da prisão e organizou uma pequena sessão no Seminário dos Olivais, para falar sobre si próprio. [mostra documento] 

Note-se o registo “o que não deu a possibilidade de introduzir ali qualquer elemento informativo ligado a estes serviços”. Portanto, só lá estavam sacerdotes. “Conseguiu-se, no entanto, saber o que na generalidade ali foi tratado e a seguir se descreve.” Portanto, foi alguém que lá estava: só lá estavam padres e foi um padre que informou a polícia do que se passava. Isto, para mim, é um documento irrefutável dos pides dentro da Igreja. 

Relatório da PIDE

Relatório da PIDE

 

É a seguinte e transcrição do documento reproduzido:

– Organização Católica
– 6 Ind.

INFORMAÇÃO

ASSUNTO: Reunião de Sacerdotes Católicos no Seminário dos Olivais

À reunião a que acima se alude assistiram cerca de trinta padres, tendo sido possível reconhecer, à entrada, além do padre JOSÉ DA FELICIDADE ALVES, os seguintes: ABÍLIO TAVARES CARDOSO, ELISÁRIO DIAS DE SOUSA, FERNANDO BELO, FRANCISCO JÚLIO FANHAIS, JOAQUIM BRANDÃO OSÓRIO E LUÍS MOITA.

Apesar de terem sido convidados para tomar parte nesta reunião somente [sic] sacerdotes, o que não nos deu a possibilidade de introduzir ali qualquer elemento informativo ligado a estes Serviços, conseguimos, no entanto, saber o que na generalidade nela foi tratado e que a seguir se descreve:

1 – O padre JOSÉ DA FELICIDADE ALVES informou os presentes das razões que teriam motivado a sua detenção e esclareceu que o principal motivo se devia à perseguição que vinha sendo feita aos aderentes ao grupo “SEDES”.

2 – Anunciou aos convidados o seu casamento e descreveu o modo como o mesmo se irá processar, em data ainda a fixar. O mesmo efectuar-se-à [sic] civilmente, seguido de uma cerimónia religiosa privada.

3 – Atribuiu a sua tão rápida restituição à liberdade às diligências efectuadas por Sua Excelência Reverendíssima o Cardeal Patriarca de Lisboa e à atenção que também Sua Excelência o Presidente do Conselho teria dispensado ao seu caso.

4 – Manifestou o seu regozijo por Sua Excelência Reverendíssima ter desta ves [sic] tomado uma atitude desassombrada na defesa de um seu súbdito, facto que ao longo da sua vida sacerdotal nunca se verificara.

Lisboa, 25 de Junho de 1970

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Um casal em 2024

Um casal em 2024 novidade

“A D. Georgina e o Senhor Amaro comentam o trânsito dos jovens, ele irritado: isto é gente de fora, do karaté ou lá o que é, daquelas coisas chinesas de dar porrada. Ela, rancorosa: pois, deixam-nos vir para cá para aprenderem a fazer-nos mal, deviam era mandá-los a todos para a terra dele”. Um texto de Nuno Caiado, baseado num episódio real testemunhado em Lisboa.

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