“Fratelli Tutti”: Corajoso apelo

| 29 Out 20

A encíclica Fratelli tutti (FT) que o Papa Francisco acaba de publicar é uma corajosa invocação de S. Francisco de Assis, a lembrar-nos que os valores éticos do cristianismo obrigam a ver os outros como necessário complemento de nós mesmos. Mas como assumimos que todos somos irmãos? Uma leitura atenta deste documento leva-nos ao encadeamento dos grandes temas sobre fraternidade e amizade social – envolvendo as sombras de um mundo fechado, a compreensão de um estranho no caminho, o pensar e o gerar de um mundo aberto, o coração aberto ao mundo inteiro, a política melhor, o diálogo e a amizade social, percursos de um novo encontro e religiões ao serviço da fraternidade do mundo.

“É verdade que uma tragédia global como a pandemia da covid-19 despertou, por algum tempo, a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco, onde o mal de um prejudica a todos. Recordamo-nos de que ninguém se salva sozinho, que só é possível salvar-nos juntos.” Por isso, “a tempestade – dizia o Papa Francisco em 27 de março último no auge da primeira vaga da pandemia – desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Com a tempestade, caiu a maquilhagem dos estereótipos com que mascaramos o nosso ‘eu’ sempre preocupado com a própria imagem; e ficou a descoberto, uma vez mais, esta (abençoada) pertença comum a que não nos podemos subtrair: a pertença como irmãos” (FT, 32). Mas a perplexidade continua. Nada continuamos a saber, mas precisamos de um equilíbrio entre o percurso individual de cada um e as possibilidades da consciência social.

A encíclica Fratelli Tutti, na edição da Paulus Editora

Que reação pode provocar hoje a narração da parábola do bom samaritano, o estranho no meio do caminho, num mundo onde constantemente aparecem e crescem grupos sociais, que se agarram a uma identidade que os separa dos outros? Como pode a antiga parábola impressionar pessoas que tendem a organizar-se de maneira a impedir qualquer presença estranha que possa perturbar a tal identidade e uma organização puramente defensiva? Neste esquema, fica excluída a possibilidade de entendermos o lugar do próximo, “sendo possível apenas ser próximo de quem me permite consolidar os benefícios pessoais. Assim o termo ‘próximo’ perde todo o significado, fazendo sentido apenas a palavra ‘sócio’, aquele que é associado para determinados interesses” (FT, 102).

Paul Ricoeur distingue nesse ponto a solidariedade e o cuidado ou caridade. Se a solidariedade é necessária, não pode reduzir-se a uma mera lógica assistencial. É preciso cuidar. Se as políticas de Segurança Social têm de se aperfeiçoar, a sociedade é chamada a organizar-se para o cuidado de quem está só ou está a ficar para trás.

“O diálogo social autêntico pressupõe a capacidade de respeitar o ponto de vista do outro, aceitando como possível que contenha convicções ou interesses legítimos. A partir da própria identidade, o outro tem algo para dar, e é desejável que aprofunde e exponha a sua posição para que o debate público seja ainda mais completo. Sem dúvida, quando uma pessoa ou um grupo é coerente com o que pensa, adere firmemente a valores e convicções e desenvolve um pensamento, isto irá de uma maneira ou outra beneficiar a sociedade; mas só se verifica realmente na medida em que o referido desenvolvimento se realizar em diálogo e na abertura aos outros. Com efeito, num verdadeiro espírito de diálogo, nutre-se a capacidade de entender o sentido daquilo que o outro diz e faz, embora não se possa assumi-lo como uma convicção própria. Deste modo torna-se possível ser sincero, sem dissimular o que acreditamos, nem deixar de dialogar, procurar pontos de contacto e sobretudo trabalhar e lutar juntos.” (FT, 203).

Numa sociedade pluralista, o diálogo e a troca são o meio mais adequado para reconhecer aquilo que sempre deve ser afirmado e respeitado e que ultrapassa o encontro ou o consenso ocasional. Falamos de um diálogo que precisa de ser fortalecido e iluminado por razões, por argumentos racionais, por uma variedade de leituras, por contribuições de diversos conhecimentos e opiniões, e que inclui a convicção de que é possível chegar a verdades fundamentais que devem e deverão ser defendidas com determinação e respeito mútuo.

Aceitar que há valores permanentes, embora nem sempre seja fácil reconhecê-los, confere solidez e estabilidade a uma ética social. E importa ter em consideração que quando os reconhecemos e assumimos pelo diálogo e pelo consenso, vemos que estes valores basilares estão para além do mero encontro momentâneo. “Reconhecemo-los como valores transcendentes aos nossos contextos e nunca negociáveis.” (FT, 211) Os direitos fundamentais assentam na eminente dignidade humana, de dimensão universal. Neste sentido, o consenso é uma realidade dinâmica –, mas como valor essencial é estável no seu sentido intrínseco.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 

Precisamos de nos ouvir (25) – Fátima Almeida: A transfiguração do Desenvolvimento

Precisamos de nos ouvir (25) – Fátima Almeida: A transfiguração do Desenvolvimento novidade

Há tempos e momentos que são mais propícios à reflexão e à interiorização, oferecendo-nos oportunidades de pensar, ou repensar, atitudes pessoais e realidades coletivas. E são estas oportunidades de refletir que, normalmente, nos abrem perspetivas de mudança, de ver novas formas de viver, de olhar novas respostas para combater injustiças, pobrezas e violações dos Direitos Humanos.

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Crónica

Segunda leitura – O caso, a sentença e o debate “na Net”

Segunda leitura – O caso, a sentença e o debate “na Net”

O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a condenação de um homem ao pagamento de mais de 60 mil euros à ex-companheira pelo trabalho doméstico que esta desenvolveu ao longo de quase 30 anos de união de facto. (Público, 24-2-2021)
No acórdão, datado de 14 de Janeiro (…), o STJ refere que o exercício da actividade doméstica exclusivamente ou essencialmente por um dos membros da união de facto, sem contrapartida, “resulta num verdadeiro empobrecimento deste e a correspectiva libertação do outro membro da realização dessas tarefas”.

Breves

Comissão Europeia reduz metas da luta contra a pobreza

A Comissão Europeia (CE) reduziu o objetivo europeu quanto ao número de cidadãos que pretende tirar da pobreza daqui até 2030: a meta são agora 15 milhões no lugar dos 20 milhões que figuravam na estratégia anterior [2010-2020]. O plano de ação relativo ao Pilar dos Direitos Sociais proposto pela CE inclui ainda a “drástica redução” do número de sem-abrigo na Europa, explicou, em entrevista à agência Lusa, publicada nesta sexta-feira, dia 5 de março, o comissário europeu do Emprego e Direitos Sociais, Nicolas Schmit.

Hino da JMJ Lisboa 2023 em língua gestual portuguesa

Há pressa no ar, o hino da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Lisboa 2023, tem agora uma versão em língua gestual portuguesa, interpretada por Bruna Saraiva, escuteira do Agrupamento 714 (Albufeira) do Corpo Nacional de Escutas.

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Boas notícias

É notícia

Espanha: Consignações do IRS entregam 300 milhões à Igreja Católica

Os contribuintes espanhóis entregaram 301,07 milhões de euros à Igreja Católica ao preencherem a seu favor a opção de doarem 0,7% do seu IRPF (equivalente espanhol ao IRS português). Este valor, relativo aos rendimentos de 2019, supera em 16,6 milhões o montante do ano anterior e constitui um novo máximo histórico.

Frequência dos seminários continua em queda em Espanha

A Conferência Episcopal Espanhola tornou público que a totalidade dos seminários existentes no país é frequentada neste ano letivo 2020-21 por 1893 alunos. O comunicado da Comissão para o Clero e os Seminários, divulgado nesta quarta-feira, 3 de março, especifica existirem 1066 jovens nos seminários maiores e 827 a estudar nos seminários menores (que correspondem ao ensino até ao 12º ano).

O 7MARGENS em entrevista na Rede Social, da TSF

António Marujo, diretor do 7MARGENS, foi o entrevistado do programa Rede Social, da TSF, que foi para o ar nesta terça-feira, dia 23, conduzido, como habitualmente, pelo jornalista Fernando Alves.

Parlamento palestino vai ter mais dois deputados cristãos

Sete das 132 cadeiras do Conselho Legislativo Palestino (Parlamento) estão reservadas para cidadãos palestinos de fé cristã, determina um decreto presidencial divulgado esta semana. O diploma altera a lei eleitoral recém-aprovada e acrescenta mais dois lugares aos anteriormente reservados a deputados cristãos.

Tribunal timorense inicia julgamento de ex-padre pedófilo

O ex-padre Richard Daschbach, de 84 anos, antigo membro dos missionários da Sociedade do Verbo Divino, começou a ser julgado segunda-feira, 22, em Timor-Leste, acusado de 14 crimes de abuso sexual de adolescentes com menos de 14 anos, de atividades ligadas a pornografia infantil e de violência doméstica.

Entre margens

Guardar o jardim do mundo novidade

Nestes tempos em que o início da Quaresma coincide com um estranho confinamento, explicado por uma pandemia que há um ano nos atinge e que vai afetar pelo segundo ano consecutivo a nossa Páscoa, importa recordar mais uma vez o que o Papa Francisco nos afirmou na encíclica Laudato Si’. Esta pandemia será ultrapassada, com mais ou menos esforço, mesmo que tenhamos de continuar a lidar com o vírus.

Arte de rua: amor e brilho no olhar

Ouvi, pela vida fora, incontáveis vezes a velha história da coragem, a mítica frase “eu não era capaz”; é claro que não, sempre que o preconceito se sobrepõe ao amor, não é possível ser-se capaz. Coragem?? Coragem eu precisaria para passar pela vida sem realizar os meus desejos, nesse louco trapézio entre doses paralelas de coragem e cobardia.

Eternidade

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Canções para estes tempos de inquietação 

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Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors.

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Como escrever sobre um filme que nos parece importante, mas nem sequer foi daqueles que mais nos entusiasmou? E, no entanto, parece “obrigatório” escrever sobre ele, o último filme de Abel Ferrara, com o seu alter-ego e crístico Willem Dafoe: Sibéria.

Sete Partidas

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Hoje conto-vos acerca da nossa viagem ao Sul, na semana de Acção de Graças em pleno Novembro de 2020. Um dos aspectos interessantes de viver nos Estados Unidos é a possibilidade de, sem sair das fronteiras do país, encontrarmos de tudo um pouco: desde o inverno gélido de Washington DC aos cenários verdes e húmidos da Geórgia, passando pela secura e aridez do Mississípi.

Aquele que habita os céus sorri

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