Franz Jägestätter

| 26 Jan 20

Imagem do filme “Uma Vida Escondida”, de Terrence Malik

 

Foi com imenso agrado que vi o filme de Terrence Malik Uma vida escondida, sobre a vida de Franz Jägestätter, um camponês austríaco (beatificado em 2007) que, por razões de consciência, recusou prestar fidelidade a Adolf Hitler (em quem via incarnada a subversão completa dos valores cristãos) e assim servir o exército nacional-socialista, recusa que lhe custou a vida.

Com imagens de grande beleza, o filme retrata o contraste entre a harmonia da vida campestre e do amor familiar, conjugal e paterno, por um lado, e a brutalidade da ideologia e do regime que conduzem à prisão, tortura e morte do protagonista. E retrata, sobretudo, a dilaceração interior deste, dividido entre um forte imperativo de consciência e as consequências que dessa opção decorrem, não tanto para si próprio, mas para com a sua família.

Partilho as reflexões que em mim suscitou a visão do filme, que não são as de um crítico cinematográfico ou, sequer, de um cinéfilo, mas de quem se vem dedicando ao estudo da questão da objeção de consciência na perspetiva da filosofia política e do direito.

Venho advogando a importância de reconhecer o direito à objeção de consciência em termos mais alargados do que tem sido tradicionalmente. Esse alargamento pode comportar o perigo de favorecimento da recusa anárquica de obediência à lei por simples divergência política.

O exemplo de Franz Jägestätter dissipa qualquer confusão a esse respeito, revela bem que o verdadeiro objetor de consciência não age por desobediência; age por obediência a uma lei suprema. E leva essa obediência ao ponto de, por ela, estar disposto aos maiores sacrifícios; neste caso, até o da própria vida e o da felicidade de uma família muitíssimo querida. Está em causa, neste caso, obedecer a Deus e não aos homens. Não uma opinião ou um sentimento pessoal, mas uma lei suprema que não depende da pessoa, mas a ela se impõe.

Recordei-me do que, a respeito da consciência, diz a Gaudium et Spes (nº 6): «No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faz isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser.» [Concílio Vaticano II, Constituição Gaudium et Spes, sobre a Igreja no mundo]

E recordei-me das expressões da Lei da Liberdade Religiosa (Lei n.º 16/2001, de 22 de junho), onde se alude (no artigo 12.º), a propósito da objeção de consciência, às leis que contrariem «ditames impreteríveis da consciência», sendo «impreteríveis aqueles ditames cuja violação implica uma ofensa grave à integridade moral que torne inexigível outro comportamento». 

Perante absolutos morais impreteríveis, não valem cálculos consequencialistas como os de quem aconselhou Franz Jägestätter a tomar uma outra opção, porque o seu gesto não beneficiava ninguém (só o prejudicava a si e à sua família) e não impedia o regime de prosseguir a guerra e os seus crimes. A atitude do objetor de consciência não é, na verdade, a de quem, com o seu gesto, pretende (pelo menos, diretamente) mudar uma lei, muito menos o curso da história. Ele recusa, porém, ser cúmplice e colaborar com o Mal, para além das consequências que daí possam decorrer.

O objetor de consciência veicula uma posição socialmente minoritária. Ser fiel à consciência implica, muitas vezes, ir “contra a corrente”, estar sozinho contra o mundo. Mas a voz do mundo não abafa a voz interior da consciência, que é, para o crente, a voz de Deus. Na consciência, a pessoa está a sós com Deus (está sozinha), mas Deus dá-lhe uma força e uma luz que o mundo não dá. Este é um exemplo eloquente a este respeito. A voz da consciência de um camponês de pouca instrução, mas fé sólida, permitiu-lhe ver aquilo que quase todos não viram: num país de forte tradição cristã, foi dos poucos (na sua aldeia, o único, com a marginalização que daí resultou) a reconhecer a natureza profundamente anti-cristã e anti-humana da ideologia nacional-socialista.

Podem ferir a consciência ações aparentemente inócuas, e não apenas ações como a de matar pessoas inocentes. Não era esta a única (embora também o fosse) razão da objeção de consciência do nosso protagonista. O próprio juramento de fidelidade a Adolf Hitler (que ele encarava como o “anti-Cristo”) feria a sua consciência. Ele recusou, por isso, a simulação (hipócrita) desse juramento (que para o seu advogado de defesa seriam apenas palavras sem sentido), que até o poderia salvar. Vêm à mente, a propósito, os exemplos dos primeiros mártires do cristianismo, que recusavam, pura e simplesmente, prestar culto ao imperador ou a deuses falsos.

Pode questionar-se a intransigência da opção de Franz Jägestätter. É certamente compreensível que nem todos os cristãos (de várias denominações) alistados nas forças nacional-socialistas tenham seguido esse seu gesto heróico. Mas também é certo que, se muitos outros o tivessem feito em coerência com a sua fé cristã, talvez não tivesse ocorrido a tragédia que ocorreu.

E também não é verdade que o sacrifício de Franz Jägestätter não produziu frutos, nem em nada mudou o curso da história. Como exemplo a seguir, o seu testemunho produz frutos hoje (o filme é a prova disso mesmo), e produzirá no futuro. Como indica o título do filme e a sua mensagem final, os frutos de «vidas escondidas» podem passar despercebidos, mas existem. Também a este respeito, podem ser evocados os primeiros mártires cristãos, que mudaram o curso da história, mesmo que na altura do seu martírio muitos tenham pensado que o seu sacrifício era em vão.

Este é apenas um dos temas de reflexão que a visão deste filme pode suscitar.

Outro, não menos interessante e importante, é o do desafio à fé no amor de Deus que toda esta tragédia provoca nos protagonistas, Franz e a sua mulher (de quem, segundo reza a história para além do filme, ele terá recebido grande parte da solidez da sua fé). Ela, apesar de todo o sofrimento que tal lhe provoca, acaba por aceitar a opção do marido (o que este desejava, mais do que tudo). Ele (e ela de outra forma) parecem reviver a paixão de Cristo e a sensação por Este experimentada, de abandono do Pai («Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?»). No meio da desumanidade atroz da prisão, revivendo essa paixão, Franz vai-se aproximando de Deus cada vez mais, e refinando o seu amor ao próximo também cada vez mais. E é a fé na Ressurreição que dá sentido ao seu sacrifício e ao sacrifício da sua família.

Em suma, são vários os motivos por que vale a pena ver este filme.

 

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica

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