Fraternidade sem fronteiras

| 1 Out 2022

 

A fraternidade é imprescindível na vida e na missão. No Congresso sobre o tema, a realizar nos dias 14 e 15 de Outubro, em Lisboa, queremos reflectir sobre a construção da fraternidade na sociedade, na política, na economia, na missão, no diálogo entre as religiões e na reconstrução da esperança.

Porquê realizar um congresso sobre a fraternidade sem fronteiras? Há muitas razões. Eis algumas:

1. Tentar sintonizar-nos como o magistério do Papa Francisco que, em Outubro de 2020 nos deu a carta encíclica Fratelli Tutti. O Papa sugere o tema da fraternidade e da amizade social, porque: 1) vê neles o caminho para a liberdade e a igualdade (FT, 103 e 104), um tipo de cimento social; e 2) porque vê sinais preocupantes da sua falta no rumo que estamos a tomar, na convivência social. 

Aduz alguns exemplos preocupantes:

• A primazia dada às ideologias, que cegam, que manipulam o debate, mudam o sentido das palavras e criam factos e narrativas alternativas – e não se dá atenção à realidade das pessoas e do mundo, sabendo que o encontro com pessoas reais faz cair as barreiras do preconceito.

• Crescente falta de consciência histórica;

• Dificuldade em escutar os outros, respeitá-los (no trânsito, no cumprimento dos deveres sociais, nos hábitos de limpeza, etc.), acolhê-los e dar voz aos “exilados ocultos” (pessoas com deficiência e idosos) (FT, 98).

Dificuldade na transmissão dos valores: “Vivemos já muito na degradação moral, furtando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade. (…) Uma tal destruição de todo o fundamento da vida social acaba por colocar-nos, na defesa dos próprios interesses, uns contra os outros” (FT, 113).

• O nacionalismo fechado (diferente do patriotismo) que cria novas formas de egoísmo e leva a perder o sentido social.

• A guerra que estilhaça o sonho de uma crescente comunhão entre os povos: “A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal” (FT, 261).

• O aumento das feridas e daqueles que se sentem ignorados pelo sistema político (que faz aumentar os extremismos).

2. Além da reflexão que vai proporcionar, o Congresso pode ajudar a despertar/estimular a nossa responsabilidade na criação de um mundo melhor. Na sua reflexão sobre a parábola do Bom Samaritano, o Papa Francisco diz: “Não devemos esperar tudo daqueles que nos governam. Seria infantil. Gozamos de um espaço de corresponsabilidade capaz de iniciar e gerar novos processos e transformações. Sejamos parte activa na reabilitação e apoio das sociedades feridas. Hoje temos à nossa frente a grande ocasião de expressar o nosso ser irmãos, de ser outros bons samaritanos que tomam sobre si a dor dos fracassos, em vez de fomentar ódios e ressentimentos” (FT, 77). E acrescenta: “Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da Terra” (FT, 79). O desafio é deixar de lado as diferenças – ultrapassar os preconceitos, as barreiras históricas e culturais (FT, 83) – e fazer-nos próximos, vizinhos dos que precisam. Por isso, a conclusão da parábola é: “Vai e faz tu também o mesmo” (Lc 10, 37). Cada um tem o seu papel a desempenhar, além do que possa fazer, por exemplo, a política ou a comunicação social.

3. No Congresso queremos reflectir sobre algumas das sugestões do Papa Francisco para a construção da fraternidade na sociedade, na política, na economia, na missão, no diálogo entre as religiões e na reconstrução da esperança. Eis algumas pistas para percorrer o caminho da fraternidade: 

• Importância da prestação de contas (accountability) e da transparência na administração da coisa pública.

• Importância da amabilidade na construção de pontes e na busca de consensos (FT 222-224), da verdade (FT 226), do perdão e da reconciliação (FT 236ss).

• Necessidade de pensar numa ética das relações internacionais e numa ética global de solidariedade e cooperação (FT, 127) de modo a garantir o direito dos povos, e não só dos indivíduos (FT, 126).

Diálogo e convivência entre as religiões.

• Dar atenção à “dimensão política da existência que implica uma atenção constante ao bem comum e a preocupação pelo desenvolvimento humano integral” (FT, 276).

4. A questão da universalidade da fraternidade.

• O Papa Francisco diz que “é impossível compreender-me a mim mesmo sem uma teia mais ampla de relações” (FT, 89), que devem ir além do pequeno grupo de amigos.

• Diz também que “o amor coloca-nos em tensão para a comunhão universal” (FT 95).

• E citando a sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2014, diz que “o número sempre crescente de ligações e comunicações que envolvem o nosso planeta torna mais palpável a consciência da unidade e de partilha de um destino comum entre as nações da Terra” (FT 96).

• O Papa sublinha a ideia de que as pessoas, os países, os povos e as culturas devem estar abertas ao universal para crescerem. “Toda a cultura saudável é, por natureza, aberta e acolhedora” (FT, 146).

• “É preciso olhar para o global, que nos resgata da mesquinhez caseira” (FT, 142).

5. Este é um Congresso Missionário não só porque os missionários estão na linha da frente da organização; é missionário porque a Igreja é missionária e a construção da fraternidade é parte da sua missão evangelizadora.

O Papa Francisco não fala especificamente deste tema na Fratelli Tutti, mas muito do que é dito em relação à amizade social pode aplicar-se à missão de evangelização.

• A fraternidade como paradigma de missão. Poderíamos dizer que “A fraternidade é o novo nome da missão.” A missão deve construir, promover a fraternidade.

• A fraternidade deve começar em casa e quando não existe compromete a missão. “Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35). O sucesso da missão entre os pagãos deve-se ao facto, segundo Tertuliano, de que eles observavam a maneira como os cristãos se amavam. 

• A missão visa “alargar o espaço da tenda” do nosso coração (Isaías 54, 2-3, abatendo medos e preconceitos) para poder caber mais gente das várias proveniências… O Papa Francisco fala de “ampliar o nosso círculo” (FT, 83) e de “alargar o meu círculo, chegar àqueles que espontaneamente não sinto como parte do meu mundo de interesses, embora se encontrem perto de mim” (FT, 97). 

• Missão é caminhar juntos e testemunhar uma vivência, e não tanto ideias.

• “Há necessidade de artesãos de paz prontos a gerar, com inventiva e ousadia, processos de cura e de um novo encontro” (FT 225).

José Rebelo é padre católico, dos Missionários Combonianos e é director nacional das Obras Missionárias Pontifícias.

 

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