“Fratelli Tutti”: O testamento político do Papa Francisco

| 5 Out 20

O Papa Francisco, neste sábado, 3, em Asssi, quando assinava a encíclica. Foto reproduzida da transmissão do Vatican Media no canal YouTube.

 

Estamos provavelmente perante o testamento político-social do Papa Francisco: se a Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum, é talvez o texto mais inovador do seu pontificado, na proposta que faz à Igreja Católica e ao mundo no âmbito da ecologia integral, a nova encíclica Fratelli Tutti, ontem assinada em Assis e que foi divulgada pouco antes das 11h30 deste domingo, 4 de Outubro, é uma síntese do pensamento do Papa argentino acerca da fraternidade e da amizade social. Ou seja, é a sistematização do pensamento político e social do Papa, no qual cabe um diagnóstico vasto sobre a situação no mundo, no que diz respeito a problemas a que ele tem dedicado muitas das suas intervenções: migrantes e refugiados, populismos, racismo, novas escravaturas, tráfico de seres humanos, violência sobre mulheres e crianças, pena de morte – e também, de novo, o drama ecológico.

Por contraste, o documento propõe que a fraternidade e a amizade social sejam lidas com chaves como o respeito pelos direitos humanos, a busca incessante da paz, a proposta da amabilidade, a valorização da função social da propriedade ou o perdão. E faz sugestões concretas como a da eliminação da pena de morte no mundo, a constituição de um fundo contra a fome financiado pelas despesas militares, do fim das armas nucleares e da prisão perpétua, a reforma “quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações”.

Na fundamentação teológica e espiritual do tema, o Papa Francisco toma a parábola do bom samaritano, contada por Jesus no evangelho de São Lucas: uma história em que um homem vítima de assaltantes é ajudado por um samaritano, símbolo de alguém proscrito pelos judeus, depois de dois religiosos do tempo terem passado ao largo, sem ajudar.

“Esta parábola é um ícone iluminador, capaz de manifestar a opção fundamental que precisamos de tomar para reconstruir este mundo”, escreve o Papa. “Diante de tanta dor, à vista de tantas feridas, a única via de saída é ser como o bom samaritano. Qualquer outra opção deixa-nos ou com os salteadores ou com os que passam ao largo, sem se compadecer com o sofrimento do ferido na estrada.”

 

“Num contexto mais amplo de reflexão”

O próprio Francisco assume, logo no início do texto, que ele constitui uma síntese do seu pensamento: “As questões relacionadas com a fraternidade e a amizade social sempre estiveram entre as minhas preocupações”, escreve o Papa, que a elas se referiu “repetidamente nos últimos anos e em vários lugares”. E acrescenta: “Nesta encíclica, quis reunir muitas dessas intervenções, situando-as num contexto mais amplo de reflexão.”

Este documento é, no entanto, mais do que uma simples colagem de discursos ou intervenções, procurando sistematizar e relacionar os temas uns com os outros. Mas há, entretanto, uma outra influência na sua origem: “se na redacção da Laudato si’ tive uma fonte de inspiração no meu irmão Bartolomeu, o Patriarca ortodoxo que propunha com grande vigor o cuidado da criação, agora senti-me especialmente estimulado pelo Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, com quem me encontrei, em Abu Dhabi, para lembrar que Deus ‘criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade, e os chamou a conviver entre si como irmãos’.”

O encontro de Fevereiro de 2019 que o Papa refere, e a declaração conjunta que dele surgiu, precisamente sobre a fraternidade humana, não foi um “mero acto diplomático”, mas resultou de uma “reflexão feita em diálogo” e de um “compromisso conjunto”, diz.

Por estas razões, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa escreve, num comentário exclusivo para o 7MARGENS, que esta nova encíclica de Francisco “é um grito brutal e, ao mesmo tempo, a expressão de um poder mobilizador como nenhum dos sucessivos documentos do Papa Francisco.”

 

“Único caminho para o desenvolvimento e a paz”

Oração do Angelus do Papa: “A fraternidade é o único caminho para o desenvolvimento e a paz”. Foto: Direitos reservados. 

 

Na alocução que fez há pouco mais de uma hora, após a oração do Angelus, o Papa referiu-se à inspiração franciscana da Laudato Si’. Agora, a Fratelli Tutti propõe “a fraternidade humana como único caminho na direcção do desenvolvimento integral e da paz”, como já tinham indicado os últimos papas, disse, referindo João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Uma edição da encíclica iria mesmo ser oferecida aos peregrinos que estavam na praça, disse Francisco, marcando também o recomeço da edição em papel do L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, suspensa desde Março por causa da pandemia.

Com uma introdução e oito capítulos, o Papa começa por referir a motivação do texto da encíclica: Francisco de Assis convidava “a um amor que ultrapassa as fronteiras da geografia e do espaço”, no qual declarava “feliz quem ama o outro, ‘o seu irmão, tanto quando está longe, como quando está junto de si’”. Por isso, a encíclica propõe “o essencial duma fraternidade aberta, que permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita”.

A encíclica recorda, a propósito, o encontro de Francisco de Assis com o sultão do Egipto, Malik al-Kamil, há 800 anos. Um episódio que mostra o “coração sem fronteiras” do santo, “capaz de superar as distâncias de proveniência, nacionalidade, cor ou religião”.

O texto faz, depois, um diagnóstico pesado da situação: há inúmeras situações em que as pessoas são descartadas, os direitos humanos não são “suficientemente universais”, predomina o conflito e o medo; a globalização sem rumo só beneficia alguns e contribui para o aumento das desigualdades, facto agravado com a pandemia que desde Janeiro atinge o mundo; aumentam as novas escravaturas em que as pessoas são privadas da liberdade e tratadas como objecto; a pandemia aumentou também a situação de marginalização que os mais velhos têm sido sujeitos; migrantes e refugiados são vítimas de uma cultura de muros ; populismos, racismos e discursos de ódio estão em crescendo; deve mudar-se o paradigma do dogma neoliberal do mercado que “não resolve tudo” e reflecte um pensamento “pobre e repetitivo”; nas redes sociais e com as novas tecnologias aumentou a agressividade, a mentira e a falta de sabedoria, como se analisa neste outro texto no 7MARGENS.

 

“Embatemos no homem ferido”

O bom samaritano, mosaico de Marko Rupnik. Foto: Direitos reservados.

 

Para contrariar esta situação, Francisco propõe a parábola do bom samaritano como uma história que se vai repetindo ao longo dos tempos e também hoje de novo. “Enquanto caminhamos, inevitavelmente embatemos no homem ferido. Hoje, há cada vez mais feridos. A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projectos económicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia enfrentamos a opção de ser bons samaritanos ou viandantes indiferentes que passam ao largo. E se estendermos o olhar à totalidade da nossa história e ao mundo no seu conjunto, reconheceremos que todos somos, ou fomos, como estas personagens: todos temos algo do ferido, do salteador, daqueles que passam ao largo e do bom samaritano.”

É com esta base que ele faz, depois, a proposta de “pensar e gerar um mundo aberto”, título do capítulo III. Sociedades, povos e nações devem, tal como os indivíduos, acolher quem é diferente, pobre, marginalizado, vítima… E, recuperando o conceito de Paul Ricoeur em Le Socius et le Prochain, sugere que, em vez de um mundo de sócios, unidos apenas por interesses, se construa um mundo fraterno, de igualdade e liberdade para todos. “O individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, pudéssemos construir o bem comum.”

Um dos subtítulos leva mesmo o título da trilogia da Revolução Francesa, o que não deixa de ser significativo num documento papal, tendo em conta a oposição feroz que a Revolução dedicou à Igreja Católica e que esta, durante muito tempo, devolveu. Neste capítulo, cabe ainda uma reflexão de fundo sobre a necessidade de recuperar a noção de função social da propriedade, um conceito que integra a doutrina social da Igreja, mas que tem estado muito esquecido e arredado das propostas concretas de muitos âmbitos católicos.

Neste capítulo, o Papa refere: “Alguns nascem em famílias com boas condições económicas, recebem boa educação, crescem bem alimentados, ou possuem por natureza notáveis capacidades. Seguramente não precisarão dum Estado activo, e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra a uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades. Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não há lugar para tais pessoas, e a fraternidade não passará duma palavra romântica.”

A verdade, acrescenta ainda, é que “a simples proclamação da liberdade económica, enquanto as condições reais impedem que muitos possam efetivamente ter acesso a ela, torna-se um discurso contraditório. Palavras como liberdade, democracia ou fraternidade esvaziam-se de sentido. Na realidade, enquanto o nosso sistema económico-social ainda produzir uma só vítima que seja e enquanto houver uma pessoa descartada, não poderá haver a festa da fraternidade universal”.

 

“A grande questão é o trabalho”
Minas. Crianças. Trabalho infantil. Congo

Um mineiro a fazer triagem do cobalto, na RDCongo: a questão é dar dignidade aos mais pobres pelo trabalho e não ficar pela ajuda de emergência, diz o Papa. Foto © Amnesty International e Afrewatch

 

A globalização, os seus limites e potencialidades, e a sua articulação com o âmbito local, são o tema do quarto capítulo: “É preciso prestar atenção à dimensão global para não cair numa mesquinha quotidianidade. Ao mesmo tempo convém não perder de vista o que é local, que nos faz caminhar com os pés por terra. As duas coisas unidas impedem de cair em algum destes dois extremos: o primeiro, que os cidadãos vivam num universalismo abstracto e globalizante (…); o outro extremo é que se transformem num museu folclórico de eremitas localistas, condenados a repetir sempre as mesmas coisas, incapazes de se deixar interpelar pelo que é diverso e de apreciar a beleza que Deus espalha fora das suas fronteiras.”

Para conseguir tais desideratos, é preciso uma “política melhor”, sugere o Papa. Recusando os populismos que crescem pelo mundo, Francisco sugere, no entanto, que o conceito de povo não deve ser abandonado, pois isso significaria a traição ao próprio fundamento da democracia: “a pretensão de introduzir o populismo como chave de leitura da realidade social contém outro ponto fraco: ignora a legitimidade da noção de povo”, escreve o Papa. “A tentativa de fazer desaparecer da linguagem esta categoria poderia levar à eliminação da própria palavra ‘democracia’, cujo significado é precisamente ‘governo do povo’. Contudo, para afirmar que a sociedade é mais do que a mera soma de indivíduos, necessita-se do termo ‘povo’”.

Neste aspecto, diz o Papa, “a grande questão é o trabalho”. E acrescenta: “Ser verdadeiramente popular – porque promove o bem do povo – é garantir a todos a possibilidade de fazer germinar as sementes que Deus colocou em cada um, as suas capacidades, a sua iniciativa, as suas forças. Esta é a melhor ajuda para um pobre, o melhor caminho para uma existência digna. Por isso, insisto que ‘ajudar os pobres com o dinheiro deve sempre ser um remédio provisório para enfrentar emergências. O verdadeiro objetivo deveria ser sempre consentir-lhes uma vida digna através do trabalho.”

Ao contrário, o “pensamento pobre, repetitivo” do neoliberalismo “que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio” reproduz-se sempre “a si mesmo, recorrendo à mágica teoria do ‘derrame’ ou do ‘gotejamento’ – sem a nomear – como única via para resolver os problemas sociais.” E o Papa coloca mesmo em causa a ideia da simples redistribuição, que “não resolve a desigualdade, sendo, esta, fonte de novas formas de violência que ameaçam o tecido social”.

 

Perdoar, mas não esquecer

A nuvem nuclear sobre Hiroxima: há tragédias que não de podem esquecer. Foto: Direitos reservados

 

O amor deve ter também uma dimensão política, quer ao nível nacional, quer internacional, sugere ainda. E também o diálogo e a amizade social, como busca do consenso e da verdade e método para a construção de uma cultura do encontro, devem incorporar o trabalho político. É nesta fase que o Papa propõe que se recupere a noção e a prática da amabilidade, como “libertação da crueldade que às vezes penetra nas relações humanas, da ansiedade que não nos deixa pensar nos outros, da urgência distraída que ignora que os outros também têm direito de ser felizes”.

Na linha do que já os seus antecessores João Paulo II e Bento XVI tinham sugerido, também o perdão é uma atitude que deve ser levada para a política, sugere Francisco, no capítulo dedicado à forma de construir o “artesanato da paz”. O perdão, mas não o esquecimento, diz, referindo que não se podem acontecimentos como as tragédias da Shoah ou dos bombardeamentos de Hiroxima e Nagasáqui. A Shoah, concretamente, “não deve ser esquecida”, pois é o “símbolo dos extremos aonde pode chegar a malvadez do homem, quando, atiçado por falsas ideologias, esquece a dignidade fundamental de cada pessoa, a qual merece respeito absoluto seja qual for o povo a que pertença e a religião que professe”.

Também os absurdos da guerra e da pena de morte integram este capítulo: “Hoje, afirmamos com clareza que a pena de morte é inadmissível e a Igreja compromete-se decididamente a propor que seja abolida em todo o mundo”.

 

Violência não tem fundamento na religião

Vigília pelas vítimas dos atentados contra o Charlie Hebdo: a violência em nome de Deus é uma deformação dos verdadeiros fundamentos das religiões. Foto © Ozias Filho.

 

Finalmente, o último capítulo é dedicado ao papel das religiões na construção de um mundo mais fraterno. De novo, surge aqui a recusa absoluta do uso da violência em nome da religião: “Como crentes, somos desafiados a retornar às nossas fontes para nos concentrarmos no essencial: a adoração de Deus e o amor ao próximo, para que alguns aspectos da nossa doutrina, fora do seu contexto, não acabem por alimentar formas de desprezo, ódio, xenofobia, negação do outro.” E reafirma Francisco: “A verdade é que a violência não encontra fundamento algum nas convicções religiosas fundamentais, mas nas suas deformações.”

Neste capítulo, cabe ainda o apelo a que a liberdade dos cristãos seja respeita nos países onde estes são minoria, tal como a de outras religiões é favorecida em países de maioria cristã. E também a que a voz da religião e da espiritualidade tenha expressão pública: “Não se pode admitir que, no debate público, só tenham voz os poderosos e os cientistas. Deve haver um lugar para a reflexão que provém de um fundo religioso que recolhe séculos de experiência e sabedoria. Os textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora, mas de facto são desprezados pela miopia dos racionalismos.”

A encíclica termina retomando os apelos feitos na declaração assinada com o imã Ahmad Al-Tayyeb, em nome dos pobres, dos miseráveis, dos órfãos e viúvas, dos refugiados e exilados, da fraternidade e da liberdade: “Em nome de Deus e de tudo isto, declaramos adoptar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério.”

 

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