Muitas sínteses se podem fazer de doze anos de um pontificado cheio de gestos, palavras e apelos. O Papa Francisco era um pensador, em relação permanente com a realidade. Morreu na manhã desta segunda-feira de Páscoa, poucas horas depois da última vez em que foi visto em público, na saudação aos fiéis no domingo de Páscoa.
Na autobiografia Esperança, publicada em Janeiro de 2025, o Papa Francisco, Jorge Mario Bergoglio, cita, em epígrafe, uma frase do poeta austríaco Rainer Maria Rilke: “O futuro entra em nós, para transformar-se em nós, muito antes de acontecer.” Esta frase concretizou-se em Bergoglio/Francisco: o futuro entrou nele muito antes de acontecer.
Foi assim com muitas das suas opções enquanto Papa, que começaram a desenhar-se quando era um jovem, ainda antes de ser ordenado, ou já enquanto jesuíta em formação ou depois de ser padre. A sua profunda oposição ao absurdo da guerra, a prioridade que deu às periferias “geográficas e existenciais”, o seu gosto por viver em comunidade que o levou a recusar viver no Palácio Apostólico – tudo isso estava lá, desde muito cedo, no seu trabalho com os mais pobres das villa miseria ou com os presos, na sua atenção e escuta pessoal, no seu apelo ao compromisso de cada crente com a sociedade e o mundo que o envolvem.
Jorge Mario Bergoglio nasceu em 17 de Dezembro de 1936 em Buenos Aires (Argentina). Passa à história como Papa Francisco, eleito em 13 de Março de 2013, na sequência da resignação do seu antecessor, Bento XVI, naquele que foi um gesto inédito em dois milénios de história do papado – a abdicação por opção livre. O Sínodo e a ideia de sinodalidade foram as suas grandes ideias para a passagem de testemunho – a convocação da grande assembleia eclesial de 2028 aí está como garantia de que a reforma da Igreja, que ele quis acelerar, é para continuar.
Tudo começou numa escolha aparentemente pouco importante: depois de eleito, quando o levaram aos aposentos de Papa, Jorge Mario Bergoglio comentou que o espaço era demasiado grande e que precisava de pessoas na sua vida. Preferiu, por isso, ficar a residir na Casa de Santa Marta, onde estão alojados dirigentes e funcionários de serviços da Santa Sé, e que serve também de hotel para pessoas de passagem.
Santa Marta tem mulheres e homens a trabalhar na recepção, na limpeza, no serviço de mesa. Pessoas que não vivem apenas fechadas no círculo do Vaticano e se cruzam diariamente com o Papa Bergoglio. Seja nos corredores, na capela, no átrio de entrada ou à mesa.
Os antecessores de Francisco só contactavam, no dia-a-dia, com os funcionários mais próximos – secretários, cardeais e bispos, religiosas. Ao contrário, o facto de este Papa estar numa residência “normal” permite-lhe aproximar-se dos funcionários, conhecer os seus problemas, as pequenas alegrias ou grandes dores.
Em 2016, por exemplo, Francisco foi rezar durante um tempo largo junto do corpo de Miriam Wuolou, recepcionista de Santa Marta com 34 anos, de origem eritreia, grávida de sete meses, que morrera vítima de diabetes. Ver o Papa num velório de uma funcionária do Vaticano seria, até há pouco, muito pouco provável.
O discernimento e o quotidiano

Jorge Mario Bergoglio preferiu ficar a residir na Casa de Santa Marta. Na imagem, o Papa durante a homilia na eucaristia na Casa de Santa Marta, na manhã de sexta-feira, 20. Foto reproduzida da transmissão vídeo do canal do Vaticano.
Se Bergoglio já era, por temperamento, próximo das pessoas, a decisão de residir em Santa Marta permitiu que, enquanto Papa, ele partisse do quotidiano e da provocação da vida dos outros para reflectir sobre factos e acontecimentos. Depois, num movimento permanente e circular, a sua reflexão foi propondo novas visões do mundo, dos modos de estar da Igreja e da relação dos crentes com a sua fé.
Um pensador, portanto. Mas, ao invés da escultura de Auguste Rodin, Francisco não se inclinava sobre si mesmo. Antes se colocava à escuta do que o envolvia.
Esse modo de estar reflectia-se quer nas homilias diárias, na missa matinal em Santa Marta, quer em documentos importantes como a exortação Amoris Laetitia (A Alegria do Amor), e no qual fala de todas as situações de alegria ou tensão no contexto familiar; a encíclica Laudato Si’, onde colocava a questão da ecologia integral e defendia o combate à emergência climática com políticas sólidas; a encíclica Fratelli Tutti, onde propunha a lógica do perdão nas relações internacionais e a criação de um fundo de luta contra a fome com o dinheiro que hoje se gasta em armamento; ou a inaugural Evangelii Gaudium, a exortação onde recordava que “esta economia mata” – expressão que retomou na última Sexta-feira Santa, nas meditações que escreveu para a Via-Sacra no Coliseu – e propunha uma atitude mais missionária para a Igreja Católica; ou ainda em situações tão diferentes quanto o discurso perante os refugiados de Lesbos ou as referências a questões de economia ou emprego, a decisões no campo do combate à pedofilia do clero ou da reforma da Cúria Romana. A sua oração pela humanidade, que rezou numa praça de São Pedro vazia durante a pandemia da covid-19, onde recordou que “estamos todos no mesmo barco”, fica como uma das imagens icónicas do pontificado.
O padre jesuíta Antonio Spadaro, que fez a primeira grande entrevista a Francisco já depois de eleito, notava, no livro Temos de Ser Normais: “É significativo que, como declara o Papa, o discernimento espiritual guie as suas opções quotidianas, à primeira vista imediatas e espontâneas. Um exemplo: quando me falou da decisão de ficar a morar em Santa Marta, utilizou o termo ‘eleição’. Impressionou-me o facto de o Papa ter usado esta palavra, típica da linguagem de Santo Inácio [de Loiola, fundador dos jesuítas], para indicar uma escolha que é fruto de um atento discernimento sobre a vontade de Deus.”

O Papa Francisco durante o rito do lava-pés, na prisão juvenil de Casal del Marmo, em 2013. A sua última saída foi na Quinta-feira Santa à prisão de Regina Coeli mas o gesto de lavar os pés não pôde ser repetido. Foto © Vatican Media
O conceito: misericórdia
No centro do pensamento e da acção do Papa, está o conceito de misericórdia, que o levou a proclamar um ano dedicado a esse tema. O cardeal Walter Kasper, autor de um livro sobre o assunto que o Papa citou logo no primeiro domingo depois de eleito, não tinha dúvidas: “A misericórdia é o centro, o fulcro da mensagem bíblica” e é “a trave-mestra da Igreja”, afirmava, no livro-entrevista Testemunha da Misericórdia. Francisco, acrescentava o cardeal alemão, “fala da ‘hierarquia da verdade’, e diz que o cerne da verdade bíblica é a caridade de Deus. Por isso, a misericórdia constitui a hermenêutica das outras verdades e dos próprios mandamentos”.
É essa ideia – sinónimo de coração compadecido – que Francisco retomava a partir do Evangelho. E que lhe permitia perguntar, quando foi questionado sobre a homossexualidade: “Quem sou eu para julgar?” Ou que esteve por detrás do gesto de, em Abril de 2021, levar três famílias de refugiados sírios do campo de Moria, em Lesbos, para viverem no Vaticano. Ou que o fez abrir novas possibilidades aos católicos divorciados que voltaram a casar, como o próprio admitiu a bordo do avião que o levou de Lesbos ao Vaticano, a propósito da exortação Amoris Laetitia.
O Papa teve a “genialidade” – a expressão é de novo do cardeal Kasper – “de compreender a imensa necessidade de misericórdia e de amor que percorre a noite do homem e da mulher contemporâneos”. Por isso, acrescenta ainda Walter Kasper, “não se compreende a oposição de muita gente ao Papa Francisco, que exprime esta centralidade da misericórdia de um modo novo e muito mais incisivo, porque a liga à necessidade de regressar à fonte evangélica”.
É o próprio Francisco quem fala de revolução, a propósito deste tema. Em Novembro de 2013, na exortação Evangelli Gaudium (A Alegria do Evangelho), escrevia que “na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura”. No livro A Felicidade Treina-se em Cada Dia, que recolhe as homilias de 2014-2015 em Santa Marta, o Papa dizia que a misericórdia é “uma grande luz de amor, de ternura”.
A misericórdia tem de ser vivida no concreto por todos os crentes, acrescentava Francisco, na carta que proclamou o ano santo da misericórdia de 2016: “Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia.”
“É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança”, dizia ainda, sobre o fundamento daquela sua proposta. Defendendo, como fazia no livro-entrevista O Nome de Deus é Misericórdia, que o perdão deve ser estendido às relações sociais e entre Estados – uma ideia que retomaria em Outubro de 2020 na Fratelli Tutti. Sob pena de não se fazer justiça e de se correr o risco de “alimentar uma espiral de conflitos sem fim”.
A convocação do ano da misericórdia e a insistência do Papa no tema não eram apenas ideias generosas. Antes correspondem a uma ideia central, fundamentada no Evangelho. A divisa que escolheu quando foi nomeado bispo – e que manteve como Papa – não deixa dúvidas: Miserando atque elegendo. Uma frase retirada do evangelho segundo São Mateus: “Jesus viu um cobrador de impostos e, olhando para ele com misericórdia, escolheu-o”. Quando passava por Roma antes de ser Papa, Bergoglio ficava numa casa ao lado da igreja de São Luís dos Franceses. E entrava aqui muitas vezes para contemplar o quadro Vocação de Mateus, de Caravaggio, como o próprio contou na entrevista a Spadaro…
O método: abrir portas

O lugar da mulher na Igreja é um outro indicador de como se abrem portas que estão ainda mais trancadas. Em 2020, a advogada leiga italiana Francesca Di Giovanni foi escolhida pelo Papa Francisco para o cargo de subsecretária para as Relações com os Estados, na Secretaria de Estado do Vaticano, tornando-se a primeira mulher a desempenhar um cargo de gestão naquele organismo, com autoridade real sobre os bispos. Foto: Vatican News.
Francisco colocava a aproximação a cada pessoa acima da tradição, da norma ou do costume. Abrir portas era o seu método, baseado no modelo de acompanhamento pessoal proposto nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loiola, o fundador dos jesuítas.
Esta abertura traduziu-se em mudanças em situações em que já havia um ambiente favorável (mesmo que não unânime) à renovação; foi o caso da alteração ao ritual litúrgico do lava-pés, que passou a incluir mulheres; ou dos procedimentos que Francisco foi exigindo no combate à pedofilia do clero – denúncias dos casos às autoridades, demissões de bispos silenciosos ou coniventes, etc.
Noutras situações, o Papa preferia propor caminhos que levassem as pessoas a entender a necessidade de alterar regras, disciplinas, comportamentos. Com cautelas, por vezes, para não colocar em causa toda a proposta, mas insistindo nas suas ideias e sugestões como forma de levar a comunidade dos crentes a percorrer um caminho.
O lugar da mulher na Igreja é um outro indicador de como se abrem portas que estão ainda mais trancadas. Em 1984, o Papa João Paulo II publicou uma carta em que afirma que a ordenação sacerdotal deveria ficar reservada aos homens para sempre. Ao regressar do Brasil, em 2013, Francisco repetiu que o seu antecessor já encerrara o assunto, mas dizia que a Igreja devia ampliar a participação das mulheres – a ambiguidade neste campo foi, porventura, o seu maior limite.
Dias depois, na entrevista que daria ao padre Spadaro, para as revistas jesuítas (publicada nos livros Temos de Ser Normais e Sonho Com Uma Igreja Mãe e Pastora), dizia ser “necessário ampliar os espaços de uma presença feminina mais incisiva na Igreja”, que “não pode ser ela própria sem a mulher e o seu papel”; que “a mulher, para a Igreja, é imprescindível” e que é necessário “aprofundar melhor a figura da mulher na Igreja”.
Depois, o Papa acrescentava algo de novo: “É preciso trabalhar mais para fazer uma teologia profunda da mulher. (…) O génio feminino é necessário nos lugares em que se tomam as decisões importantes. O desafio hoje é exactamente esse: reflectir sobre o lugar específico da mulher, precisamente também onde se exerce a autoridade nos vários âmbitos da Igreja.”
Ao falar dos lugares de autoridade, o Papa está a referir a hierárquica católica. Se diz, por um lado, que a questão da ordenação está fechada, por outro abre a porta ao debate sobre o assunto. E insistia no contributo específico das mulheres, também em lugares de autoridade na Igreja. É a sua forma, tranquila, de provocar a revolução.
Uma tal opção do Papa teve implicações mesmo na teologia. Nas últimas décadas, os exegetas bíblicos têm relido os textos dos evangelhos e das cartas de São Paulo e descoberto algo que, durante séculos, se omitiu por razões culturais: as mulheres foram muito mais importantes nos primeiros seguidores de Jesus do que se pensava e tiveram mesmo um papel de liderança nas comunidades fundadas por São Paulo. Em várias homilias, Francisco pediu várias vezes o aprofundamento do papel das mulheres na Bíblia e, ao empossar cinco mulheres na Comissão Teológica Internacional, disse que elas não devem ser apenas a “cereja no topo do bolo”.
A prática: as pessoas no centro

A família, com dois sínodos de bispos dedicados ao tema, foi um dos campos onde mais se percebeu a estratégia de ir abrindo portas, constante nestes doze anos de pontificado. Na imagem, o Papa no final da missa de encerramento do X Encontro Mundial das Famílias, em Roma. 25 de Junho de 2022. Foto © Vatican News
A família, com dois sínodos de bispos dedicados ao tema, foi um dos campos onde mais se percebeu a estratégia de ir abrindo portas, constante nestes doze anos de pontificado. O recente Sínodo sobre a sinodalidade foi a confirmação dessa dinamização de um vasto processo de diálogo e reflexão interna, com milhões de pessoas mobilizadas para aquela que foi a maior dinâmica de debate alguma vez realizada na história da humanidade.
Comentando a exortação Amoris Laetitia, o Papa dizia explicitamente, sobre a possibilidade do acesso à comunhão de católicos divorciados e casados segunda vez: “Posso dizer que sim, ponto final. Mas seria uma resposta demasiado curta.” Depois, remeteu para o que tinha sido dito na conferência de imprensa de apresentação do documento. O cardeal Christoph Schonborn, arcebispo de Viena, falara de novidades, sem rupturas, no documento do Papa. E referira a importância do discernimento “delicado, mas necessário”, em relação a cada caso.
A abertura destes caminhos não tem sido fácil: o cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito da importante Congregação para a Doutrina da Fé, contestou várias vezes as soluções que o Papa e o cardeal Kasper propunham e que em 2016 ficaram consagradas na exortação apostólica A Alegria do Amor. Em Portugal, houve uma diferença de sublinhados entre os então patriarca de Lisboa e bispo de Leiria-Fátima: Manuel Clemente destacava que o Papa não quis propor mudanças, enquanto António Marto acentuava que Francisco, “de modo genial, introduziu uma mudança da disciplina sem pôr em causa a doutrina sobre o matrimónio e a família”.
No documento, o Papa sugere uma arte poética, relacional, emotiva e erótica para a vida do casal. Um capítulo inteiro – o quarto, sobre o amor no matrimónio – era dedicado a esses aspectos. Referia, mesmo, a união afectiva dos esposos como podendo reunir em si “a ternura da amizade e a paixão erótica”. E admitia que, na formação do clero, “pode ser útil também a experiência da longa tradição oriental dos sacerdotes casados”. Sempre abrindo portas, sugerindo caminhos, sem nada forçar.
Francisco insistia em três verbos como chave para a acção da Igreja (e que, noutras ocasiões, estendeu a outros processos e temas: “acompanhar, discernir e integrar”, título do capítulo oitavo da exortação. Aqui, o Papa argentino inclui não só os divorciados, mas também os homossexuais ou as pessoas que vivem em união de facto, seja por relutância contra as instituições ou os compromissos, seja pela falta de segurança económica ou social. Também nesses casos os responsáveis da Igreja deveriam procurar valorizar “aqueles sinais de amor que reflectem, de algum modo, o amor de Deus”. E, se nesse documento o tom era sério, também se referia, com humor, às sogras ou a situações de discussão e conflito nos casais, quando os pratos voam entre marido e mulher…
Ao regressar de Lesbos, Francisco vincou a sua perspectiva: a família é um todo, entre questões morais, emocionais e sociais. Tomando como ponto de partida algumas leituras mediáticas que considerava redutoras, dizia: “Estes média não se apercebem de que este [divorciados recasados] não é o problema importante: a família está em crise em todo o mundo, e a família é a base da sociedade; que os jovens não se querem casar; que há uma queda da taxa de natalidade na Europa que dá vontade de chorar; que falta trabalho; que as crianças crescem sozinhas. Estes são os grandes problemas.”
O Papa já dera exemplo de que a prática da Igreja Católica deveria centrar-se mais nas pessoas do que nas regras ou em algumas práticas distorcidas. Várias vezes Francisco baptizou várias crianças filhas de situações “irregulares”, como uma mãe solteira ou um casal casado apenas pelo registo civil. O primeiro episódio deu-se em Janeiro de 2014 e foi notícia não por quebrar uma regra (o Direito Canónico apenas pede que se garanta a educação cristã dos filhos), mas pelo inédito de um Papa fazer o que muitos padres não facilitam ou até contrariam.
A decisão de alterar a regra litúrgica que previa que, na Quinta-Feira Santa, a cerimónia do lava-pés fosse restringida a homens é outro exemplo. Apesar de o Papa o ter feito logo na Páscoa de 2013, dias depois de ter sido eleito, poucos bispos e padres se atreveram a seguir-lhe os passos. No início de 2016, Francisco promulgou um decreto afirmando que é assim que deve ser feito. Nas suas visitas a prisões de Roma, na Quinta-Feira Santa de cada ano, ele repetia o gesto; mas não apenas para fazer diferente: nessa ocasião, ou nas prisões que visitou nas suas viagens, pretendia sempre chamar a atenção para a periferia mais longínqua, aquela que não vemos, escondemos em lugares que não estão ao nosso alcance. Quinta-Feira passada, o gesto de lavar os pés não pôde ser repetido, mas a sua ida à prisão de Regina Coeli quis de novo chamar a atenção para essa realidade.

Verdade nova: as pessoas que sobram
Colocar as pessoas no centro foi também o grande argumento do Papa nas invectivas contra a “economia que mata”. A expressão, cunhada na exortação A Alegria do Evangelho, de Novembro de 2013, traduz, para Francisco, a condenação de um sistema que promove a “cultura do descartável” e a “globalização da indiferença”. Esta foi condenada na sua primeira viagem fora do Vaticano, quando foi à ilha de Lampedusa estar com refugiados e homenagear as vítimas de naufrágios no Mediterrâneo.
Para Francisco, não estava em causa apenas “um fenómeno de exploração e opressão”, mas antes uma “realidade nova”: os excluídos, que “não são ‘explorados’, mas resíduos, ‘sobras’”. Esta exclusão atinge uma das suas manifestações mais dramáticas na “grave crise humanitária” dos refugiados – para a qual o Papa implorou muitas vezes a atenção e a resolução.
Foi nas suas encíclicas sobre a questão ecológica – Laudato Si’ (Louvado Sejas), Sobre o cuidado da casa comum – e Fratelli Tutti, sobre a fraternidade, que Francisco levou mais longe a sistematização das suas críticas a um sistema que submete a política à finança, relacionando diferentes factores e realidades: crise ecológica e ambiental, pobreza e subdesenvolvimento, depredação e esgotamento de recursos, concentração de grandes grupos financeiros e dívida externa, natalidade e fim da biodiversidade, privatização da água e dívida ecológica, ecologia social e desigualdade.
Nesses textos, o Papa manifestava o seu entendimento que “uma verdadeira abordagem ecológica” exige uma “abordagem social”, ouvindo em simultâneo “o clamor da terra” e o “clamor dos pobres”. Francisco repropunha alguns princípios que vêm dos primeiros séculos do cristianismo: o destino universal dos bens e a sua primazia sobre a propriedade privada. Mas, precisamente por causa de tais argumentos, este foi o seu documento que mais críticas provocou em alguns sectores católicos e político-financeiros.
No livro Papa Francisco – Esta Economia Mata, os jornalistas italianos Andrea Tornielli e Giacomo Galeazzi sistematizavam algumas dessas críticas: o comentador radiofónico norte-americano Rush Limbaugh acusava Francisco de ser marxista; Jonathan Moseley, expoente do Tea Party, acrescentava que Jesus chora “por causa das palavras do Papa” apelando à redistribuição, pois Jesus era “um capitalista, apelando à responsabilidade pessoal, nunca um socialista”.
Os autores do livro recordavam que Novak já criticara, em 2009, a encíclica do Papa Bento XVI Caritas in Veritate (A Caridade na Verdade). Nesse documento, o Papa Ratzinger defendia, por exemplo, “a urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações”. E recordava que o subdesenvolvimento e a pobreza de muitas áreas do globo se tornou “mais agudo e premente com a crise económico-financeira em curso”.
Na Laudato Si’, Francisco fazia a defesa do trabalho como direito e factor de realização pessoal. A diminuição dos postos de trabalho, substituindo-os por máquinas, é “um exemplo de como a acção do homem se pode voltar contra si mesmo”. Concluía o Papa, defendendo a existência de políticas de emprego: “Renunciar ao investimento nas pessoas para se obter maior receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade”.
Por contraste, e dias antes da publicação da encíclica, o então director da Faculdade de Economia da Universidade Católica Portuguesa, Francisco Veloso, condenava, em entrevista ao DN e TSF, a “rigidez” no despedimento e na contratação em Portugal, defendendo que era preciso “ir mais além” na flexibilização.
Uma linguagem: a homilia
Partindo da Bíblia, o Papa refere e brinca com o quotidiano, explica o que pode fazer o crente que o escuta, propõe novos modos de estar por parte da Igreja. Na imagem, o Papa Francisco na homilia do Consistório 2024. Foto © Vatican Media
Regressemos a Santa Marta: a homilia na missa matinal na casa onde decidiu residir acabou por se tornar uma nova linguagem com que o Papa falava ao mundo. No livro A Felicidade Treina-se em Cada Dia, o padre Antonio Spadaro citava o filósofo Giovanni Reale, especialista em Platão e nos grandes clássicos, que dizia que o livro com as homilias do primeiro ano (A Verdade é Um Encontro) era um verdadeiro tratado de filosofia. De uma filosofia oral, explica depois Spadaro, de um logos que acolhe a força das metáforas, das irregularidades gramaticais e tensão vital.
Bastaria ler um qualquer dos 155 textos reunidos neste volume (ou dos 186 de A Verdade é um Encontro) para perceber esse método filosófico franciscano: partindo da Bíblia, o Papa refere e brinca com o quotidiano, explica o que pode fazer o crente que o escuta, propõe novos modos de estar por parte da Igreja. Liberdade, desprendimento, pluralidade no pensamento, centralidade dos mais pobres na acção dos católicos, crítica da burocracia e do carreirismo eclesiástico, pedidos de perdão pelas falhas – ligeiras ou mais graves, como a pedofilia –, apelos à paz e condenação do comércio de armas, a proposta da alegria…
Jesus é aquele que abre portas e a Igreja “tem sempre as portas abertas”, dizia ele, na homilia de 17 de Março de 2015. E dia 23 do mesmo mês, rematava, sobre o tema “sem misericórdia não há justiça”: “Gostaria apenas de dizer uma das mais belas palavras do Evangelho, que me comove muito: ‘Ninguém te condenou?’ ‘Também eu não te condeno.’ ‘Também eu não te condeno.’ É uma das palavras mais belas, porque é cheia de misericórdia.”
Misericórdia, cuidado, periferias e atenção à fragilidade foram dois dos muitos nomes do Papa Francisco. Que antecipou aquilo que deve ser o futuro, muito antes de acontecer.
Este texto é uma versão adaptada e alargada do artigo publicado na revista E, do Expresso, em 14 de Julho de 2023.
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