Clima e pobres na agenda

Francisco recebe Biden: um jogo de sombras e de bispos conspira contra ambos

| 26 Out 21

É uma audiência importante na antevéspera do início da cimeira de Glasgow sobre o clima. Mas ela estará ameaçada por um jogo de sombras: bispos que apoiam Trump e contestam Biden (e o Papa), um Supremo Tribunal conservador que pode reverter decisões sobre o aborto e uma hierarquia que, apesar de admoestada pelo Vaticano, prossegue a sua cruzada contra o Presidente – e contra o Papa. 

Francisco com o então vice-presidente Biden (e família), ao lado do Presidente Obama, na altura da visita papal aos EUA, em 22 de setembro de 2015. Foto: Direitos reservados.

 

A luta contra a pandemia, a emergência climática e a atenção aos mais pobres serão os temas da agenda oficial do encontro entre o Papa Francisco e o Presidente Joe Biden, dos Estados Unidos, o segundo católico a assumir o cargo em quase 250 anos de história. Essa foi, pelo menos, a agenda divulgada há dias pela Casa Branca, mas é de prever que, no encontro, os dois líderes falem também sobre a oposição de uma boa parte da Igreja Católica dos EUA (com uns dois terços do episcopado à cabeça) ao próprio Biden e, por tabela, ao Papa – ou será ao contrário?

Os bispos contestam o Presidente sobretudo por uma razão: a sua posição em relação ao aborto. Biden tem repetido sempre que é contra o aborto, mas que não pode impor a sua posição à sociedade e às leis nem pode condenar mulheres por terem abortado. Um sector dos bispos acha que isso é razão suficiente para declarar que ele não pode ser admitido à comunhão na missa. Os bispos decidiram elaborar um documento sobre o tema, que será votado daqui a três semanas – a assembleia do episcopado reúne entre 15 e 18 de Novembro. 

No entanto, apesar de posições radicalmente anticristãs tomadas pelo antecessor de Biden em campos como o armamento, o desprezo pelas mulheres, o racismo ou as migrações – o próprio Papa criticou Trump dizendo que quem constrói muros não é cristão –, nunca os bispos foram muito longe nas suas críticas ao anterior Presidente (a hipótese da excomunhão não se poria, já que o ex-titular do cargo é evangélico). Pelo contrário, apesar de várias críticas à política de imigração conduzida por ele, vários bispos sempre mantiveram uma relação cordial e até próxima com o então Presidente. 

É neste tema que o Papa apanha por ricochete com a oposição a Biden. Francisco já escreveu aos bispos dos EUA que não deveriam avançar com o documento. “A preocupação no Vaticano não é usar o acesso à Eucaristia como arma política”, disse o padre jesuíta Antonio Spadaro, um dos próximos do Papa, para quem “a comunhão não é a recompensa dos santos, mas o pão dos pecadores”. E o cardeal Luis Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, escreveu em Maio ao presidente da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, José Horacio Gomez, dizendo que o documento, a ser votado, poderia “tornar-se uma fonte de discórdia, e não de unidade, no seio do episcopado e da Igreja maioritária nos Estados Unidos”. 

Na mesma carta, que os bispos ostensivamente ignoraram, ao agendar a discussão do tema para Novembro, Ladaria escrevia ainda que seria enganador “se se desse a impressão de que o aborto e a eutanásia constituem por si só as únicas questões sérias da doutrina moral e social católica”.  

Gomez, aliás, no próprio dia da posse de Biden, em Janeiro deste ano, dissera que rezava pelo novo Presidente mas acusava-o de defender “certas políticas que promovem males morais”, como o 7MARGENS noticiou na altura. 

Do Supremo, algo de novo?

A audiência do Papa com Biden surge num momento em que, nos EUA, também se aguardam para os próximos meses decisões sobre o aborto decisões que poderiam revogar a sua despenalização no país, recorda Faggioli. O Supremo Tribunal, cuja maioria conservadora é dominada por católicos nomeados por presidentes republicanos, prepara essas decisões para os próximos meses e elas podem ser bem opostas à forma de estar na vida partilhadas por Biden ou Francisco – uma visão teológica e política que privilegia o diálogo, a compreensão e a busca de consensos em vez do conflito e do comportamento belicoso. 

Seja qual for o destino do documento a discutir em Baltimore daqui a três semanas, o debate já tornou claro que há zonas do país em cujas comunidades católicas o Presidente – tal como a também católica Nancy Pelosi, líder democrata da Câmara dos Representantes – é persona non grata. O historiador e teólogo Massimo Faggioli, um dos mais conceituados observadores do catolicismo norte-americano, recordou nesta terça-feira, 26, que o Presidente correria o risco de ter algum incidente com as comunidades católicas das dioceses de Denver e San Francisco, tendo em conta as posições já tomadas publicamente pelos respectivos bispos em relação ao assunto. 

A estratégia do Vaticano e do próprio Papa no processo, analisa Faggioli, parece ser a tentativa de preservar a catolicidade da Igreja nos Estados Unidos, protegendo um Presidente católico “eleito por um Partido Democrata que nos últimos anos se radicalizou numa direcção libertária sobre a questão do aborto”, dos ataques que chegam da própria Igreja à qual Biden pertence – mas não um apoio às políticas da actual Administração. 

No regresso da Eslováquia, em 15 de Setembro, o próprio Papa disse que nunca negara a comunhão a ninguém. E já neste mês, no dia 9, o Francisco recebeu Nancy Pelosi no Vaticano, no âmbito dos preparativos da conferência COP26 sobre o combate às alterações climáticas, que se inicia no próximo domingo, 31 de Outubro. 

Apoio arrefecido do Vaticano
Joe Biden, Papa Francisco,

Francisco com o então vice-presidente, na altura da visita papal aos EUA, há cinco anos: “O Papa Francisco fez perguntas que qualquer pessoa que procure liderar esta grande nação deve responder”, dizia Biden na última semana de campanha. Foto: Direitos reservados.

 

No início deste ano, quando Biden tomou posse, o clima entre o Vaticano e os Estados Unidos desanuviou, depois dos quatro anos turbulentos de Trump. Mais: o novo Presidente citou Santo Agostinho no seu discurso de posse, começara a manhã a ir à missa, rezou na Sala Oval pelas vítimas da pandemia e uma foto dele com o Papa Francisco era visível no seu gabinete. 

Agora, no entanto, apesar do empenho do Papa em proteger Biden da perseguição da maioria dos bispos, há temas que provocam clivagem entre os dois líderes. A lentidão das reformas do Presidente, depois das expectativas que a sua eleição suscitou, já é objecto de críticas – incluindo de vários sectores e organismos da Igreja, nomeadamente dos que trabalham com questões de migração.  

No Vaticano, estes primeiros nove meses também são ocasião para questionar se a gestação das novas políticas é eficaz ou não. Precisamente nos temas que estão marcados para a reunião de sexta-feira, a questão é saber se Biden manterá as promessas feitas em relação à emergência climática, ao combate à pobreza, à imigração e ao multilateralismo, por exemplo. 

Todas estas questões surgem num contexto em que ainda se conjugam outros factores: seis em cada 10 católicos brancos são republicanos (eram quatro em cada 10 em 2008, segundo um estudo da Pew Research publicado no New York Times, recorda o jornal espanhol Nius. 

Faggioli recorda ainda que muitos bispos são os mesmos que apreciaram ou não responderam às declarações do antigo núncio nos EUA entre 2011 e 2016, Carlo Maria Viganò, mesmo depois da recusa do ex-Presidente em aceitar o resultado das eleições de Novembro de 2020. Viganò já em Agosto de 2018 fizera acusações não provadas ao Papa Francisco e tem sido um dos defensores das teorias conspiracionistas da pandemia. E são os mesmos bispos que também apoiavam Trump e as suas políticas. 

É este triângulo entre Biden, Francisco e o episcopado católico norte-americano que fará o jogo de sombras no Palácio Apostólico do Vaticano, onde o Papa receberá o Presidente. A oposição ao papado de Francisco “tem o seu capital político, mediático e financeiro nos EUA”, observa Massimo Faggioli, e ela pode vir a “influenciar o futuro equilíbrio de poder na Igreja a nível global, mesmo antes do próximo conclave”. 

O analista italo-americano tem uma perspectiva pessimista: “O conflito em curso nos corredores do poder do catolicismo americano e a resistência das forças anti-Francisco – a Conferência Episcopal, o Supremo Tribunal, a rede de grupos de reflexão conservadores, os grandes doadores da filantropia católica – poderiam dizer muito sobre o futuro próximo do catolicismo. O fracasso do pontificado de Francisco e a tentativa de libertar o catolicismo das garras do fundamentalismo teológico e do autoritarismo político poderia ser um sinal perturbador para aqueles que pensavam que a presidência Trump e o catolicismo trumpiano eram apenas um parêntesis.”

Na sexta-feira, Joe Biden e Francisco falarão entre essas sombras.

 

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