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Francisco y Catalina, refugiados, televisão,
Momento em que, na série "A Lei do Mar", os náufragos à deriva no Mediterrâneo, avistam o "Francisco y Catalina". Imagem: Direitos reservados.

Mini-série na RTP 2

Francisco y Catalina, uma história de encantar

| 14/05/2026

Nesta quinta-feira, 14, estreou na RTP 2 a série A Lei do Mar, que reconstrói a história de Francisco y Catalina, um barco de pesca de Alicante (Espanha) que, há 20 anos (Julho de 2006), resgatou do Mediterrâneo meia centena de náufragos. “Eu mesmo, quando via os que chegavam às Canárias, pensava: que os devolvam ao seu país. Mas conviver com esta gente muda-nos. Sempre agradecendo-nos. Até se descalçavam para não sujar o chão. E estas mulheres tão valentes. Mudou-me a mentalidade.”

 

A 14 de Julho de 2006, José Durá, 39 anos, patrão de um barco de pesca de camarão de Santa Pola (Alicante, Espanha), encontra-se perante uma pescaria nunca vista: um barquito, no meio do Mediterrâneo, com 51 pessoas a bordo. Pediam ajuda, água e comida. “Dois deles lançaram-se à água e nadaram até nós. Eu sabia que me podia meter em problemas. Mas o mar é como a estrada: se vês um acidente, páras”, diria, dias depois, o capitão do Santa Pola ao jornalista Carlos Manuel Sánchez, na reportagem publicada a 6 de Agosto seguinte pelo jornal ABC, de Espanha.

Esta é a história de como, em sete dias, a vida foi recriada: dez pescadores mudaram o modo de olhar o mundo; cinco dezenas de náufragos (ou refugiados? ou imigrantes?) agradeceram o melhor da humanidade. É uma história de encantar.

No barco dos refugiados, a situação era dramática: motor avariado, três dias sem comer nem beber, várias pessoas com insolação, muitos que não sabiam nadar, o barco a meter água. A costa estava a 100 milhas, descreve ainda a reportagem.

José Durá tenta, no primeiro momento, contactar autoridades portuárias e marítimas. Sem resultado. “Demos água e maçãs aos náufragos. Atiravam-se a nós como leões. Quisemos fazer sanduíches, mas nem dava tempo de abrir o pão, tiravam-no-lo das mãos.”

O capitão decide então ir procurar ajuda e promete voltar ao local. Avista um outro barco, de Malta. Mas este, quando percebe ao que vem o Francisco y Catalina, prefere fazer vista grossa e navegar ao largo. José Durá conversa com os seis homens da sua tripulação e todos decidem acolher a bordo os refugiados. Regressam ao local onde está o barco à deriva. Oito mulheres (duas das quais grávidas), uma criança de dois anos desidratada e 42 homens sobem a bordo. De barco de pesca de camarão, o Francisco y Catalina transforma-se em apertado condomínio de 50 metros quadrados para 61 pessoas.

Os imigrantes agradecem beijando as mãos, o cozinheiro Jaime faz macarrão e arroz em doses industriais. Passa a ter de cozinhar três vezes para cada refeição.

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A patera à deriva com meia centena de náufragos, avistada pela tripulação do Francisco y Catalina. Imagem da série A Lei do Mar.

 

Quando o capitão procura no GPS a sua situação, vê que Malta está a 100 milhas, a Líbia a 113. Diz a lei do mar que o país mais próximo tem o dever de acolher os náufragos. Aproximam-se da ilha onde, na Idade Média, se refugiavam os cruzados. Após um contacto via rádio, uma patrulha sai-lhes ao caminho, proibindo a entrada em águas territoriais. A reportagem do ABC nota o paradoxo: em 2005, Malta recebeu 1.171.000 turistas, mas não está disponível para acolher meia centena de africanos.

José Durá conta, no mesmo texto: “Foi muito duro. Demo-nos conta de que a coisa se complicava. Não iam ser apenas dois dias de faina perdida. Eu olhava para os meus homens e pensava: ‘Fizeste-a boa, Pepito.’ Às vezes, dava-me ganas de lhes pedir desculpa, mas nenhum deles me atirou nada à cara. Foi uma decisão de todos. Isso tira-te um peso de cima.”

Ao terceiro dia, domingo, 16 de Julho, José Durá ressuscita: “Tínhamos a impressão de que o nosso assunto não preocupava demasiado.” Era apenas mais um caso de imigrantes que tentavam chegar à Europa arriscando tudo – mesmo a vida. “Eu mesmo, quando via os que chegavam às Canárias, pensava: que os devolvam ao seu país. Mas conviver com esta gente muda-nos. Sempre agradecendo-nos. Até se descalçavam para não sujar o chão. E estas mulheres tão valentes. Mudou-me a mentalidade.”

Iniciara-se uma guerra diplomática, com Malta a tentar encontrar argumentos para que fosse a Líbia a receber os náufragos: o barco estava mais perto de África, o barco não corria perigo. Um médico maltês vai a bordo, quer levar a criança, mas a mãe não deixa: confia mais nos pescadores do Francisco y Catalina. Um helicóptero deixa víveres: dois saquitos de arroz, umas garrafas de água. “Uma vergonha”, comenta o capitão.

A reportagem que aqui se resume conta que, no domingo à noite, José está desmoralizado. Liga por telemóvel à sua mulher, Pepi Irles, 37 anos. “Querida, cai-te a alma aos pés. Há uma mulher dormindo sobre cinco barris.” Pepi percebe a angústia e pergunta ao marido: “Porque não me mandas umas fotos por telemóvel?” José assim faz: fotografa os imigrantes a dormir. Com a ajuda do sobrinho, as fotos chegam a Santa Pola. Em casa, Pepi e o filho mais novo, Pascual, 17 anos, enviam fotos para os jornais. Os imigrantes deixam de ser gente anónima, nota o ABC, convertem-se em rosto.

Algo muda. A embaixadora de Espanha em Malta pergunta o que é necessário no barco. Salsichas, chocolate em pó, açúcar, sal, bolos, pão. E também talheres, pratos de plástico, fraldas, guardanapos, … No barco, tomam-se outras decisões, para evitar que o ambiente se degrade: estabelecem-se horários, o tabaco é repartido por igual. Em terra, as associações de pescadores começam a mobilizar-se: “O mar é o mar. Quando alguém está em perigo, pára-se para socorrer. É a lei do mar. Hoje por ti, amanhã por mim. Tanto faz que seja uma chalupa de pescadores como um veleiro milionário a dar a volta ao mundo. Mas os políticos estão a ser tão torpes que vão conseguir que as pessoas do mar tenham dúvidas.”

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Os náufragos a serem içados a bordo do Francisco y Catalina. Imagem da série A Lei do Mar. 

O caso chega a instâncias internacionais. A União Europeia decide criar equipas de assistência rápida no caso de uma afluência massiva de imigrantes e reforçar a vigilância aérea das rotas mais utilizadas pelas “pateras”. Nas Nações Unidas, diz-se que os náufragos podem ser refugiados de guerra. Finalmente, Malta acolhe a criança doente e sua mãe, além das duas grávidas. O mesmo país permite o desembarque, com a condição de a maior parte dos imigrantes irem para Espanha. “Fizemos o que fizemos por humanidade, mas se, além do mais, isso faz com que os políticos se mexam, dá gosto.”

Ao sétimo dia – quinta-feira, 20 de Julho – chegam ao Francisco y Catalina notícias de prémios para a tripulação: medalhas da Cruz Vermelha, candidatura ao Príncipe das Astúrias da Concórdia, a hipótese de indemnização pela faina perdida. Os pescadores recebem a notícia como um bálsamo, conta ainda o ABC. Excepto Jaime, o cozinheiro: está exausto e a tensão subiu a 20.

O desenlace acontece no dia seguinte: tripulação e náufragos desembarcam, estes são repartidos por diversos países: Espanha recebe 29, Itália 12, Andorra cinco, Malta outros cinco. “Trocamos números de telemóvel. Digo-lhes que se algum passar por Alicante, que telefone. Que a minha casa é a casa deles.” Voltam a zarpar, desta vez à espera de encontrar camarão. “Se os tivéssemos deixado, a sua imagem ter-nos-ia acompanhado toda a vida.”

* * *

(trailer da série, em espanhol)

A história, plena da humanidade resgatada, vale por si e dispensa muitos mais comentários. Refiro duas notas – entre outras que se poderiam destacar. A primeira é a mudança de olhar dos pescadores, quando confrontados com rostos concretos. A afirmação de José Durá é exemplar: “Conviver com esta gente muda-nos”. A segunda tem a ver com as duas confissões finais, de quem sente que tomou o caminho justo, obrigando políticos a agir, e admitindo que não conviveria bem com a sua consciência, se não tivesse feito o que esta lhe ditava.

Estamos hoje confrontados com as vagas de imigração que atingem a Europa. São milhares os que buscam o nosso estilo de vida, no qual vêem um oásis de bem-estar, paz, respeito mínimo pelos direitos humanos, emprego e dinheiro. Entre os milhares que chegam – às Canárias, a Malta, ao sul de Espanha, a Itália –, os 51 acolhidos pelo Francisco y Catalina tiveram sorte. Apesar das promessas da União Europeia (que, como é sabido, continua a ser a entidade que mais faz pelo desenvolvimento africano) e dos governos dos seus Estados-membros, a prioridade política neste campo continua a ser policial, de defesa das costas e de controlo das fronteiras. Em Portugal, preparam-se também planos de contingência entre a Administração Interna e a Defesa.

Só que é preciso mais, muito mais. Numa entrevista ao El País, de 10 de Dezembro de 2006, o então presidente do Parlamento Europeu, Josep Borrel, colocava o dedo em algumas feridas: “A Europa é profundamente hipócrita porque, por um lado, lamenta a existência de imigrantes ilegais, por outro (…) chama-os pela oferta de trabalho ilegal. Na Finlândia, não há imigrantes ilegais, porque a ninguém ocorre dar trabalho ilegal a um imigrante.” O problema não tem a ver apenas com empresas ou redes de tráfico, mas com cada um de nós – e com a forma como lidamos com as pessoas concretas. Trata-se, numa outra perspectiva, de nos colocarmos na pele do outro.

A 14 de Janeiro de 2007, o Papa Bento XVI pedia que os 200 milhões de migrantes (mais nove milhões de refugiados) do mundo fossem olhados mais como um recurso do que como um problema, cuja integração pode ser acelerada pelo respeito mútuo. A história de encantar da tripulação e dos náufragos acolhidos pelo Francisco y Catalina mostra que cada um de nós pode, em dado momento, ajudar a mudar o mundo. Para melhor.

 

A Lei do Mar
Minisérie em três episódios
RTP 2, dias 14, 18 e 19 de Maio, 22h00.
A narrativa televisiva altera alguns pormenores em relação ao relato inicial dos pescadores.
Este texto foi inicialmente publicado no número 53-54 da revista Viragem, do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, correspondente aos meses de Maio a Dezembro de 2006.

 

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