
Dois caminhos para dar sequência `encíclica Fratelli Tutti. Foto © Alexandre Hamada Possi/Wikimedia Commons
1. O 7MARGENS já publicou alguns artigos valiosos que sumariam e comentam a encíclica Fratelli Tutti (FT), do Papa Francisco. Nesta breve reflexão, vou concentrar-me em dois caminhos possíveis para a respetiva sequência: um deles consiste na consagração; e o outro na ação.
O caminho da consagração implica, por exemplo: falar da encíclica, mais ou menos encomiasticamente; comentá-la, mais ou menos academicamente; inseri-la na doutrina social da Igreja (DSI), no pensamento social cristão, religioso em geral ou laico; inseri-la na formação, no ensino e na investigação católicas; contribuir para o seu estudo noutras confissões religiosas e em instituições laicas… Tudo isto é natural e necessário; porém, corre o sério risco de não respeitar a intenção do Autor, que deseja por certo contribuir para atuações pessoais, comunitárias, institucionais, políticas e outras promotoras de “fraternidade e amizade social” efetivas.
O caminho da ação dos católicos, e de outras pessoas motivadas pela encíclica, implica nomeadamente: o seu estudo; o confronto das suas propostas com as realidades socioeconómicas, ecológicas e políticas; a ponderação das diferentes opções ideológicas e técnicas para a solução dos problemas dignosticados nesse confronto; a procura efetiva de soluções – imediatas e de fundo – para eles; e avaliações periódicas. Tudo isto deveria ocorrer através da reflexão e do diálogo, admitindo como natural o pluralismo dos seus participantes e, com ele, a eventual militância em correntes de pensamento, partidos políticos e organizações de classe, ou outras, diferentes.
Parece recomendável que as reflexões dialogadas tendam para posições comuns, no domínio dos princípios doutrinários; e parece natural que mantenham, em maior ou menor grau, as diferenças de posicionamentos sociopolíticos. Felizmente, encontra-se excluída, no plano doutrinário, a existência de partidos católicos, por implicarem um grave empobrecimento do pluralismo e a confusão da mensagem cristã com opções discutíveis e parciais (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nºs. 573-574; cf. encíclica Mater et Magistra, de João XXIII, nº. 238; constituição pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, nº 43; e encíclica Octogesima Adveniens, de Paulo VI, nºs. 4 e 50).
2. Seria altamente estimulante a criação de círculos de diálogo e intervenção (com este ou outro nome), no maior número possível de dioceses, paróquias, outras organizações ou independentemente de enquadramento institucional. Eles destinar-se-iam precisamente à reflexão, diálogo e intervenção sociopolítica atrás referidas. Como frutos do seu trabalho poderíamos esperar: o conhecimento e aprofundamento da DSI e do pensamento social cristão; a clarificação, complementaridade e eventual aproximação de posicionamentos diferentes; um exemplo visível de pluralismo sadio; melhor atuação de cada participante na vida local, profissional e sindical, empresarial e patronal, socieconómica, cultural e política em geral. De facto, a intervenção cristã na melhoria do mundo e na transformação de estruturas não se pode limitar a enunciados doutrinários, mas precisa de uma verdadeira inserção plural no interior das realidades terrestres (cf. constituição Lumen Gentium, nºs. 31 e 36, e decreto Apostolicam Actuositatem, nºs. 5,7 e 13, ambos do Concílio Vaticano II).
Mais tarde, a partir destas iniciativas, poderá intensificar-se e organizar-se o “grande movimento”, de base laical, reconhecido por João Paulo II na encíclica Centesimus Annus, nº. 3?… – Registe-se que, nesta linha de rumo, Francisco defende a “fraternidade universal” como orientação de fundo, na encíclida Laudato Si’, nº. 228; esta mesma fraternidade vem agora aprofundada e desenvolvida na Fratelli Tutti.
Acácio F. Catarino é consultor social










