
Francisco de visita a Bento XVI, em agosto de 2022, durante o consistório de cardeais. Foto © Vatican Media, via Ecclesia
Informações inéditas sobre o “delicado conclave” de 2005, em que Bento XVI foi eleito, são reveladas por Francisco no livro O Sucessor, que será publicado esta quarta-feira, 3 de abril, em Espanha. Entre outros detalhes, o atual Papa conta que tentaram usá-lo para bloquear a escolha de Ratzinger, mas que se recusou a colaborar com essa “manobra”… até porque queria que ele fosse o escolhido.
“Ele era o único que poderia ser papa naquela época”, defende Francisco sobre o seu antecessor, num trecho do livro divulgado em antecipação pelo jornal espanhol ABC. Na obra, que resulta de uma entrevista ao jornalista espanhol Javier Martínez-Brocal, o Papa explica que votou no cardeal Ratzinger no conclave de 2005 porque depois do “pontificado dinâmico e muito ativo” de João Paulo II “era necessário um papa que mantivesse um equilíbrio saudável, um papa de transição”.
Ao longo da entrevista – cujo enfoque é a relação de Francisco com Bento XVI – o Papa conta que, nesse conclave, um grupo de cardeais fez uma “manobra completa” ao apresentar o seu nome “para bloquear a eleição de Ratzinger e depois negociar um terceiro candidato diferente”. Francisco diz ter recebido 40 dos 115 votos entre os cardeais eleitores na Capela Sistina – “o suficiente para impedir a candidatura do cardeal Joseph Ratzinger, porque se eles tivessem continuado a votar em mim, ele não teria conseguido alcançar os dois terços necessários para ser eleito papa”, assinala.
Mas, assim que soube da estratégia, após a segunda ou terceira votação no conclave de 18 e 19 de abril, o então cardeal Bergoglio disse ao cardeal colombiano Darío Castrillón Hoyos para “não brincar” com a sua candidatura, avisando que não aceitaria ser papa se o elegessem. “E a partir daí Bento XVI foi eleito”, recorda Francisco.
Salvaguardando que, embora os cardeais jurem não revelar o que acontece num conclave, “os papas estão autorizados a contar”, o atual Papa acrescenta ainda que o grupo de cardeais responsável por lançar o seu nome lhe disse mais tarde que não queria um papa “estrangeiro”. O termo, cujo significado Francisco não explica, havia sido usado por vários média após a eleição de João Paulo II em 1978, ele que foi o primeiro papa não italiano desde 1523.
Certo é que Francisco saiu do conclave de 2005 satisfeito. “O cardeal Ratzinger era o meu candidato”, assume na entrevista a Martínez-Brocal. “Se tivessem eleito alguém como eu, que faz uma grande bagunça, não teria conseguido fazer nada”, considera. E a prova é que nem Bento XVI teve a vida facilitada. “Foi um homem que seguiu o novo estilo e não foi fácil para ele. Encontrou muita resistência dentro do Vaticano”, afirma.
Depois, questionado sobre o que pensa que o Espírito Santo quis dizer à Igreja Católica através da eleição do Papa Bento XVI, Francisco arrisca uma interpretação: “Aqui estou no comando. Não há espaço para manobras”.
O novo livro, que conta com um prefácio assinado pelo próprio Papa, não tem ainda data anunciada para publicação em Portugal.










