Francisco no Iraque, dia 2: O “regresso a casa” em Ur, e o terrorismo e violência como traições da religião

| 7 Mar 21

“Deus é misericordioso e a ofensa mais blasfema é profanar o seu nome odiando o irmão. Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião. E nós, crentes, não podemos ficar calados, quando o terrorismo abusa da religião.” O segundo dia do Papa no Iraque incluiu um encontro histórico e um discurso que pode já ler-se como o mais importante de Francisco – até agora – nesta viagem.

O Papa e outros líderes religiosos no encontro em Ur: o Iraque passará a ter um Dia Nacional da Tolerância e Coexistência, em memória deste encontro. Foto: Religión Digital/Direitos reservados.

 

O primeiro-ministro do Iraque, Mustafa Al-Khadimi, anunciou a instituição de um Dia Nacional da Tolerância e Coexistência, depois do encontro entre o Papa Francisco e o Grande Ayatollah Ali al-Sistani, líder espiritual dos muçulmanos xiitas do Iraque, e da celebração inter-religiosa na antiga cidade de Ur, de onde terá saído Abraaão, o “pai” dos três monoteísmos.

Na sua conta do Twitter, o primeiro-ministro Mustafa Al-Khadimi escreveu: “Em comemoração do histórico encontro em Najaf entre o Ayatollah Ali Al-Sistani e o Papa Francisco, e da histórica celebração inter-religiosa na antiga cidade de Ur, declaramos o dia 6 de Março um Dia Nacional de Tolerância e Coexistência no Iraque.”

“Al-Sistani foi uma força importante para a paz entre 2006 e 2008, durante a guerra civil do país. Ele emitiu uma fatwa [decreto religioso] pedindo o fim do ciclo de violência”, afirmou o padre Ameer Jaje, numa entrevista à Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), sublinhando ainda “o simbolismo” e importância de um encontro que “vale mais do que qualquer assinatura” de declarações conjuntas.

Para a AIS, a reunião entre os dois líderes religiosos, que iniciou o programa do Papa neste segundo dia da sua visita ao Iraque, traduz a esperança de que o país, que vive há duas décadas mergulhado em conflitos – a invasão da coligação internacional, a guerra civil, o Daesh – abrace agora “o pluralismo e a diversidade”.

 

Al-Sistani ao Papa: superar a violência e incluir os cristãos

O Papa Francisco e o líder xiita do Iraque, Ali Al-Sistani, em Najaf, durante a viagem do Papa ao Iraque. Foto: Direitos reservados/Religión Digital

 

Do encontro entre Francisco e al-Sistani, que durou cerca de 45 minutos, não houve quaisquer imagens em directo, nem saiu qualquer declaração pública. No final, o director da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, afirmou que o Papa “sublinhou a importância da colaboração e da amizade entre as comunidades religiosas para que, cultivando o respeito mútuo e o diálogo, se possa contribuir para o bem do Iraque, da região, de toda a humanidade”.

Citado pelo Vatican News, Bruni acrescentou: “O encontro foi uma ocasião para o Papa agradecer ao Grande Ayatollah Al-Sistani porque, juntamente com a comunidade xiita, diante da violência e das grandes dificuldades dos últimos anos, levantou a sua voz em defesa dos mais fracos e perseguidos, afirmando a sacralidade da vida humana e a importância da unidade do povo iraquiano”.

O gabinete de Sistani, em Najaf, divulgou também uma declaração, segundo a qual a conversa “girou em torno dos grandes desafios que a humanidade enfrenta nesta era e o papel da fé em Deus Todo-Poderoso e em suas mensagens, e o compromisso com elevados valores morais para superá-los”.

Al-Sistani falou ao Papa da “injustiça, da opressão, da pobreza, da perseguição religiosa e intelectual, da supressão das liberdades fundamentais e da falta de justiça social, em particular das guerras, dos actos de violência, do bloqueio económico e dos muitos povos deslocados na região, que sofrem, em particular, entre outros, o povo palestino nos Territórios Ocupados”.

Os líderes religiosos devem ajudar a travar essas tragédias, acrescentou, segundo a mesma fonte, e exortar as grandes potências a respeitar o direito dos povos à liberdade e dignidade. E manifestou a esperança de que o Iraque supere a violência, manifestando a esperança de que os cristãos vivam como todos os iraquianos, em segurança e na paz, e com pleno respeito por seus direitos constitucionais”.

Najaf é um dos lugares sagrados mais importantes do islão, pois é ali que se se encontra o túmulo do imã Ali ibn Abi Tabli, genro de Maomé.

 

Maior ofensa a Deus é odiar o irmão

Encontro inter-religioso em Ur, Iraque, presidido pelo Papa na sua viagem ao país. Foto: Direitos reservados/Religión Digital

 

Se o encontro com al-Sistani foi histórico pelo simbolismo, a celebração inter-religiosa que se lhe seguiu, já em Ur, incluiu aquele que pode ser já considerado o discurso mais importante do Papa nesta viagem. Nele, o Papa insistiu em que “Deus é misericordioso e que a ofensa mais blasfema é profanar o seu nome odiando o irmão”. E acrescentou, naquela que é uma das frases centrais do texto: “Hostilidade, extremismo e violência não nascem dum ânimo religioso: são traições da religião. E nós, crentes, não podemos ficar calados, quando o terrorismo abusa da religião.”

Num texto literária e teologicamente muito intenso (e que pode ser lido na íntegra na página do Vaticano), Francisco começou por se referir ao “lugar abençoado” onde os líderes de diferentes religiões se encontravam: “Faz-nos pensar nas origens, nos primórdios da obra de Deus, no nascimento das nossas religiões. Aqui, onde viveu o nosso pai Abraão, temos a impressão de regressar a casa.” E ali teve início “uma viagem que mudaria a história”.

Os descendentes de Abraão, das várias religiões, sentem que a sua “função primeira” é ajudar outros a “elevarem o olhar” para o céu e as mesmas estrelas que Abraão viu, testemunhando a paternidade de Deus através da fraternidade: “Erguemos os olhos ao Céu para nos elevarmos das torpezas da vaidade; servimos a Deus, para sair da escravidão do próprio eu, porque Deus nos impele a amar. Esta é a verdadeira religiosidade: adorar a Deus e amar o próximo. No mundo atual, que muitas vezes se esquece do Altíssimo ou oferece uma imagem distorcida d’Ele, os crentes são chamados a testemunhar a sua bondade.”

Sempre usando a imagem das estrelas, Francisco recordou o “momento escuro” do terrorismo e as estrelas que, ainda assim, brilharam. “Penso nos jovens voluntários muçulmanos de Mossul, que ajudaram a refazer igrejas e mosteiros, construindo amizades fraternas sobre as ruínas do ódio, e penso nos cristãos e muçulmanos que hoje restauram conjuntamente mesquitas e igrejas.”

Esta afirmação foi o pretexto para o Papa se referir a um dos testemunhos que se tinham ouvido antes: o do professor universitário Ali Thajeel, que começou a organizar peregrinações de judeus, cristãos e muçulmanos à antiga cidade de Ur, pátria de Abraão. Com a ideia de enviar ao mundo a mensagem de que “somos uma só nação”, tinha dito o próprio momentos antes.

“Nas tormentas que estamos a atravessar, não nos salvará o isolamento, não nos salvarão a corrida armamentista e a construção de muros, que aliás nos tornarão cada vez mais distantes e irados”, acrescentou depois o Papa. “Não nos salvará a idolatria do dinheiro, que nos fecha em nós mesmos e provoca abismos de desigualdade onde se afunda a humanidade. Não nos salvará o consumismo, que anestesia a mente e paralisa o coração.”

A humanidade deve, antes, percorrer os caminhos da paz, partilha e acolhimento, justiça e equidade, “promoção para todos, a começar pelos mais frágeis”. “Não haverá paz enquanto as alianças forem contra alguém, porque as alianças de uns contra os outros só aumentam as divisões. A paz não exige vencedores nem vencidos, mas irmãos e irmãs que, não obstante as incompreensões e as feridas do passado, passem do conflito à unidade.” E pediu o Papa, recordando de novo a Síria, cujo conflito já invocara na véspera: “Na oração, peçamos isto para todo o Médio Oriente; penso em particular na vizinha e atormentada Síria.”

 

Trocar as armas por alimentos para todos

Bomba em Betnaya, na Planície de Nínive, no Norte do Iraque, em Dezembro de 2016: é preciso trocar as armas por alimentos para todos, pede o Papa. Foto: ACN-Portugal

 

A humanidade “e principalmente os crentes das diferentes religiões” têm a missão de “transformar os instrumentos do ódio em instrumentos de paz” e de exigir aos responsáveis das nações “para que a proliferação crescente de armas ceda o lugar à distribuição de alimentos para todos” e de calar “as mútuas acusações para dar voz ao grito dos oprimidos e descartados no planeta: muitos estão privados de pão, remédios, instrução, direitos e dignidade”. Ou, ainda, que “o dinheiro não acabe sempre e só por nutrir a desenfreada comodidade de poucos”, que a casa comum seja salvaguardada “das nossas ambições predatórias” e “lembrar ao mundo que a vida humana vale pelo que é e não pelo que tem” e que qualquer vida “é sempre sagrada”.

O Papa referiu ainda outros três testemunhos: Dawood e Hasan, dois jovens de 19 anos, um cristão e outro muçulmano, que, “sem se deixarem abater pelas diferenças, estudaram e trabalharam juntos” e iniciaram um negócio conjunto, com o apoio das famílias, como forma de pagar os respectivos estudos. “É possível sermos amigos”, tinham afirmado ambos, antes da intervenção de Francisco.

Também Rafah Hussein contou “o exemplo heróico de Najy, da comunidade sabeia mandeia, que perdeu a vida na tentativa de salvar a família do seu vizinho muçulmano”, bem como “as tribulações indescritíveis da guerra, que forçou muitos a abandonarem casa e pátria à procura dum futuro para os seus filhos”.

Várias das ideias do Papa neste discurso foram, logo a seguir, retomadas e formuladas em forma de prece, numa “Oração dos filhos de Abraão”.

Mais tarde, já em Bagdad, Francisco tornou-se o primeiro Papa a celebrar em rito caldeu. Na homilia, insistiu nas ideias da fragilidade e da mansidão como caminhos que os cristãos devem assumir para chegar às bem-aventuranças do evangelho. “Jesus mudou a história. Como? Com a força humilde do amor, com o seu paciente testemunho. O mesmo somos nós chamados a fazer; assim Deus realiza as suas promessas.”

Neste domingo, o Papa dedica o dia às vítimas do terrorismo, com paragens em Erbil, capital do Curdistão iraquiano, Mossul e Qaraqosh, a cidade do Iraque com maior número de cristãos. Na segunda de manhã Francisco regressa a Roma.

 

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