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Igreja de São Damião, em Assis, onde Francisco terá ouvido o crucifixo falar-lhe, pedindo-lhe que restaurasse a sua casa em ruína. Foto © João Fontes.
Igreja de São Damião, em Assis, onde Francisco terá ouvido o crucifixo falar-lhe, pedindo-lhe que restaurasse a sua casa em ruína. Foto © João Fontes.

Ano Jubilar-800 anos da morte (3)

Francisco, restaurador da casa (comum) em ruína

| 03/05/2026

 

O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano e ao dia 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia.

 

As fontes mais fidedignas colocam o famoso colóquio de Francisco com o Crucifixo de São Damião no outono de 1205. A Legenda dos Três Companheiros narra que, depois do “beijo do leproso”, Francisco, “ao passar pela igreja de São Damião, uma voz interior o impeliu a entrar e a orar. Tendo entrado, começou a rezar com fervor diante da imagem de Cristo Crucificado, a qual lhe falou com doçura e benevolência: ‘Francisco, não vês que a minha casa cai em ruínas? Vai e rapara-ma’. A tremer de assombro, o jovem respondeu: ‘Vou fazê-lo prontamente, Senhor’” (V,13).

Levado por esta prontidão e pelo contexto (uma casa-igrejinha abandonada e em ruínas), pensou tratar-se de “reparar” o edifício material. Andou durante algum tempo a fazer de pedreiro, recolhendo pedras pelas ruas, dizendo, “gritando”: “quem me der uma pedra, receberá uma recompensa; quem me der duas, terá dupla recompensa; quem me der três, terá tripla recompensa.” É mais uma originalidade da mendicância franciscana: em vez de pedir pão, pede pedras. É bem provável que Francisco, também nesta altura, jogasse com o duplo sentido: não estava apenas a construir a igreja de São Damião que será sede da sua Fraternitas, mas está já a trabalhar na edificação do mundo novo da fraternidade universal.

Tomás de Celano, primeiro e mais fiel biógrafo, utiliza as mesmas fontes, mas acrescenta alguns detalhes: sentindo-se impelido a entrar numa igrejinha “quase em ruína e abandonada”, Francisco ajoelha-se e reza: “… dá-me, Senhor, o sentido e conhecimento, para que cumpra a tua santa e verdadeira vontade”. Imediatamente viu os lábios do Crucificado moverem-se e, olhos nos olhos, Francisco ouve a mesma ordem: Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está em ruína.

Os biógrafos concordam em fazer deste episódio o momento-chave na vida de Francisco e do futuro do movimento que nele se inspirou. Sublinhamos a súbita passagem do assombro à ação: “logo se propõe obedecer à ordem recebida, concentrando todas as forças na sua execução” (ibid.). O comportamento de Francisco levou alguns a tomá-lo por “louco”, não percebendo que os seus gestos se inscrevem no campo de uma simbólica performativa que transcende os próprios factos narrados.

 

Reconstruir a “casa”, juntando “pedras”

Representação do diálogo de Francisco de Assis com o Crucifixo de São Damião. Imagem: Direitos reservados.

Representação do diálogo de Francisco de Assis com o Crucifixo de São Damião. Imagem: Direitos reservados.

“Louco”, aliás, assumido, como acontece com todos os símbolos de inversão restauradora, o que Francisco está, afinal, a fazer é reconstruir, primeiro a “casa” da sua própria vida e pessoa, e, consequentemente, a casa da Igreja, da Sociedade, do Mundo que carrega agora “às próprias costas”, juntando as pedras que uns lhe dão, outros lhe atiram. Efetivamente, restaurar a casa comum é também restaurá-la em comum. A obra de reparação da “casa” (domus) é um trabalho coletivo e em rede: quem me der uma pedra...; já agora, “a recompensa” também importa e quer ensinar que o que nos move não é o medo da ruína da casa, mas o ganho de um trabalho que a todos compensa.

Acrescenta o biógrafo que “muitos operários trabalharam com ele” nesta construção, respondendo ao apelo do Poverello (Três Companheiros, VII, 24). Francisco conhecia outras maneiras de “construir” casas ou igrejas: “mandar construir”, “financiar a construção” e fazê-lo às custas de outros. Era o modo de operar da maioria, inclusive os eclesiásticos. Ele escolhe o seu modo original: a melhor maneira de construir é… construir, com as próprias mãos, envolvendo todos e contando com todas as “pedras” de boa vontade.

Passados cerca de três anos dedicados ao restauro do património material, Francisco percebeu, lendo o Evangelho da Missão, que a “casa” a “restaurar” era outra: “levado por impulso divino, fez-se o arauto da perfeição evangélica e começou a pregar ao povo a penitência, em linguagem familiar” (Ibid. VIII, 25). Esta linguagem religiosa hoje menos óbvia, reveste-se no tempo de Francisco de um denso significado político e cultural. Quando o Santo fala de “fazer penitência” quer dizer em termos atuais: “operar uma mudança radical de mentalidade e operar em conformidade.”

Esta mudança aplicou-se em diversas frentes: em relação ao trabalho e ao dinheiro (paupertas); no âmbito social (minores); em relação a todas as criaturas (omnes fratres); e relativamente ao modelo monástico (peregrini et edvenae). Foi desta mesma conversão que nos falou o Papa Francisco em nossos dias, sempre inspirando pelo santo de Assis: “Recordemos o modelo de São Francisco de Assis, para propor uma sã relação com a criação como dimensão da conversão integral da pessoa. Isto exige também reconhecer os próprios erros, pecados, vícios ou negligências, e arrepender-se de coração, mudar a partir de dentro» (Laudato Si’, 218).

A missão de restaurar a casa comum começa pela conversão (metánoia) dos que nela moram (LS216-221). Esta é, aliás, a principal “construção” que Francisco ensinou aos seus seguidores. “Como hábil administrador, quis também edificar a sua casa, isto é, a sua Ordem sobre a pedra firme da santa pobreza” (Espelho de Perfeição, 55).

Será por isso que a Regra franciscana, ao contrário de outras, não dedica um capítulo, ou sequer algumas linhas à edificação de casas ou conventos. Dedica, sim, um capítulo especial para ensinar como os irmãos hão de ir pelo mundo (Regra, 14), pedindo-lhes que sejam sobretudo pacificadores das “casas onde entrarem”. E quando os contemporâneos manifestavam sua estranheza perante este modo de vida alternativo, os seguidores do Poverello recordam as suas palavras: “a nossa cela é o nosso coração e o nosso convento é o mundo inteiro” (Sacro comercium 63).

 

Isidro Lamelas é padre da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa. O próximo texto será publicado dia 3 de junho. 

 

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