Francisco: o Papa da proximidade, mesmo em quarentena

| 24 Mar 20

Papa Francisco

O Papa Francisco em Roma, em Outubro de 2019 Foto © Arlindo Homem

 

Se viver em quarentena é um enorme desafio para a generalidade das pessoas, como será para o Papa Francisco? Ele, que recusou viver no tradicional apartamento papal do Palácio Apostólico por não querer ficar isolado e optou por ocupar o quarto 201 da Casa de Santa Marta (onde vivem ou pernoitam outros bispos, padres e leigos)? “Estar no meio das pessoas faz-me bem”, disse precisamente há sete anos, no início do seu pontificado, para justificar a polémica decisão. Desde então, multiplicaram-se as atitudes que levaram fiéis, jornalistas e cardeais a apelidá-lo de “Papa da proximidade”, “Papa dos afetos” ou “Papa de todos nós”. Agora que a pandemia de covid-19 o obrigou a permanecer em isolamento social, Francisco tem feito inúmeros esforços para continuar a manifestar essa proximidade que o define. Das missas transmitidas em direto pelos canais do Vaticano e no Youtube às entrevistas dadas por Skype ou telefone, o Papa tem dirigido, todos os dias, palavras de alento aos mais afetados pelo novo coronavírus ou aos que ajudam no combate à doença.

A primeira oração de Francisco pelos doentes de covid-19 foi a 26 de janeiro. Na alocução do Angelus desse domingo, ainda diante de uma Praça de São Pedro repleta, Francisco dirigiu-se a toda comunidade chinesa: “Desejo também estar próximo e rezar pelas pessoas doentes por causa do vírus que se difundiu na China. Que o Senhor acolha os mortos na sua paz, conforte as famílias e sustente o grande empenho da comunidade chinesa, já organizada para combater a epidemia.” Nessa altura, a doença estava circunscrita àquele país asiático e tinha provocado 56 mortos. Passados dois meses, o número de mortes ultrapassa os 15 mil em todo o mundo, dos quais mais de 10 mil só na Europa.

O Papa Francisco está confinado ao Vaticano desde Quarta-feira de Cinzas. Por causa de uma constipação (que muitos especularam ser covid-19), não participou no tradicional retiro de Quaresma da Cúria Romana, no início de março. Poucos dias depois, a 9 de março, o Governo italiano decretou o estado de quarentena para todo o país. Nesse mesmo dia, e em todos os que se seguiram, o Papa Francisco celebrou missa na capela da Casa de Santa Marta, sem fiéis, mas pela primeira vez com transmissão ao vivo através do canal Youtube do Vatican News, possibilitando a qualquer pessoa no mundo, com acesso à Internet, participar nas eucaristias que celebra diariamente às 7h da manhã (6h de Portugal continental). “Nestes dias, oferecerei a missa pelos doentes desta epidemia do coronavírus. E pelos médicos, enfermeiros, voluntários que ajudam muito, familiares, pelos idosos que estão em lares e pelos presos”, afirmou, em jeito de compromisso.

 

Famílias, pessoal médico, presos, voluntários, clero… Ninguém é esquecido

Em todas as suas intervenções, o Papa tem recordado um ou mais grupos de pessoas afetadas pela pandemia. Ainda na eucaristia desta segunda-feira, 23, as primeiras palavras de Francisco foram para as famílias a atravessar dificuldades financeiras devido à pandemia. “Rezemos hoje pelas pessoas que por causa da pandemia estão a começar a ter problemas económicos, porque não podem trabalhar e tudo isso recai sobre a família. Rezemos pelas pessoas que têm esse problema”, disse logo no início da missa.

No dia 19, a sua atenção tinha ido para os presos: “Rezemos hoje pelos irmãos e as irmãs que se encontram na prisão: eles sofrem muito, pela incerteza daquilo que acontecerá dentro da prisão, e também pensando nas suas famílias, como estão, se alguém está doente, se falta alguma coisa. Estejamos hoje próximos dos presos, que sofrem muito neste momento de incerteza e de dor”, pediu.

As habituais catequeses das audiências gerais de quarta-feira e o Angelus de domingo passaram a ser feitos pelo Papa na Biblioteca do Palácio Apostólico e também transmitidos em direto, para evitar que as pessoas se reúnam na Praça de São Pedro, entretanto encerrada. Voluntários, médicos, enfermeiros ou padres, para todos o Papa Francisco tem tido palavras de ânimo e agradecimento nestas intervenções. Aos padres, em particular aos da região da Lombardia (a mais afetada pela epidemia em Itália) elogiou a criatividade: “Pensam em mil maneiras de estar próximos do povo, para que o povo não se sinta abandonado.”

Papa Francisco

O Papa Francisco em Roma, em Outubro de 2019 Foto © Arlindo Homem

 
Recorde de entrevistas e comunhão espiritual

Outra novidade deste período de quarentena do Papa têm sido as entrevistas dadas aos meios de comunicação social por via digital. Em menos de um mês, já falou a dois jornais italianos, La Stampa e La Reppublica, e a um programa de televisão espanhol, Lo de Évole. E também nestas entrevistas tem procurado mostrar a sua proximidade e insistido nessa ideia.

Na entrevista telefónica ao La Repubblica, publicada na quarta-feira, 18 de março, ele sublinhava a necessidade de, durante este período de isolamento, procurar “uma nova forma de nos aproximarmos uns dos outros” numa relação concreta tecida de atenção e de paciência”. 

“Devemos redescobrir a importância dos pequenos gestos, das pequenas atenções a ter com os que nos são próximos, a nossa família, os nossos amigos”, convidava ainda o Papa. “Compreender que a verdadeira riqueza está nas pequenas coisas.” E sublinhava que “certos gestos simples se perdem por vezes no anonimato do quotidiano: os gestos de carinho, de afeto, de compaixão, que são, contudo, decisivos e importantes”. “Um prato de comida quente, uma festa, um abraço, um telefonema…, são gestos familiares e do quotidiano que permitem dar um sentido à vida e estabelecer uma comunhão e uma comunicação entre nós”. E lamentava também que a comunicação que vivemos seja apenas virtual.

No programa espanhol, ao qual falou por videochamada no domingo, 22, confidenciou que é difícil encontrar palavras para aqueles que têm perdido os seus familiares e amigos por causa do novo coronavírus: “A última coisa que eu faria é dizer-lhes algo, mas tento fazer-lhes sentir a minha proximidade.” Francisco aproveitou também para deixar uma mensagem aos empresários: “Mais que despedir, há que acolher e fazer sentir que existe uma sociedade solidária”. E referiu o possível lado positivo da pandemia. “Temo-nos esquecido da comunhão, agora temos tempo para nos encontramos, para nos reencontrarmos”, afirmou. “Pode ser que este seja um dos ganhos que obtenhamos com esta tragédia, recuperar a convivência humana, a proximidade.” Questionado sobre se esta crise do coronavírus seria um “ajuste de contas da natureza”, Francisco concluiu: “Deus perdoa sempre, nós perdoamos de vez em quando, e a natureza nunca. A natureza está a protestar, para que cuidemos dela.”

 

Desafio a todos os cristãos

Francisco tem procurado ainda recordar aos católicos formas alternativas de viver os sacramentos: incentivou os católicos a confessarem-se diretamente a Deus e convidou à comunhão espiritual, numa altura em que diversos países suspenderam as missas com a participação dos fiéis. “Nesta situação de pandemia, na qual nos encontramos a viver mais ou menos isolados, somos convidados a redescobrir e aprofundar o valor da comunhão que une todos os membros da Igreja. Unidos a Cristo, nunca estamos sozinhos, mas formamos um único Corpo, do qual Ele é a Cabeça. É uma união que se alimenta com a oração e também com a comunhão espiritual à Eucaristia, uma prática muito recomendada quando não é possível receber o Sacramento. Isso digo para todos, especialmente para as pessoas que vivem sozinhas”, sublinhou.

Ao longo dos dias, o Papa tem feito também vários apelos à oração. Ficou como um ícone destes dias a imagem de Francisco caminhando a pé pela via del Corso, no centro de Roma. Tradicionalmente uma das mais movimentadas da capital italiana, a rua estava deserta nesse domingo, 15, e o Papa dirigiu-se a pé, como numa curta peregrinação, à igreja de São Marcelo, para rezar diante de um crucifixo que a tradição aponta como tendo salvo a cidade da peste, em 1522. Momentos antes, tinha estado também na Basílica da Santa Maria Maior, onde vai normalmente, antes de iniciar uma viagem.

Já nesta segunda-feira, 23, foi anunciado o adiamento da viagem a Malta, que estava prevista para 31 de maio. Mas o Papa lançou um novo desafio a todos os cristãos, incluindo os de outras confissões que não a católica: o de rezarem juntos, nesta quarta-feira, 25 de março, data em que se assinala a festa da Anunciação do nascimento de Jesus, a oração do Pai-Nosso, ao meio-dia (11h em Portugal).

Dois dias depois, na sexta-feira, 27, pelas 18 horas, Francisco irá assomar ao átrio da Basílica de São Pedro, para dar a bênção Urbi et Orbi (à cidade de Roma e ao mundo). Esta bênção especial, dada habitualmente após a eleição de um novo Papa e no Natal e na Páscoa, possibilitará ainda a indulgência plenária para todos os que assistirem. O cenário será diferente do habitual, pois a Praça de São Pedro estará deserta. Mas haverá certamente milhões de pessoas a ver e a ouvir o Papa, que mais uma vez se fará próximo, qual pároco do mundo inteiro, através das televisões e das redes sociais.

 

(Este texto teve o contributo de José Centeio)

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