Desde que o Papa Francisco foi internado devido a problemas respiratórios, já vi de tudo: padres a referirem-se a ele no pretérito imperfeito (“era um homem de diálogo…”, como se tivesse já deixado de o ser); comentadores – incluindo católicos – a afiançar que a morte dele está para breve (alegando que o Vaticano não pode anunciar de chofre o seu falecimento, e por isso prepara as pessoas para a despedida com comunicados a conta-gotas); mensagens de ódio nas redes sociais, escritas por “ultracatólicos”, a desejar que essa morte aconteça o mais rapidamente possível (dizendo coisas como “Vou festejar muito o dia em que este Papa for para o inferno”, “Espero que morra a agonizar”, ou “Nunca foi Papa, foi um vagabundo comunista que adora terroristas”); e ainda profecias sobre a data da sua morte (parece que o dia 1 de março recolhe um grande número de apostas). Vi até, como não poderia deixar de ser neste tempo de fake news, publicações a anunciar que ele já tinha morrido.
Num ápice, o Vaticano encheu-se de jornalistas, muitos deles a trabalhar para meios de comunicação que só raramente noticiam aquilo que o Papa diz ou faz. E assim Francisco passou a abrir noticiários, a fazer manchetes de jornais, a ocupar uma percentagem muito significativa das maratonas informativas e dos feeds das redes sociais. Mas que Francisco? Um Francisco doente, em perigo de morte, que cancela audiências e falha as celebrações jubilares. Um Papa que tantos amam e outros (sobretudo dentro da Igreja Católica) não suportam, à volta do qual muitos rezam (sabe-se lá pelo quê…), falam sobre o seu historial clínico, procuram adivinhar se vai renunciar, e refletem sobre quem será o seu sucessor.
Obviamente, tais temas podem e devem ser objeto de notícia e reflexão. Mas alerto para o sensacionalismo, o aproveitamento, as falsas notícias, as não notícias. E sobretudo questiono: já que se reconhece a importância do Papa e que há, afinal, tanto espaço nos média para falar sobre ele, porque não se dá destaque àquilo que Francisco continua a ser e a fazer, no presente do indicativo?
No último sábado, ao mesmo tempo que Francisco lutava contra uma crise asmática no hospital, o arcebispo de Tóquio, Isao Kikuchi, encontrava-se com o homem que no mundo até hoje passou mais anos no corredor da morte (um total de 45), para lhe entregar um terço que o Papa fez questão de benzer e enviar-lhe. Trata-se do japonês Iwao Hakamada, ex-lutador de boxe condenado pelo assassínio do seu patrão e da respetiva família, com base numa “confissão” forçada. Apesar de ter retirado essa confissão durante o julgamento, afirmando que a polícia o tinha ameaçado e espancado, Hakamada foi condenado à morte em 1968 e só no final do ano passado absolvido, depois de finalmente ter sido considerada provada a sua inocência. Quando o Papa Francisco – que tem sido um dos mais visíveis e audíveis opositores da pena de morte em todo o mundo – visitou o Japão em 2019, o arcebispo de Tóquio ainda tentou marcar um encontro pessoal de Hakamada com ele, sem sucesso. Mas quando, em outubro passado, durante a assembleia do Sínodo sobre a Sinodalidade, Kikuchi partilhou com Francisco a notícia da absolvição, o Papa assegurou que escreveria e enviaria um terço benzido por si a este homem que se converteu ao catolicismo enquanto estava injustamente preso e que, tal como ele, tem 88 anos. Quantos, além do jornal Crux, terão dado conta de que a promessa de Francisco foi agora cumprida, reafirmando simbolicamente com este gesto a sua oposição à pena de morte?
Já esta segunda-feira, foi publicada, na mais recente edição da revista da Basílica de São Pedro, a Piazza San Pietro, a resposta do Papa à carta de Cinzia, uma mãe italiana que lhe escreveu partilhando a dor de ter perdido o filho Fabrizio, de 21 anos, num acidente de viação. “Não há palavras para definir uma mãe ou um pai que perde um filho. A esposa que perde o marido é viúva. O marido que perde a esposa é viúvo. A criança que perde um dos pais é órfã. Mas para um progenitor que perde um filho não há palavra”, escreve Francisco, dirigindo-se a Cinzia e ao seu marido António. “Saibam que estou convosco e gostaria de poder consolar-vos como Jesus consolava os aflitos e animava à esperança. Jesus, que chora connosco, semeará nos nossos corações todas as respostas que buscamos”, continua o Papa, na mensagem que terá redigido poucos dias antes do seu internamento, e em que assegura, citando João Paulo II: “Não há mal do qual Deus não saiba tirar um bem maior.” Na verdade, a própria Cinzia partilhou, na carta que escreveu ao Papa, um certo bem que resultou de toda a dor sentida após a morte do filho: “Entendemos que tínhamos que fazer algo para nos levantar e dar sentido a esta desgraça. Tornámo-nos voluntários da Cruz Vermelha. Para ajudar aqueles que sofrem e precisam de ajuda, fundámos uma associação sem fins lucrativos, Insieme per Fabrizio, com o objetivo de promover uma cultura que favoreça a vida e os valores a ela associados, em particular trabalhando na prevenção e na segurança rodoviária nas escolas.” Quantos média terão contado esta história, além de alguns meios da Igreja Católica?
Também nos últimos dias, a Santa Sé divulgou vários textos preparados pelo Papa. Foi o caso da habitual alocução que se segue ao Ângelus de domingo, em que Francisco lamentou “o terceiro aniversário da guerra em grande escala contra a Ucrânia: um aniversário doloroso e vergonhoso para toda a humanidade”, e convidou a “recordar as vítimas de todos os conflitos armados e a rezar pelo dom da paz na Palestina, em Israel e em todo o Médio Oriente, em Myanmar, no Kivu [Congo] e no Sudão”. Quantos terão feito eco deste apelo? Depois, na terça-feira, era publicada a Mensagem para a Quaresma, em que o Papa lança um desafio concreto. Poucos saberão qual é: “confrontar-nos com a realidade concreta de algum migrante ou peregrino e deixar que ela nos interpele, a fim de descobrir o que Deus pede de nós para sermos melhores viajantes rumo à casa do Pai”. E já esta quarta-feira, 26, o sítio da Santa Sé divulgou a catequese que Francisco preparou para a audiência geral dessa manhã, e na qual – coincidência ou não – se refere à morte como “uma irmã que não aniquila, mas introduz na verdadeira vida”. O texto passou despercebido à maioria dos repórteres e comentadores; por um lado ainda bem, caso contrário, uma frase destas poderia ter sido aproveitada para reforçar os “indícios” de que o Papa se prepara para partir.
Bispos têm sido nomeados, uma nova comissão acaba de ser instituída, a comunidade católica em Gaza continua a receber os telefonemas diários do Papa. Mas nada disto é destacado – ou é pouco mencionado – na maioria das muitíssimas notícias dedicadas a Francisco desde que ele se encontra internado no hospital Gemelli.
Pergunto-me: quando o Papa tiver alta e, aos poucos, for retomando a sua preenchida – e relevante – agenda, será que vão continuar a dar-lhe espaço, e finalmente a devida importância? Agora sou eu que arrisco fazer uma profecia: nessa altura é que, para a maioria, Francisco vai mesmo passar à história.










